Emagrecendo estrelas

Nas mãos desse endocrinologista tranquilo, que dá exemplo seguindo um estilo de vida espartano, celebridades reencontram a silhueta perdida – sem dietas mirabolantes, apenas desenvolvendo uma nova  relação com a comida.
Por Celso Arnaldo Araujo
Fotos Daniel Cancini

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No bairro de Moema, uma clínica diferenciada – serviço de vallet, um lago com carpas, telas de plasma com shows internacionais, decoração ofisticada, recepcionistas supercharmosas. Uma embalagem sob medida para o trabalho do Dr. Maurício Hirata – que, entre seus pacientes, atende inúmeras celebridades insatisfeitas com seu peso ou com
sua relação com a comida – entre elas, mais recentemente, Eliana, Amaury Jr., César Filho, Luiza Thomé. O Dr. Hirata não tem fórmulas mágicas – com sua paciência oriental, faz uma espécie de coaching do cotidiano de cada paciente, levantando origens e causas do descontrole alimentar que resultou no ganho de peso e na perda da qualidade de vida. Para atingir o equilíbrio, às vezes é preciso algum sacrifício
– mas o resultado é compensador. Aqui, os segredos de Hirata – o emagrecedor das estrelas

 

 

 

 


 

Como é que você explica o seu sucesso profissional? Por que você é o favorito das celebridades?

 

 

 

 

 

Porque não tenho fórmulas. O que eu tento é me incorporar em cada paciente, porque cada paciente é de um jeito, para descobrir a saída para uma vida mais saudável. É preciso conhecer cada paciente na intimidade para individualizar o tratamento. Não adianta ficar passando remédio, mas fazer um planejamento pessoal para mudança de estilo de vida – com diversas alternativas. Todo mundo sabe o que é preciso comer e o que não se deve comer. Mas como chegar lá é complicado. Quando digo que me incorporo em cada paciente é porque eu só prescrevo o que eu, pessoalmente, consigo fazer. Só peço o que já consegui fazer. É difícil você reencontrar um amigo de muitos anos sem que ele esteja muito mais gordo.

 


 

 

Por que as pessoas engordam à medida que envelhecem?

 

 

 

Por causa do envelhecimento celular, que deixa o metabolismo mais lento. Cada vez é preciso fazer mais atividade física e comer menos… Esse é o problema. Como você disse, Maurício, todo mundo mais ou menos sabe o que é comida saudável e o que engorda e faz mal. Mas é difícil resistir às tentações. Eu, por exemplo, faço uma revista de gastronomia… Esse é um dado importante. Mas eu precisaria analisar não só o que você come, mas quantas horas você dorme, qual é o seu nível de stress, como está seu casamento. Só posso encontrar uma solução examinando todas essas variáveis. Não é receita de bolo. Seu padrão alimentar teria de mudar baseado em sua realidade. Não posso pedir a um chef de cozinha que não prove os pratos que produz. Cada paciente tem de ser adaptado a seu cotidiano pessoal e profissional. É possível que você, por exemplo, eventualmente, por obrigação profissional, coma sem fome. Passar remédio para controlar seu apetite seria inócuo. O que coloco de maneira geral a meus pacientes é o seguinte: você quer viver mais tempo e melhor? Então não dá para comer de tudo o tempo todo. Eu, por mim, comia pizza toda noite. Mas não dá. A gente pode fazer concessões, mas a disciplina é fundamental – e o lucro para a saúde é evidente. Para uma pessoa que tem de ir, por exemplo, a três ou quatro coquetéis ou jantares por semana, eu recomendaria que, num ou outro caso, coma antes em casa, para resistir melhor à tentação de alimentos calóricos e gordurosos, como salgadinhos e petiscos. É preciso selecionar, permanentemente. Muitas pessoas, no corre-corre do dia a dia, não têm tempo de fazer uma refeição saudável.

Não vale uma coxinha de vez em quando?
Lembre-se apenas que uma coxinha equivale a um prato com um filé de frango quatro colheres de arroz, uma salada… Se não der para fazer uma refeição balanceada, um opção melhor seriam alguns suplementos para diabéticos que substituem uma refeição. Ou levar marmita para o trabalho. Aqui ainda é brega mas nos Estados Unidos muita gente faz isso. Todas as empresas deveriam ter um espaço para os funcionários fazerem refeições trazidas de casa. Não é coisa de pobre, não. É chique.

Não existe, portanto, dieta milagrosa?
As dietas vão mudando com o tempo. Antigamente, ovo era considerado veneno, por causa do colesterol. Hoje se sabe que ovo contém lecitina, uma substância que contêm ácidos graxos fundamentais para nossa saúde. Mas é evidente que todas as dietas devem ser orientadas por médicos ou nutricionistas – há pessoas, por exemplo, que não devem comer ovo.

Mas e essas dietas do abacaxi, de Beverly Hills, das cores?
Isso são modismos sem nenhuma base científica. As dietas alimentares sérias são baseadas na fisiopatologia.Há uma explicação para cada tipo de alimento. Por isso, hoje é possível usar a dieta como se fosse um remédio. Há, por exemplo, gorduras ruins e gorduras benéficas, carboidratos bons e ruins – estes fazem subir a insulina muito rápido. Com isso, cai o nível de açúcar no sangue e a pessoa sente fome e começa a comer de novo. Dieta não é apenas para perder peso, mas para resgatar a saúde. Por isso, não adianta prescrever apenas dietas hipocalóricas para todos ao pacientes, como se fazia no passado. Caloria não é tudo.

 

Mas não está comprovado que as dietas com restrições de caloria são as únicas 100% eficientes na perda de peso?
Sim, se as pessoas estiverem presas…O problema é que, no dia a dia, manter isso o tempo todo é quase impossível. Mesmo porque, há certos tipos de alimentos que supostamente emagrecem mas que podem provocar fome. É o caso dos adoçantes, que tapeiam o hipotálamo, o centro da fome, mas liberam substâncias que existem nas células dos intestinos, que aumentam o apetite e podem até aumentar a glicemia – exatamente o que um adoçante se propõe evitar.

Você então não recomenda o adoçante?
Nem o açúcar, evidentemente. O ideal é a pessoa se acostumar com o sabor natural do alimento.

Nunca mais comer um doce?
Se tiver vontade de comer um doce, coma um doce. Apenas não acrescente açúcar ou adoçantes a cafezinho, chá, sucos. Quando se suspende adoçante por pelo menos duas semanas, diminui bastante a vontade comer carboidrato. Hoje, nos Estados Unidos, aliás, questionase a indicação de adoçantes a diabéticos juvenis – por causa do aumento dos índices glicêmicos.

 

Os grandes vilões da alimentação são mais ou menos óbvios – excesso de açúcar e de sal, comidas muito gordurosas. Quais são os menos óbvios?
Alimentos defumados, que contêm hidrocarbonetos, potencialmente cancerígenos. Não apenas carnes e embutidos, mas até pizza com aquele queimado de carvão no fundo.

 

 

 

 

 

 

Por falar em vilão, aquela barriguinha masculina “de chope”, que era tão inocente, agora foi transformada numa ameaça à saúde do homem. Por quê?

Porque está linkada a diabetes, infartos, derrames. Essa gordura que se acumula no abdome produz uma série de elementos nocivos ao metabolismo. É a pior forma de gordura que existe, pois aumenta o apetite, a glicemia, possivelmente altera o DNA das células. E é a gordura mais difícil de queimar. Portanto, o segredo é não deixar acumular. O acúmulo de gordura no pescoço também pode ter esses mesmos efeitos nocivos.

Você disse que tem de levantar a “ficha” do paciente antes de prescrever o tratamento. Mas quanto tempo leva para conhecer cadapaciente e personalizar a dieta?

Alguns meses. Quanto tempo você levou para conhecer verdadeiramente sua mulher? Isso precisa de tempo, várias consultas. O que faço é uma espécie de coaching. Não dá para personalizar um tratamento sem esse tempo de estudo. Mas isso não impede de você já sair da primeira consulta com uma orientação dietética básica.Não é receita de bolo, mas uma dieta inicial de bom senso, que depois vai sendo ajustada às características de cada paciente.

A maior parte de seus pacientes, presumo, são sedentários. Como é que você estimula esse individuo a se mexer um pouco?

É vital. Mas você só consegue isso se oferecer ao paciente alternativas viáveis. Não adianta eu recomendar academia todo dia se o sujeito não tem tempo nem disposição. Mas meia hora de caminhada cinco vezes por semana é o mínimo, mesmo que seja numa esteira, em casa – e com um DVD na frente para aquilo não ficar monótono. Isso pelo menos melhora os níveis de serotonina no cérebro e aumenta o bem-estar.

Mas o ponto-chave é conseguir passar diante da vitrina da RotisserieBologna, por exemplo, sem comer um camarão-rosa empanado. Como resistir? Preparo psicológico?

Não só psicológico. Há fenômenos bioquímicos que provocam compulsão por alimentos e isso é possível corrigir. Uma pessoa estressada, com queda na serotonina, vai usar esse camarão para melhorar seu humor. Pode ser também, repito, efeito -rebote de excesso de adoçantes. A compulsão por comida tem os mesmos mecanismos da compulsão para sexo, droga, jogo. Não é sem-vergonhice, a não ser eventualmente, mas desequilíbrio químico.

Quando é que você usa remédios?

Quando se detecta algum desequilíbrio desse tipo. Mas nem sempre são medicações de regulação do apetite. Posso até trocar um remédio de pressão ou diabetes que o paciente já usava e ele começa a emagrecer. Ou recomendarum antidepressivo, para a pessoa não comer sem fome. Outro remédio para reduzir a compulsão. Mas é perfeitamente possível tratar sem medicação uma pessoaque deseje realmente perder peso.

E os inibidores de apetite, quando usar?

Quando o paciente demonstra zero de motivação para emagrecer – mas precisa. Antes, é necessário identificar a natureza da fome.

E essa história de que o sujeito não come e engorda? Mito ou verdade?

Lamentavelmente existem os que foram construídos para comer pouco e engordar, isto é, com gens poupadores. Esse é um paciente difícil.

Tratar famosos é mais fácil ou mais complicado?

Mais difícil. São formadores de opinião e em geral já passaram por vários médicos. Estão “vacinados” e precisam de alternativas diferentes. Mas também aprendo muito com eles.