Perfume está no ar

O Brasil superou os EUA e já é considerado o país que mais consome perfumes no mundo. Enquanto a indústria nacional comemora, as grandes grifes internacionais também ganham mercado e a confiança de um novo público. Para entender melhor esse universo, Go Where conversou com perfumistas famosos, como o francês Jacques Cavallier, que já criou para Bulgari, L´Eau d´Issey e Lâncome, descobriu essências que enfeitiçam homens e mulheres e visitou o Museu do Perfume em São Paulo

Por Lilian Anazetti
Fotos Wellington Nemeth

Sofisticação em vidros e essências

Da Guerlain, o Idylle é um floral marcante com excelente fixação; da Lalique, o Nilang traduz o imprevisível em notas de jasmim, flor de cravo e blueberry. Já a nova fragrância Especialy, da Escada, é delicado como o toque de uma rosa. O primeiro perfume da Swarovski, o Aura, foi criado em parceria com a Clarins. Marcante, reúne notas de âmbar, benjoim e almíscar branco

O começo de tudo

A fumaça exalada pela queima de madeiras, ervas e incensos é um dos primeiros cheiros de que se tem registro – daí a palavra per (através) fumum (fumaça). Em 1714 foi desenvolvido o primeiro aroma registrado comercialmente no mundo, pelo perfumista italiano Jean-Marie Farina, na cidade alemã de Colônia. Chamado Kölnisch Wasser (água de colônia), esse perfume pioneiro se tornou o favorito do imperador francês Napoleão Bonaparte.

Algumas décadas depois, surgiria a indústria dos perfumes na França. Mas nada de glamour: o objetivo dos perfumes era disfarçar os odores do corpo, numa época em que banhos regulares não eram um costume. Só a partir de 1900, os perfumes mais finos tornaram-se sinônimo de sofisticação. No Brasil, o contato com os perfumes só aconteceu dois séculos depois dos aromas pioneiros – o primeiro perfume de luxo brasileiro foi o Rastro, lançado nos anos 60. Com a abertura das importações, no começo dos anos 90, o País deu um grande salto o segmento, equiparandose à perfumaria internacional.

No Espaço Perfume, Arte + História, uma iniciativa do Grupo Boticário e da Faculdade Santa Marcelina (Fasm), há registros de mais de cinco mil anos da história.

Alcool, água e fragrâncias. A fórmula de um perfume parece simples, mas não é. Desde 1828, quando Pierre François Pascoal Guerlain criou em sua casa o primeiro perfume da Guerlain, o Eau Imperial de Guerlain (1860), muita coisa mudou. Atualmente, por trás de elementos tão primários, estão envolvidas toneladas de ingredientes e milhares de pessoas, indústrias e marcas e um só objetivo: vender, mais do que um produto, um estilo de vida. “Essa força do perfume ligada à moda, ao luxo e principalmente a um produto de prestígio, como uma joia ou carro, começou a existir a partir da década de 20”, conta a professora Andréia Miron, do curso de Pós-Graduação do Perfume da Faculdade Santa Marcelina.

Quem ainda duvida da força da indústria dos perfumes em transformar um simples cheiro num objeto de desejo, basta conferir os números do nosso mercado. De acordo com a Consultoria Euromonitor, em 2010 o Brasil alcançou a marca de seis bilhões de dólares em vendas de perfume, ultrapassando surpreendentemente o mercado americano, que alcançou 5,3 bilhões. “Além do forte crescimento do mercado nacional, temos observado um acesso maior da classe C às linhas de perfumes importados. O preço está mais atrativo e as marcas vêm apresentando estratégias, como, por exemplo, campanhas publicitárias com jogadores de futebol”, acrescenta a professora.

Para Renato Rabbat, diretor-geral da divisão de perfumes da LVMH, além da publicidade mais agressiva e massiva, isso se deve também à expansão dos e-commerces, que vendem as grifes internacionais com pagamento facilitado e parcelado, e ao próprio crescimento da indústria nacional. “Quando as marcas brasileiras vendem bastante, o mercado dos importados também ganha espaço. É um público que aprende a gostar de perfumes e vai migrando aos poucos. Depois que ele compra um importado, não volta mais para o nacional”, disse ele, no lançamento da nova fragrância Flower Tag, da Kenzo. Aproveitando o evento, realizado em São Paulo para a imprensa, Renato falou sobre a importância do Brasil para o grupo. “Já somos reconhecidos como um mercado lançador de tendências e que influencia o consumo dos demais países da América Latina, além de ser um país emergente e ter o segundo maior mercado de fragrâncias do mundo”.

Desde quando foi lançado por aqui, há 12 anos, o Flower by Kenzo é o perfume mais vendido da marca no Brasil. Ainda no topo de vendas por aqui estão as fragrâncias da Chanel: o clássico Chanel nº5, em homenagem a uma das estilistas mais importantes do século 20 (detalhe: é o perfume mais vendido no mundo até hoje), o Allure, na versão masculina e feminina, Pour Monsier e o Chance. A Dior é outra grife que tem fragrâncias de muito sucesso e está entre as queridinhas das mulheres, principalmente com o seu O J´Adore, um dos mais vendidos. O Miss Dior Cherrie é bem conhecido mundo afora, não tanto no Brasil, mas também está entre os de maior sucesso no País. Em seguida aparecem CH, Carolina Herreira, o Hypnôse, da Lâncome, Ange ou Demon, da Givenchy, e o Dior Addict. Entre as fragrâncias masculinas, o mais vendido é o Azzaro Homme, depois o Polo, da Ralph Lauren, em seguida o Men, de Carolina Herrera, Ferrrari Black e 1 Million, da Paco Rabanne. “Por ano, cerca de 1200 lançamentos de perfumes das principais marcas mundiais chegam ao mercado internacional, incluindo o Brasil. Desse total, aproximadamente 70% são femininos”, observa Renata Ashcar, especialista em perfumes e autora do livro Brasilessencia: A cultura do perfume.

Segundo a RR Perfumes – uma das mais importantes distribuidoras de perfumes no Brasil, com participação de mercado estimada em 35% –, as importações dos produtos de perfumaria e cosméticos nos últimos 10 anos teve crescimento acumulado de 121%. “Quem consome esses produtos aqui são, basicamente, pessoas a partir dos 20 anos, sofisticadas, estilosas, seguras de si, que amam o luxo e querem produtos de qualidade”, observa Barbara Kern, vice-presidente de marketing e regional da empresa. Dentre as 18 marcas distribuídas, Dolce & Gabbana, Gucci, Calvin Klein, Hugo Boss, Issey MiyakeGabriela Sabatini e Lacoste estão entre as mais vendidas.

O alquimista

Experiência e tradição são fundamentais na carreira dos maiores perfumistas do mundo. Um deles, o francês Jacques Cavallier, criador de fragrâncias como L’Eau d’Issey (Issey Miyake), Poême (Lancôme), Noir de Noir (Tom Ford) e Bvlgari BLV (Bvlgari), falou a Go Where sobre os segredos de um bom perfume.

“Quando crio um perfume, não consigo prever se ele será um sucesso ou não. Isto envolve a marca, o frasco, o frescor”, explica ele. Essa sensibilidade ele herdou de seus antepassados, todos ligados à perfumaria. “Meu pai, meu avó e meu bisavô eram perfumistas. Desde pequeno eu sentia os cheiros, sempre quis fazer isso”.

Como todo criador tem seu “xodó”, com Jacques não é diferente. “O L´Eau d´Issey é o mais marcante da minha carreira. É um perfume que agrada bastante as brasileiras por seu frescor e, ao mesmo tempo, personalidade intensa”.

Notas que enfeitiçam

A escolha de um perfume é absolutamente pessoal. Mas há tendências e regionalidades culturais. Os brasileiros, segundo a professora Andréia, além dos florais gostam bastante dos mais doces, principalmente os achocolatados e com toques de pimenta e canela. “Estamos vivendo um momento intenso da gastronomia e isso se reflete no gosto pelas essências que despertam sabores”, defende.

Outro ponto importante é que um perfume também é escolhido pelo seu poder de fixação. “Falando tecnicamente, o perfume é classificado por etapas. A primeira delas, que seria a nota de cabeça, é aquela que você sente na hora, é um fervilhar. Depois de um tempo, essa sensação baixa e você vai sentindo outra nota; é ela que se mantém e se perpetua até o final do dia. Todo mundo fala que perfume tem fixador, mas isso não existe”, explica Andréia.

Esse é um detalhe muito discutido pelos apaixonados por perfumes e também desmistificado pela perfumista Sonia Corazza, com mais de 35 anos de experiência na área. “A permanência de um cheiro está 100% ligada à sua taxa de volatilidade. Notas mais frescas e cítricas são mais voláteis e duram menos, enquanto que resinoides e balsâmicos são menos voláteis e têm uma duração maior”, garante. Jacques é outro que derruba o mito dos fixadores e reforça a importância de bons ingredientes na hora da fabricação dos perfumes. “O que faz um perfume fixar é a qualidade da matéria-prima”.

O sucesso da Kenzo

Patrick Guedj é o diretor criativo da marca desde Flower by Kenzo. Ele participa de todas as etapas do desenvolvimento de uma fragrância, é quem cria o conceito, o frasco e também a publicidade. No ano passado, ele esteve no Brasil e conversou com Go Where sobre criatividade e inspiração na confecção de perfumes. 

Como funciona o processo de criação de um perfume?

Criar é um perfume é como criar uma história. É uma folha de papel em branco onde começo escrevendo algumas palavras chave. Depois, eu brifo o perfumista e em cima disso ele cria a fragrância. Quando ela está pronta, um pequeno grupo de pessoas na França recebe uma amostra para avaliação. Isso é importante para avaliarmos a aceitação do público.

No que a Kenzo se diferencia das demais quando o assunto é criatividade?

Temos uma visão fora do convencional, única e exclusiva, com um mix de cores e muita alegria. Conseguimos ser sensual sem ser provocativo, tudo é muito suave. A Kenzo tem também muito da natureza e da diversidade cultural.

O que torna um perfume marcante?

Acredito que é a liberdade que se dá ao perfumista quando ele está compondo a fragrância e a sensibilidade dele ao traduzir o que está no papel para transformar em cheiro, medindo o quanto de cada essência.

A tradução das notas

As emoções também são elementos fundamentais para determinar o sucesso de uma fragrância. Um cheiro pode ser prazeroso para uma pessoa e desagradável para outra. Sonia Coraza, perfumista e engenheira química, diz que, de forma geral, homens e mulheres têm preferências bem distintas. “Homens gostam de mulheres cheirando a mistura de flores e notas gourmand abaunilhadas. Mulheres gostam de homens cheirando tons amadeirados ou com especiarias”.

Escolha seu perfume Sonia Corazza dá dicas para você escolher o perfume certo

•Primeiro experimente-o na fita de papel. Borrife e cheire imediatamente. O que você sente de imediato são as notas de topo, mais voláteis.

•Depois de duas horas, volte a cheirar a fita. Você sentirá o coração do perfume, sua personalidade.

•Após cinco ou seis horas, será possível sentiras notas de fundo.

•No dia seguinte volte à loja e peça para aplicar na pele, quando você poderá então avaliar a reação do perfume a seu odor pessoal e se ele reage da mesma forma como nas três etapas anteriores. Se gostar, pode ter certeza de que fará uma boa compra.

A nova fragrância de Carolina Herrera, Glam 212, foi inspirada no glamour da vida noturna de Nova York. É romântica, feita de pétalas de rosa cristalizadas e íris, com notas de cabeça que lembram caramelos

Leia essa e outras matérias na Go’Where n° 95