Inovar é possível…

À frente da consultoria Mandalah, com o foco de ajudar companhias a criar produtos e serviços que conciliem lucro e bem estar na vida das pessoas, o trabalho dele vem ganhando visibilidade e muitos adeptos pesos pesados, como Nike, GM e Natura. O jovem, de apenas 32 anos, foi citado, inclusive, no ranking da revista americana Fast Company como um dos cem empresários mais criativos do mundo. Mas afinal, quem é ele, o que ele faz? GW Business conta essa história de sucesso e mostra a importância de um olhar mais sensível para a descoberta de novas oportunidades no mercado corporativo

 

Como aliar consumo a uma qualidade de vida melhor para todas as pessoas? Com essa ideia na cabeça, Lourenço Bustani abriu as portas da sua consultoria Mandalah, em São Paulo, há quase seis anos. Aos poucos, a empresa foi  ganhando terreno, expandindo os negócios, e hoje ele trabalha mais de 12 horas por dia, comanda escritórios em Nova York, Tóquio, Berlim, Cidade do México e Rio de Janeiro. Um de seus méritos foi ter percebido, na hora certa, que as companhias discutiam muito sobre ações sustentáveis, mas pouco conseguiam fazer para as ideias saírem do papel. “O nosso foco está em ajudar as companhias a criar produtos e serviços que fortaleçam os negócios, mas também gerem valor social”, explica ele.

Num momento onde o mundo conspira a favor de toda e qualquer idéia sustentável, onde cada vez mais as empresas vêm se esforçando para entender melhor as necessidades reais do ser humano, o negócio de Bustani veio a calhar. O fantástico dessa história toda começa pelo próprio escritório onde a Mandalah está instalada: um sobrado no bairro da Vila Madalena, com portão grafi tado, cachorro e jeitão de casa. Na garagem, bem na entrada, uma mesa de madeira com cadeiras coloridas recebe os funcionários para um café tirado na hora, ou uma comidinha caseira feita na cozinha ali ao lado. Para Lourenço, nada é por acaso. “Num ambiente que parece a nossa casa, a gente baixa a guarda e isso é saudável para as relações de negócios”, explica.

Essa filosofi a de vida inspirou a escolha do nome da empresa. Mandalah significa círculo mágico do poder, em sânscrito. O ‘h’, no final da palavra, traduz o lado humano. “Todo ser humano tem uma mandala interna que é onde estão suas verdades mais puras e essenciais. A gente quer conhecer a mandala das pessoas e com base nisso atender suas necessidades.

À partir daí, desenvolver ideias que supram essas necessidades. São coisas muito puras, essenciais e verdadeiras. Daí nossa abordagem mais humanista”, reflete Lourenço.

Na prática, o trabalho da Mandalah consiste em atuar junto a organizações, sejam elas públicas ou privadas – incluindo-se ONGs, startups e fundos de venture capital –, promovendo processos de inovação que transcendam as relações puramente voltadas ao consumo e ao lucro, procurando incorporar atitudes mais humanas e alinhadas com o desenvolvimento e a estrutura social, ambiental e econômica do nosso tempo. “O que a gente faz é prestar consultoria na criação de novos produtos, serviços, iniciativas de marcas, modelos de negócios e estratégias de comunicação, tudo direcionado a estimular um diálogo mais transparente e inclusivo com as pessoas. Nosso trabalho começa bem antes de qualquer campanha. Nós é que apresentamos para as agências de publicidade o conceito da marca ou do produto, explicamos o que aquela empresa quer transmitir para o seu público e como essa mensagem deve ser passada, a linguagem a ser utilizada, até o tom de voz. Enfim, direcionamos o possível, pois todas as sutilizas devem ser mantidas”.

Formado em relações internacionais e ciências políticas pela Universidade da Pensilvânia, com estudos em administração pela Wharton School, Lourenço é um típico homem multicultural, que já viveu em mais de 20 países. Essa experiência de vida o ajudou a atingir o sucesso profissional. “Multiplicar os pontos de vista sobre as questões dos clientes exige conhecimento das mais variadas culturas e vivência”, diz ele. Filho de pais diplomatas, um dos motivos pelo qual ele sempre viajou muito, aos 25 anos ele descobriu que não tinha perfil para o mundo corporativo e que sua grande paixão, lidar com pessoas, poderia render muito mais no Brasil. “Eu trabalhava numa consultoria de marcas em Nova York quando pedi transferência para cá. Ao chegar aqui, deparei com um ambiente empresarial que andava na contramão de todos os meus princípios, a começar pela avaliação da capacidade das pessoas, medida pelo cargo e idade”. Foi dessa decepção que nasceu a ideia de investir em algo novo. “Pensei ‘aqui no Brasil eu consigo me destacar, aqui tem espaço para coisas novas”.

Quando começou na sua vida essa loucura de trabalhar mais de 12 horas por dia?

A Mandalah começou suas atividades em 2006, mas a correria foi um processo natural. Tivemos que aprender a gerir uma empresa crescente, que se globalizou rapidamente e aí sim entramos num ritmo frenético. Hoje estamos mais sólidos, conseguimos encontrar o nosso ponto de equilíbrio.

Que caminhos você percorreu até descobrir que a Mandalah seria um bom negócio?

Quando voltei ao Brasil, com 25 anos, duas grandes coisas aconteceram: um certo desencantamento em relação ao modus operandi brasileiro e, ao mesmo tempo, a constatação de que esse território era absolutamente fértil para boas ideias, bem planejadas. Montei uma consultoria de marcas que ainda existe, para pequenas e médias empresas, e as coisas foram dando certo. A Mandalah aconteceu naturalmente, quando eu e meu sócio até então, o Igor Botelho, resolvemos que seria um bom negócio ajudar as empresas a criar inovação.

Como você define o seu trabalho?

As pessoas confundem, pensam que somos uma agência. Agências agenciam mídia, a gente não agencia nada, somos uma consultoria. Nosso produto é inovação. Qualificamos a nossa como uma inovação consciente, foi o nome que demos ao nosso posicionamento. Então as pessoas perguntam: o que faz a sua inovação ser diferente das outras que já existem no mercado? A resposta é que para nós uma idéia é inovadora quando ela melhora a vida das pessoas. É algo a mais, que deve ir junto com a geração de lucro. Enfim, é um trabalho de sensibilização, de ampliar o foco das empresas além de seus produtos.

Dê um exemplo.

A pedido da GM Global, elaboramos um estudo sobre o futuro da mobilidade urbana, onde uma equipe multidisciplinar de profissionais do mundo todo se juntou para definir os cenários do futuro que terão impacto sobre a indústria automobilística. Isso permitiu à empresa a construção de contextos de locomoção mais favoráveis aos cidadãos, mostrou que existem oportunidades em outros meios de transporte, em novos materiais para carros e em energias renováveis. Outro case de excelente desempenho foi o da cocriação, com a Natura, da linha de perfumes Amó. Tudo foi feito através de uma rede de 150 brasileiros pensando “no outro”, no amor como fruto do contato e do constante movimento. Em outras palavras, esse case aplica nas relações afetivas a ideia de sustentabilidade. Artistas das mais variadas áreas criaram obras (músicas, pinturas, textos, etc.) que buscaram traduzir o jeito brasileiro de amar.

Quais os pilares da empresa?

Diálogo, conciliação entre lucro e propósito e foco no ser humano. Tudo isso acontece quando eu olho para você e enxergo uma pessoa, não somente um consumidor.

Você acha que as empresas brasileiras estão preparadas para essa nova etapa da inovação consciente?

De forma geral, acho que sim. Percebo o mercado brasileiro num processo de transição; algumas empresas com mais coragem e visão de futuro, outras ainda no efeito compensatório. A minha opinião é que, hoje em dia, especialmente depois da crise, não é mais uma escolha, é uma diretriz que todos precisam abraçar. A ideia é mostrar que o pensamento correto deve ser ‘como é possível reinventar o meu negócio para que ele não seja destrutivo, para que seja positivo e bem intencionado’? É uma mudança de paradigmas, de um modelo mental que não acontece do dia para a noite.

Você acha que o cidadão brasileiro percebe quando as empresas trazem essas ideias inovadoras?

Não só percebe como consegue discernir quando são reais ou não.

Qual o grande desafio do seu trabalho?

Conseguir articular diálogos inusitados entre pessoas e organizações que até então não dialogavam. Ao mesmo tempo em que esse é o meu maior desfio, é também a maior oportunidade do meu trabalho. Penso que, se a gente conseguir articular esses diálogos, o processo de transformação acontece por si só, já que muitos dos problemas que a humanidade enfrenta têm a ver com a falta de diálogo. Nessa troca existe uma sensibilização de cada um com relação à situação do outro. É a natureza humana, temos a capacidade de compaixão, mas é que na correria da vida, passa batido.

Além de sensibilidade, o que mais é preciso para se fazer um bom trabalho nessa área?

Conseguir fazer com que o lado esquerdo do cérebro converse com o lado direito, ter uma visão mais holística das coisas e conseguir ser multidisciplinar. O segundo ponto é o desenvolvimento de uma consciência mais apurada. Nosso trabalho é de sensibilização para que as pessoas possam se conscientizar dessas questões que estão presentes, mas ocultas, possam mudar atitudes e tomar decisões com mais entendimento.

Como deve ser o perfil das pessoas de sua equipe?

Tem que ter criatividade, rigor analítico, ser uma pessoa que não se conforma com os paradigmas existentes e que ousa rompê-los, seja multicultural, curiosa, fale outras línguas, pessoas com espírito empreendedor e de uma ética não negociável.

A que você atribui o sucesso da Mandalah?

Acho que chegamos com uma boa solução, numa hora muito providencial, num momento planetário de repensar e reestruturar conceitos. Além disso, tenho pessoas muito competentes ao meu lado, que me ajudam em todas as etapas.

 

Leia essa e outras matérias na Go’Where Business n° 7