A La Pastina completa 70 anos importando o melhor

No último dia sete de julho, a importadora La Pastina comemorou 70 anos. Além de ser um feito empresarial, uma vez que poucas empresas chegam a essa longevidade, a La Pastina é um case de sucesso de empresa familiar, com uma história riquíssima.

Por: Leonardo Millen 

Quando se fala em La Pastina, duas coisas surgem em mente: referência em alimentos e vinhos premium importados, principalmente de origem italiana; e uma empresa sólida. Isso se justifica, pois a La Pastina começou na década de 1920, graças à determinação do imigrante italiano Vicente La Pastina, e chega ao século 21 como uma das principais importadoras de alimentos e vinhos do Brasil. E renovada por uma estrutura de empresa moderna, que a credencia para continuar líder do seu segmento.

Comandada hoje por Celso La Pastina, filho do fundador, a empresa oferece 3.700 produtos, entre alimentos e 280 rótulos de 38 produtores de vinho, importados de 16 países pela La Pastina e pela sua divisão de vinhos, a World Wine, além de produtos de marca própria. Uma empresa moderna, funcional, com capacidade logística e tecnológica, e 300 colaboradores que trabalham para abastecer mais de 3.000 pontos de venda espalhados pelo Brasil. Go’Where Gastronomia encontrou Celso La Pastina na nova sede da empresa no bairro do Ipiranga. Lá também funciona o Centro de Distribuição da empresa, um dos maiores da América Latina, com 10 mil posições paletes, 1.500 metros quadrados de câmaras climatizadas para abrigar vinhos premium e capacidade de armazenagem para 500 contêineres. Um local impressionante, por onde circulam empilhadeiras frenéticas para abastecer caminhões que entram e saem 24h por dia. Dá vontade de pegar uma empilhadeira dessas e “fazer compras” pelas prateleiras repletas de vinhos, massas, temperos, azeites, queijos, frios e muitas outras delícias. E em meio aos pallets, ele fez um balanço da trajetória da empresa.

GW: O que é a La Pastina hoje?
CL: Mais do que sua dimensão atual, a La Pastina representa o desenvolvimento da oferta dos produtos gastronômicos do mercado nacional, principalmente a partir dos anos 1990, com a abertura das importações. Nos especializamos em produtos alimentícios na parte seca e nos vinhos mediterrâneos, com foco na Itália.

GW: Vocês também construíram uma reputação no mercado como importadores
CL: Sim. Ninguém faz 70 anos no mercado sem compromisso. Também soubemos nos adaptar aos planos econômicos, abertura de importação, crises… A gente se reinventa a cada momento. Não queremos ser os maiores, mas o melhor de nós mesmos. Não quero ter uma operação pífia, uma empresa endividada, que atrasa seus compromissos. Isso aqui nunca existiu. Damos um passo conforme o tamanho das nossas pernas.

GW: Você também criou parcerias muito fortes com empresas estrangeiras, como é o caso da Divella.
CL: Quando abriram as importações, em 1990, estabelecemos uma parceria com a Divella. Eles tinham seus planos de expansão, de internacionalizar a marca. Foi um casamento de interesses. Funciona assim com muitos parceiros que temos. Nesses últimos 27 anos, com o desenvolvimento da gastronomia, só aumenta interesse pelos nossos produtos.

GW: Existe uma oferta inimaginável de produtos e fornecedores. Qual é o critério para você importar?
CL: Nos anos 1990, a gente trouxe muito de tudo. Eu viajava, ia a feiras internacionais e não tinha muito critério. Foi meio na tentativa e erro: teve coisas que deram certo, outras não.

GW: O que você apostou que ia dar certo e não deu? E o que te surpreendeu?
CL: Não deram certo o chocolate e a cerveja. O boom do chocolate está acontecendo agora. Foi uma decepção. E com a cerveja aconteceu o mesmo. O brasileiro gosta de um produto premium, mas acha razoável consumir o produto nacional, mais barato. Por outro lado, jamais imaginaria que o arroz arbóreo iria emplacar. No início, foi difícil, mas aí precisamos fazer uma super promoção para aliviar os estoques. Vendemos tanto que popularizou o arbóreo. Outra surpresa foi o aceto balsâmico. Fomos pioneiros em trazê-lo e hoje é um sucesso.

GW: O chefs são termômetros da aceitação dos produtos? A alta gastronomia pauta a La Pastina?
CL: Pauta, mas é mais difícil por questões de volume. Não consegui-mos atender a um pedido de um produto específico. Aconteceu com o azeite trufado. Esse é um produto que começou timidamente e hoje tem um volume muito substancial.

GW: A La Pastina também investiu em criar uma linha de produtos de marca própria. Como foi isso?
CL: A marca La Pastina nasceu porque era mais fácil trabalhar com uma marca com vários produtos do que ter um monte de produtos de marcas desconhecidas. Mas, obviamente, ter uma marca própria é ter um ativo. Nosso primeiro produto, um pêssego em calda da Grécia, foi um sucesso tão grande que a gente repensou. Ficou mais fácil transformar alguns produtos na marca La Pastina do que dar conti nuidade a marcas desconhecidas.

GW: Qual é o critério em escolher o que vai virar La Pastina?
CL: Escala e respeito às parcerias. A gente nunca fez uma pasta La Pastina em respeito à Divella, por exemplo. Outro critério é o nosso próprio portfólio. Precisa ser um produto italiano, mediterrâneo. Não traria para o portfólio um foie gras francês ou um caviar russo e estamparia a marca La Pastina, por exemplo.

GW: Você dá sempre a palavra final?
CL: Sim, mas hoje menos. Temos uma equipe que viaja, vai a feiras, visita fornecedores, etc. Fazemos reuniões sobre novos produtos, a gente prova, discute… A gente arrisca por três anos. Se não deu certo, descontinua. Mas hoje, para colocar qualquer produto em linha, a exigência subiu muito.

GW: Você também criou a World Wine, para ter uma atuação diferenciada no universo dos vinhos?
CL: A World Wine surgiu em 1999, com objetivos diferentes da La Pastina. Comecei trazendo vinhos do segmento premium com foco de venda direto ao consumidor. Isso não durou três anos, pois era inviável para o nosso negócio investir em pontos de venda. Daí começamos a importar vinhos menos caros, mas muito bem selecionados, e passamos a atender empórios, enotecas, delicatessens, restaurantes e mantivemos a venda direta ao consumidor de vinhos superpremium.

GW: Como é lidar com públicos tão diferentes: o lojista, o dono de restaurante e o consumidor final?
CL: Só com equipes diferentes. E criamos uma expertise diferencial porque conseguimos atender cada perfil com um portfólio dedicado. Na verdade são quatro clientes: tem o varejista, o restaurante, o consumidor final e o distribuidor. A gente não consegue estar em todos os estados brasileiros. Um restaurante de Fortaleza não pode esperar de 15 a 20 dias para a gente enviar cinco garrafas de vinho de São Paulo. Mas o distribuidor tem como atender rapidamente. Ele tem um custo de frete menor e, consequentemente, um preço melhor.

GW: A La Pastina também precisou criar uma estrutura logística fantástica, que envolve cargas internacionais, portos, aeroportos, estradas, etc. Você também administra uma empresa de logística?
CL: Claro! Nosso centro de distribuição tem 10 mil posições pallets, mil contêineres por ano, 600 notas por dia! É uma empresa de logística. Temos uma pequena frota para atender a cidade de São Paulo e o resto é terceirizado.

GW: Você delega ou gosta do calor do dia a dia?
CL: Já fui muito mais centralizador do que hoje. A vinda para a nova sede exigiu também que eu me reinventasse. Crescer é difícil. Precisei delegar mais e fazer uma gestão mais profissional. Aprendi muita coisa na marra e tive auxílio de algumas consultorias, mas nem todas foram boas. Me criaram mais problemas do que soluções.

GW: Você poderia hoje tirar um mês de férias que a empresa funcionaria normalmente?
CL: Sim. Eu tirei três semanas recentemente e foi ótimo.

GW: Você se considera também um gourmet, um connoisseur?
CL: Um pouco. Sou um cara rodado! A gastronomia é um mundo fascinante. Há sempre algo a se descobrir.

GW: Vocês estão entrando no ramo de restaurantes?
CL: Tivemos uma experiência no EAT, que fechou, mas eu gostei. A World Wine fechou recentemente uma parceria com o Modi Gastronomia e estamos explorando esse modelo. Quando surge um espaço em que o proprietário pode cuidar apenas do restaurante, a enoteca se transforma em World Wine. Vendemos vinho na loja e no restaurante e produtos La Pastina e Fasano, que é uma parceria que fizemos no segmento mais premium.

GW: Como você analisa o crescimento do segmento premium?
CL: Acreditamos muito nesse segmento. O potencial de uma marca como Fasano é enorme! Desde que compramos a Enoteca Fasano, nós já sabíamos disso. Demos continuidade ao Panetone Fasano e agora vamos fazer uma linha de produtos da grife. A situação do Brasil está complicada. Os que sobreviveram foram forçados a rever, formar parcerias, negociar melhor. Isso nos favorece. Como trabalhamos com estoque e não temos dívida em dólar, a gente trabalha bem.

GW: Como o empresariado estrangeiro enxerga o Brasil?
CL: Muito mal. Tem seguradora que não quer trabalhar mais com o Brasil. O risco não compensa. Não tem o investment grade. Isso nos afeta diretamente. O exportador não tem confiança, te dá um crédito menor ou quer pagamento à vista ou antecipado.

GW: E a nossa estrutura de portos, alfândega, etc?
CL: É mais ou menos. Pior é a Anvisa, que demora mais de 20 dias para liberar um contêiner de alimentos, o que é um total absurdo. Impacta no prazo de validade dos produtos. Os produtos do Chile e Argentina vêm por via rodoviária. Não trazemos de navio, por-que é um monopólio e é caríssimo. Não tem cabimento. Santos é um porto muito lento. Navegantes é um pouco mais rápido. E depois tem o custo Santos-São Paulo…

GW: Como somos vistos pelos nossos irmãos latinos?
CL: Somos absolutamente prioritários. Não somos produtores de muitas mercadorias. Temos de importar mesmo. Produzimos um pouco de azeite, de vinho, mas só chega a 20% a 30% do nosso consumo. O espumante é uma exceção, com quase 70% do nosso consumo.

GW: Mas temos visto surgir novas vinícolas no Brasil. Como você vê o horizonte dos vinhos nacionais?
CL: Estou otimista. É muito promissor, principalmente o vinho da Mantiqueira. Eles resolveram o problema e inverteram o ciclo da planta. O futuro é na Mantiqueira. É tudo novo ainda, mas vamos ver variedades e blends ótimos surgindo por aí.

GW: Você gostaria de, um dia, se tornar um exportador?
CL: Não. É muito burocrático. Eu não aguentaria. O único produto que eu encararia é o café. Quando eu levo o café do Brasil para meus amigos na Europa, eles enlouquecem.

GW: Algo que deseja realizar em um futuro próximo?
CL: Sim… Me aposentar! Mas, antes, melhorar a parte logística. Ter uma filial importadora no Nordeste. Levar a marca La Pastina para os EUA, abrir uma World Wine em Miami… Antes disso, o grande desafio é preparar a próxima geração da família para dar continuidade à empresa. A Juliana e o Jeremias já estão inseridos. Isso não tem preço.


Linha do tempo

Década de 20
Aos nove anos de idade, Vicente La Pastina conseguiu seu primeiro emprego em um armazém da Rua Cantareira.

Década de 40
Vicente montou, em 7de julho de 1947, a Catalan e La Pastina, com o amigo Francisco Catalan, na Rua Santa Rosa, no Brás, focada no comércio atacadista de cebola.

Década de 50
A La Pastina começou a trabalhar com importação de batatas, ervilha, lentilha, grão-de-bico, ameixa, uva-passa, damasco e especiarias. A importação se tornou a nova paixão de Vicente.

Década de 60
A empresa se torna a maior exportadora de grãos do país: gergelim, urucum, sorgo, arroz, farinha de mandioca, milho. Francisco Catalan deixa a sociedade e a empresa passa a se chamar La Pastina Importação e Exportação S/A.

Década de 70
A La Pastina perde o interesse na exportação e foca na importação de produtos para consumo final, como azeite e vinhos. Em 1978, Celso La Pastina, com 20 anos, inicia seu trabalho junto ao pai.

Década de 80
Em 1985, a La Pastina inicia a construção da sua primeira sede, na Rua Alfândega, no Brás. Em 1987, Vera La Pastina ingressa na empresa, focada na profissionalização e gestão, seguindo os valores de seu pai.

Década de 90
Com a abertura das importações no governo Collor, a La Pastina foca em trazer produtos premium para o consumidor final, como conservas e vinhos exclusivos. Celso cria a marca La Pastina e, em 1999, a World Wine, para trabalhar com vinhos finos.

Década de 2000
Em 2003, Juliana La Pastina, filha de Celso, entra na empresa e hoje é Gerente de Marketing da World Wine, a terceira maior importadora de vinhos finos do país. Em 2007, a empresa completou 60 anos e inaugurou o novo Centro de Distribuição, no Ipiranga, um marco na história da empresa e da família.

Para celebrar suas “bodas de vinho”

A La Pastina completa 70 anos e, para celebrar, lança um selo comemorativo, uma campanha de marketing e fez uma grande festa na sede da empresa, com a presença dos principais players do segmento da alta gastronomia brasileira.
Durante o evento, foi apresentado o rótulo do vinho Dal 1947, criado por Celso La Pastina e Luciano Ercolino (proprietário da vinícola Vinosia), em homenagem ao ano de fundação da importadora. O Dal 1947 é um vinho espetacular, produzido com a uva Primitivo, da vinícola Vinosia, em Maduria, rebatizada hoje como “Terre di San Vincenzo”, nome este em homenagem a Vicente, fundador da La Pastina e pai de Celso.