Carlos Ferrerinha garante: o luxo vence a crise

Carlos Ferreirinha é o nome do luxo no Brasil. Na prosperidade e na crise. E que crise! Ferreirinha é o principal formador de opinião e especialista sobre a Inteligência da Gestão do Luxo e Premium na América Latina. Foi Executivo Sênior da Louis Vuitton e, em 2001, fundou a MCF Consultoria – uma empresa que traduz o luxo em gestão, oferecendo serviços exclusivos de consultoria, treinamento e educação em geral. Liderou projetos relevantes com grandes marcas como Bentley, Burberry, Coach, Tory Burch, e é um dos mais requisitados palestrantes brasileiros na área de negócios. Nossa “palestra” com ele foi um luxo – um luxo na crise.

Por: Celso Arnaldo Araujo

GW: Para o mercado de luxo, é a mãe de todas as crises?

CF: Ninguém passa por uma crise dessas sem sofrer. Eu não me lembro de algo tão devastador na minha vida profissional – e trabalho de forma ininterrupta desde meus nove anos. E nem estou falando do segmento de luxo, especificamente – mas o país virou um cemitério de placas de “aluga-se” e “vende-se” e assistimos a uma derrocada do setor de construção civil como nunca vimos, sem falar no desemprego. Mas sentimos, nos últimos dois meses, uma brisa que voltou a soprar. Ainda não é, nem de longe, uma mudança de clima. Mas o mercado voltou a se mover para todos os meus clientes – sem exceção. É como se tivessem tirado a rolha do vinho que não estava respirando há um bom tempo. Não melhorou o suficiente – mas já existe um fluxo.

GW:Você está falando do segmento do luxo particularmente?

CF: Eu ouço muito: “O segmento de luxo não sofre tanto”. Mas é preciso definir o tipo de dor. Alguns segmentos tiveram dores de crise renal, terríveis. Outros, uma dor de ouvido. Se estou me referindo às vendas do segmento luxo no Brasil, o momento tem sido favorável. Por quê? Houve uma redução exacerbada no consumo internacional, que tem favorecido o consumidor brasileiro que estava comprando excessivamente lá fora. Esse voltou a comprar aqui, no mercado doméstico. Já quando se fala em incorporação imobiliária de luxo, caiu uma bomba atômica. Em momentos de crise, esse setor é o primeiro a estagnar – porque envolve cifras colossais. E é um dos primeiros a serem recuperados, porque imóvel é tido como investimento. Quando o indivíduo volta a ter conforto e segurança, o imóvel volta a seu horizonte. Carros: a recuperação vinha bem até junho. Depois, despencou novamente. É a pior venda de carros no Brasil nos últimos 33 anos. Avião e helicóptero: queda brutal. E muita devolução. Mas, paradoxalmente, cresceu fortemente o setor de fretamento executivo entre os que se desfizeram de suas aeronaves.
A posse acabou – o hábito, não. Turismo de luxo: o brasileiro está viajando muito menos para fora. Mas o turismo de luxo doméstico, como o Nannai Resort, em Pernambuco, e Ponta dos Ganchos, em Santa Catarina, foi favorecido. De uma forma geral, ninguém passou incólume pela crise. Até quem está crescendo está crescendo com mais esforço.

GW: Entre as lojas de grifes famosas em shoppings AAA, isto é, a ponta de lança do mercado de luxo, que cases você destacaria para cima e para baixo?

CF: Ninguém fechou no Brasil por causa da crise. Grifes que repenaram sua presença no país, como Tory Burch e Katy Spade, não o fizeram por causa da crise – essas empresas estão acostumadas com a volatilidade de mercado e olham para um longo prazo. O negócio delas no Brasil já estava “sub judice” e a crise só acentua. Elas só estão mudando a forma de operar no Brasil. Michael Kors (bolsas, relógios, etc), por exemplo, vai dar um passo para trás a fim de operar melhor no mercado brasileiro. O mercado brasileiro não permite uma aventura de crescimento de uma hora para outra. É uma ilusão que essas marcas venham a ter 10 a 15 lojas em dois anos. O Brasil demanda paciência e muito investimento no início.

GW: Seu principal trabalho é orientar essa adaptação da marca ao Brasil?

CF: Sim. Essa ponta de lança que você menciona, as lojas de grife, é de alta complexidade em termos de negócios. O impacto da crise deve ser visto também por outro ângulo: a maioria das marcas vinha em período de expansão. E hoje ainda não há lugar para expandir – foram suspensos todos os projetos de expansão.

GW: Você destacaria alguma marca que tenha se expandido excepcionalmente?

CF: A Sephora, sem dúvida. Chegará ao final de ano com 20 lojas. Fez um faturamento robusto em julho e agosto, enquanto os segmentos de beleza caíram como um todo no Brasil.

GW: E das mais caras, como Chanel, Prada, Dior, algum destaque?

CF: Absolutamente ninguém. Todas cautelosas e tentando entender os desdobramentos da crise. Ok, a H&Man abriu lojas no Rio, na rua. Sim, abriu este ano – mas é um projeto que vem de quatro ou cinco anos, já orçado e com verba alocada, em ano de Olimpíada… Em meio à crise, abriu a ala nova do Iguatemi – com lojas Saint Laurent (a primeira do país), Polo Ralph Lauren, Cartier (a maior loja da marca na América Latina) e Dolce & Gabbana. Mas era um projeto de seis anos. A partir deste ano, projetos novos foram suspensos.

GW: Entre os shoppings de São Paulo, você diria que o Iguatemi ainda é o top?

CF: Sem dúvida. É um shopping com gestão criteriosa e precisa e, quando se analisa o mapa de São Paulo, o Iguatemi tem a posição geográfica mais fantástica do Brasil – está na entrada ou na saída de todos os núcleos de alta renda da cidade. Apesar de ser o mais antigo shopping de São Paulo, tem uma administração disciplinada, focada e corajosa.

GW: Quais, das maiores grifes, ainda não se aventuraram no Brasil com lojas próprias?

CF: Dos big eight ou ten, todos já chegaram. Prada, Gucci, Vuitton, Chanel, Jimmy Choo, Hermès, Burberry, Cartier, Armani, Tiffany são as marcas que precisam estar, são as determinantes. Mas ainda são discretas no mercado brasileiro.

GW: Existe um novo rico no Brasil de hoje, em meio à crise interminável?

CF: Não vamos falar de 2016 – um ano atípico. Nos últimos 20 anos, muitos brasileiros ganharam muito dinheiro. Não falo dos políticos, mas de um dinheiro verdadeiro e produtivo. Essa geração de nova riqueza do Brasil é um fato. O que ameniza um pouco essa crise violenta é que o Brasil não vive uma crise de pobreza – mas de cautela, segurança e estímulo. Porque até 2014 o Brasil liderava o ranking de novos milionários no mundo – ultrapassando China e Estados Unidos. E a nova base de consumidores brasileiros mudou padrões. Donos de padaria continuam donos de padaria – mas nos últimos anos eles viraram milionários. Galerias dos Pães e Belas Paulistas foram replicadas Brasil afora.

GW: Você diria que pessoas que entram numa loja e compram cem mil reais em produtos não são ricos de verdade, como o bilionário Jorge Paulo Lemann, mas novos ricos, como Claudia Cruz, mulher de Eduardo Cunha?

CF: Isso sem dúvida é mais comum no universo do dinheiro mais novo – mas não que não aconteça com as fortunas mais tradicionais. Esse impulso tem a ver com perfis individuais. Você citou o Lemann – ele tem um perfil discretíssimo, não apenas na compra do luxo. Quanto à Claudia Cruz, ela é exemplo de dinheiro novo gerado de forma equivocada. O Brasil produziu uma classe política que se transformou em elite – isso não tem paralelo em nenhum lugar do mundo. Se aparece um político americano ou francês montado na grana de repente, é um escândalo. Aqui, durante 10 anos, pelo menos, assistimos a essa festa passivamente – as Claudias Cruz da vida se replicavam no Brasil como formigas. Mas ganhamos uma consciência social, civil e política. Hoje temos sistemas de controle muito mais rigorosos. A Lava Jato tem esse papel importantíssimo.

GW: A pergunta que não quer calar: por que uma bolsa de mão chega a custar 50 mil reais, o preço de um automóvel?

CF: A manifestação de consumo do luxo é emocional, é da vontade. Não é racional. Quem racionaliza não compra. A minha história e minha chamada expertise no mercado de luxo vem do fato de que eu não encastelo o luxo. Comprar uma bolsa de 50 mil reais, para quem compra, equivale a comprar uma escova de dentes de 20 reais quando se pode comprar uma de dois reais. A escova de dentes de 20 vai escovar melhor? A bolsa de 50 mil vai guardar objetos melhor que uma de 50? No caso de luxo, o consumidor é estimulado por atributos – marcas bem construídas, histórias bem contadas, matérias-primas extraordinárias. Tudo isso é absorvido pelo preço.