Por dentro do inovador Vale do Silício

Go’Where fez uma fantástica imersão na região mais inovadora e futurista do planeta: o Vale do Silício, na Califórnia. Aqui, vamos desvendar esse incrível lugar – sede das marcas mais valiosas da atualidade – para contar as experiências de sucesso de empreendedores brasileiros que despontam no revolucionário império digital.

Por: Luciano Garcia

É ao redor de centros de pesquisa de excelência, como as renomadas universidades de Stanford e a supertecnológica Udacity, que as empresas mais criativas do mundo mantêm suas bases de desenvolvimento: Google, Apple, Facebook, Airbnb, Uber e Tesla, para citar algumas. Nesta viagem, vamos conhecer em detalhes como essa inacreditável engrenagem se movimenta no Vale do Silício. Numa missão de negócios exclusiva, como parte de um grupo de empreendedores brasileiros, tivemos livre acesso à cultura quase secreta de empresas que hoje fazem parte do dia a dia de qualquer um de nós, mas poucos sabem como funcionam. Conversamos com líderes visionários que ditam a rota da inovação e revelam como “pensar fora da caixa” – em um mundo hiperconectado.

De volta para o futuro

O Vale une pessoas com diferentes formações, culturas e inspirações. Personagens que trocam ideias e fazem nascer projetos pioneiros transformadores – como Steve Jobs, que, em 1976, criou o primeiro computador Apple em uma pequena garagem na cidadezinha de Los Altos. – Pedro Cintra

A região do Vale do Silício, até quarenta anos atrás, era rural. E, ainda hoje, o cenário lembra uma cidade de interior. Sem arranha-céus, sem trânsito e sem poluição, é um lugar calmo. Nada de vida noturna agitada e ostentação, como em Los Angeles ou Nova York. Quem tem oportunidade de passar alguns dias na região fica com a impressão de es-tar no futuro: a todo momento, você se depara com carros sem motorista transitando pelas ruas e entra em lojas total-mente controladas por robôs.

O Vale do Silício recebeu esse nome devido ao elemento químico silício, que é o segundo mais abundante no planeta e representa a matéria-prima básica da microeletrônica, principalmente na produção de chips, presentes em praticamente quase tudo que é digital. A região é ocupada por corporações liga-das à área de tecnologia desde o começo do século 20, quando empresas de rádio começaram a se instalar por lá.

Ao sul da baía de San Francisco, cidades como San Jose, Palo Alto, Cupertino e Mountain View viraram sinônimos da maioria das grandes inovações das últimas décadas. Passear por elas é como estar dentro do jogo SimCity: tudo funciona perfeitamente, sem caos. Embora muito se fale que a maioria das startups de lá se concentra em problemas banais, há um número considerável de empresas que procuram revolucionar as mais diferentes áreas do conhecimento, como biotecnologia, robótica, inteligência artificial e até educação.

O executivo Pedro Cintra já viveu em diversos países, mas se fixou no Vale do Silício há onze anos. Desde então, é um dos diretores do Google e compartilha seu conhecimento em cursos de imersão. Em nossas conversas, confirmou que, para quem gosta de tecnologia, estar no Vale do Silício é uma visita ao paraíso. “De repente, a gente vive numa bolha que não se compara a nenhum outro lugar que já tenha vivido. Tem as universidades, as empresas e o capital. E essas três hélices tornam a região única do mundo.”

Essa é a nova sede da Apple em formato de espaçonave que está sendo construída em Cupertino.

Facebook

O Facebook mantém, logo na entrada da empresa, um discreto detalhe que nos lembra que o sucesso pode ser efêmero: feito de lona, o “big like” dá as boas-vindas ao visitante amarrado num dos lados da empoeirada logomarca de aço da extinta Sun Microsystems, referência em tecnologia nos anos 1980, em cujo QG está instalada a sede da empresa de Mark Zuckberg. A primeira impressão na visita ao headquarters do Facebook é a de estar em um campus universitário. Uma tela gigante reafirma a penetração mundial, mostrando em tempo real de onde partem as conexões dos usuários. Fotos chegam a todo momento em outro espaço, dedicado ao Instagram. Pela sede, encontramos funcionários tranquilos, caminhando em áreas abertas, alguns jogando vôlei. Aonde quer que você vá, tudo tem ares de não estar acabado ainda, não estar finalizado. A sensação é mesmo a de uma empresa em constante transformação e que se reinventa todo dia.

Os números do Facebook são avassaladores: em pouco mais de uma década conquistou quase 2 bilhões de usuários. O seu valor de mercado é de cerca de US$ 430 bilhões. Os resultados superlativos da marca revelam a cultura inovadora e disruptiva de seus criadores. Disruptiva, aliás, é a palavra da hora. O brasileiro André Moreno, gerente de operações e planejamento de vendas, conta que as reuniões são despojadas e algumas chegam a ser feitas ao ar livre, numa espécie de trilha, com capim para todo lado. É preciso uma hora para percorrer seus 800 metros, tempo sufi ciente para as duplas de funcionários conversar e trocar ideias em busca de inovação.

Netflix

Em 1997 eles já distribuíam vídeos pela internet, algo impensável numa época em que as locadoras reinavam. Em 2000, houve uma oferta de venda da empresa por US$ 50 milhões à Blockbuster…que recusou! Hoje, a Netflix é a maior rede de TV do planeta, representa 1/3 do tráfego da internet dos EUA e possui 100 milhões de clientes no mundo . O engenheiro brasileiro Martin Spier revela que a companhia emprega métodos para engajar seu time e aposta em funcionários focados, autossuficientes e ambiciosos. Os profissionais têm que ser completos, com mentalidade “360 graus”. Um engenheiro, por exemplo, deve entender e se preocupar com áreas tão distintas quanto programação, tecnologia e vendas. E se a empresa encontra alguém realmente bom, mesmo que a vaga não exista, a pessoa é contratada. E com o melhor salário que o mercado pode pagar. Ao final, ele revela os quatro pilares para fazer sucesso na Netflix: “Construa, aprenda, teste e melhore.”

Google

Painéis solares cobrem o estacionamento no Googleplex, sede da empresa em Mountain View. A energia é usada para recarregar os carros elétricos dos “googlers”, apelido dos funcionários, e complementar a eletricidade de alguns prédios da empresa, que tem acesso restrito. A única maneira de alguém visitar os prédios é sendo convidado por um funcionário – como foi o caso da equipe da Go’Where, que teve o diretor Pedro Cintra como anfitrião. Logo na entrada, estão as bicicletas para os googlers. Na pracinha, estátuas do mascote do sistema operacional Android relembram as versões já inventadas. Nos jardins orgânicos são cultivadas frutas e legumes usa-dos nos restaurantes. Todas as refeições são gratuitas e de excelente qualidade. Eles ainda possuem salas de videogame e de pingue-pongue, piscinas, academias e atendimento médico. A cultura de cuidar dos colaboradores rende louros ao Google, que é constantemente classificado entre os melhores lugares para se trabalhar.

Googleplex em Mountain View

Ericsson

A sueca Ericsson domina hoje 40% do segmento de redes de comunicação, principalmente na tecnologia de tráfego de voz e dados. Apesar de ser uma empresa de140 anos, foi capaz de se reinventar. “A inovação é o grande desafio para uma companhia grande como a Ericsson, presente em tantos países. Você precisa perguntar a si mesmo: essa tecnologia é boa para quem? Quem irá comprá-la? Quando nós encontramos uma boa ideia, nós incubamos por cerca de seis meses. Durante esse tempo, damos foco total para tirá-la da caixa e transformá-la em algo diferente do que já se vê”, explica o VP Thomas Olson, sobre a grande virada da companhia, que saiu da fabricação de hardware nos anos 1980 para uma competitiva empresa de softwares e serviços nos anos 2000.

Mirando o futuro

FIM DOS POSTOS DE COMBUSTÍVEL: o trunfo da Tesla é a superbateria dos carros, com autonomia de 450 km. O segredo também é a forma de recarregar essa bateria, totalmente independente da geração de energia tradicional – células fotovoltaicas, instaladas no telhado deo trunfo da Tesla é a superbateria dos carros, com autonomia de 450 km. O segredo também é a forma de recarregar essa bateria, totalmente independente da geração de energia tradicional – células fotovoltaicas, instaladas no telhado deuma residência, provisionam carga suficiente parao carro do dono percorrer o trajeto de ida e volta ao trabalho. – Maurício Benvenutti

Go’Where conversou com Maurício Benvenutti (StartSe), autor do livro Incansáveis, um dos best-sellers no segmento de negócios, que abandonou a sisuda IBM para ajudar a criar a XP Investimentos, uma das corretoras de maior êxito na América Latina. Hoje, ele realiza conexões entre empreendedores, investidores e mentores no Vale do Silício. O empreendedor conta que a reputação de uma marca não é mais sinônimo de longevidade, pois tudo enferruja cada vez mais rápido. Até pouco tempo, a joia da coroa das empresas de telecom era o DDI. O serviço foi praticamente atropelado pelo WhatsApp. “O eBAY atropelou leilões assim como a Amazon atropelou livrarias. Uber e Airbnb são as duas startups mais valiosas dos EUA. Grandes mídias sofrem diariamente com a perda de receitas para o Google, atual número 1 do merca-do de publicidade. A Kodak, inventora do filme fotográfico, chegou a ter 140 mil funcionários. Em 1996, era a quarta marca mais valiosa do mundo. Hoje, está falida”. Ele acredita que os empreendedores de garagem vão engolir corporações e esse movimento não tem mais volta. Essa batalha já chegou à indústria automobilística. Maurício Benvenutti explica que a Tesla irrita petroleiros e montadoras. Os automóveis elétricos da marca já são re-alidade em vários lugares do mundo e no Vale do Silício é comum vê-los sendo recarregados em charging-stations nos estacionamentos. A Tesla já está valendo mais que a GM e a Ford. Eles não possuem concessionárias, somente lojas próprias com os carros em exposição. Os pedidos são feitos pela internet e só começam a ser produzidos depois que o cliente compra. É o oposto do modelo tradicional, onde imperam os pátios hiperlotados das montadoras com carros esperando um comprador. Confira, a seguir, outras empresas que estão levando o mundo dos negócios para o futuro.

B8TA

Nenhum produto da loja B8TA em Palo Alto possui caixa. A ideia é que tudo seja “hands-on” e o cliente possa experimentar os aparelhos antes de comprar. Isso reforça o contato do cliente com as diferentes invenções e dá a oportunidade de experimentarem uma alternativa ao comércio on-line. A criativa bicicleta Copenhague Brill, por exemplo, tem uma roda arrojada, que aumenta em até dez vezes a potência da pedalada do ciclista. Ela é um misto entre bicicleta híbrida e elétrica, mas com um design charmoso, que não perdeu a inspiração retrô e minimalista.

Airbnb

É hoje a maior rede de hospedagens do mundo. Fundada em 2008, no Vale do Silício, a startup ganhou popularidade rapidamente entre os viajantes. O setor hoteleiro entrou em parafuso com o crescimento da empresa, já que o Airbnb conta com aproximadamente 2 milhões de anúncios em mais de 190 países. A fórmula simples de compartilhamento – e de não ser necessário investir em propriedades, contratar equipe e toda a imensa gama que envolve o setor hoteleiro – foi o grande pulo do gato do Airbnb, que tem mais do que o dobro do número de quartos da rede de hotéis Hilton, criada há quase 100 anos. Seu valor de mercado chegou a US$ 25 bilhões, equiparando-se a multinacionais brasileiras como Petrobras e Vale.

Eatsa

Essa rede de restaurantes é diferente de qualquer fast-food que você já viu. Não há atendentes, garçons ou operadores de caixa. Não se vê absolutamente nenhum funcionário do restaurante no ambiente. Após escolher o pedido num quiosque de iPad, o cliente espera na frente de uma parede de cubos de vidro, onde a comida aparecerá quando estiver pronta. Escondida atrás da parede, a equipe da cozinha prepara a refeição. Quando um pedido está pronto, um funcionário irá colocá-la em um dos boxes, aparecendo na tela o nome do cliente que pediu ao prato. O cardápio com itens a partir de US$ 6 é variado e saudável.

Revolução na saúde

O Vale do Silício desponta também com avanços significativos na área da saúde e da biotecnologia. Conversamos com a bioquímica Carolina Oliveira, da OneSkin Technologies, projeto pioneiro de pele artificial. Em laboratório, ela conseguiu reconstruir um tecido humano artificial Carolina Oliveira que pode ser envelhecido in vitro, revolução para a indústria de cosméticos que pesquisa cremes antienvelhecimento. A bioquímica afirma que estar no Vale do Silício foi decisivo para consolidar sua relação com os investidores.“No Brasil, não chegava a um modelo de negócios que fizesse sentido para ser uma empresa de sucesso. Aqui encontrei uma proposta de negócio atrativa tanto para clientes quanto para investidores.” A tecnologia aplicada à genética já está tão evoluída que a Dra. Carolina revela que já é possível a impressão tridimensional de um rim. E prevê que, num espaço de cinco a dez anos, um coração artificial já terá sido impresso.

Beam 

Austen Trainer vive em Davis, Califórnia, e trabalha diariamente numa loja em San Jose, a 169 km, sem sair de casa. Austen é um dos vendedores-robôs da Beam, loja que comercializa aparelhos de telepresença operados à distância e que é controlada de maneira remota, inclusive para abrir e fechar as portas. “Eu estou logado pelo meu laptop em casa, e, através dele, acesso todos os dispositivos por meio da rede. Posso percorrer toda a loja sem nenhum auxílio humano. Controlo portas, luzes, travas pelos nossos computadores”, conta o vendedor virtual. Os profissionais à distância conseguem atender várias unidades ao mesmo tempo. “Na área da saúde, você pode usar o robô, por exemplo, para conversar ao vivo com pacientes ou, se você é um paciente, e não pode deixar o hospital, consegue frequentar aulas, fazer um tour por um museu… Educadores podem dar aula a distância, interagindo com os alunos. Famílias inteiras podem usar modelos menores para observar os avôs que moram longe, por exemplo. São múltiplos usos” explica Austen.

Como chegar lá

O Vale do Silício é altamente competitivo. Um erro comum dos empreendedores é achar que basta chegar lá para tudo acontecer. Nos últimos anos, muitos empreendedores têm ido aos EUA para se aperfeiçoar e até iniciar startups respaldados pela expertise compartilhada pelas grandes empresas instaladas lá. Os empreendedores brasileiros que decidem internacionalizar sua empresa têm um grande aliado: a APEX. Instalado em São Francis-co, o escritório da agência brasileira de exportação é um extraordinário facilitador que aproxima investidores e promove rodadas de negócios para deslanchar as startups. “O nosso papel é dar as ferramentas para que a empresa alcance seus objetivos: algumas querem investidores, outras querem simplesmente aumentar suas vendas, e há as que querem desenvolver novos produtos. Nós damos as ferramentas para que elas tentem alcançar esses objetivos da melhor maneira”, explica o diretor Fernando Figueiredo. Marcelo Murachovsky, da BovControl, aplicativo que aumenta a eficiência produtiva na pecuária, trabalha em uma das salas que a APEX disponibiliza aos empresários. “Além do espaço físico para as empresas brasileiras em São Francisco, as indicações e conexões com pessoas nas mais diversas áreas e empresas, feitas pelo pessoal da APEX, facilitam a adaptação das empresas por aqui. Minha dica para empreendedores é aproveitar ao máximo a rede de conexões proporcionada pelo pessoal da APEX, para fazer as conexões certas.”

Viver 120 anos?

O empreendedor Maurício Benvenutti explica que, no futuro, se alguém precisar de um fígado, impressoras 3D fabricarão o órgão que será transplantado. Isso vai ser possível utilizando células-tronco modificadas com o próprio DNA do paciente, gerando um suprimento inesgotável de órgãos sem risco de rejeição. Procedimentos que eram acessíveis a somente uma parcela muito restrita da população ficam cada vez mais disponíveis às massas. “Existe uma empresa chamada 23an-dMe que fornece testes de DNA por US$ 199. Você pede e chega na sua casa um tubinho para colocar sua saliva, que você vai reenviar pelo correio. Em cinco dias o resultado está no seu e-mail. Além disso, o custo do sequenciamento do genoma diminuiu muito nos últimos anos. O primeiro foi feito em 2003, com cinco mil cientistas envolvidos. O custo ultra-passou os US$ 100 milhões. No ano passado, foi feito um sequenciamento completo que custou pouco mais de US$ 1000. Esse avanço forte na genética vai permitir que nos próximos anos as pessoas vivam cada vez mais. E, se as pessoas passarem a viver 100, 120 anos, você muda completamente os planos de pre-vidência, de aposentadoria, o formato normal do trabalho de uma sociedade.”

No ultratecnólogico museu The Tech, a guia de imersão Susi Helen nos falou sobre os testes oftalmológicos que podem ser feitos por aplicativos: algo crucial para populações de baixa renda ou que vivam em regiões afastadas que não disponham de atendimento médico adequado. “Há um protótipo de teste de glaucoma concebido para os celulares. Ele é feito a partir de um aplicativo que faz o efeito da dilatação do olho. Assim, dá pra detectar doenças degenerativas com bastante antecedência e até curá-las. Com essa ferramenta, médicos especialistas podem ir a campo, coletar informações e depois, com mais calma, fazer o upload dos dados em um computador numa clínica de olhos, por exemplo, e fazer o tratamento mais eficiente.”

As startups

Apple, Google e Facebook começaram como startups e se tornaram os negócios mais valiosos e atraentes do planeta. Uma startup é tipicamente formada por um grupo de pessoas que não têm muito a perder, uma vez que o negócio é pouco lucrativo. Elas surpreendem o mundo pela sua velocidade de crescimento. São feitas para nascer rápido e já nascem com esse objetivo. Não é sorte ou acaso. É consequência de um modelo de negócios com essa finalidade. As startups se caracterizam por usar de modo intenso a tecnologia para criar soluções que rompem os padrões da indústria. E elas começam com menos recursos do que as empresas tradicionais precisam para começar. Mas apenas 1 em cada 10 startups dá certo e prospera. “O ambiente de startup é completamente diferente para quem vem de grandes empresas, então você acaba fazendo de tudo um pouco e tendo a oportunidade de se reinventar. Foi muito positivo para mim. Estou aqui há dois anos e foi realmente uma chacoalhada geral para identificar o que eu quero fazer”, relata Mario Isaac, VP da Wecash.

As incubadoras

Oferecem infraestrutura, espaço de trabalho e os chamados “mentores”, que auxiliam no crescimento e na modelagem dos novos negócios. Grandes corpo-rações podem criar ou patrocinar incubadoras, ou seja, ambientes que apoiam e fomentam o desenvolvimento de startups. O Banco do Brasil é um bom exemplo: possui, em São Francisco, um laborátório de inovação, o LABB, inaugurado em junho de 2016. Dos 3.200 projetos inscritos, apenas quatro vão aportar no Vale para serem desenvolvidos. São ideias, projetos e futuros aplicativos que prometem transformar a experiência dos clientes. O diretor Vilmar Grüttner explica que a iniciativa da criação do laboratório serve para estimular a inovação em uma instituição com mais de dois séculos. “O networking no Vale é algo que funciona de um modo fantástico. A gente pode trocar muita ideia e desafiar alguns conceitos.” O diretor explica que todos os projetos do banco são submetidos inicialmente à análise de viabilidade chamada MVP, o Produto Mínimo Viável. A técnica mensura o valor suficiente da ideia, os benefícios para reter os primeiros usuários, e orienta seu desenvolvimento futuro.

As aceleradoras

Subsidiam as ideias em troca de futura participação acionária nas startups. A meta das empresas que mantêm incubadoras e aceleradoras é utilizar o conhecimento, know-how e mentalidade disruptiva das startups para desenvolver seus projetos. “Esse é o grande valor de uma aceleradora do Vale do Silício. Geralmente, as empresas que vêm para o programa já têmo conhecimento, know-how e mentalidade disruptiva das startups para desenvolver seus projetos. “Esse é o grande valor de uma aceleradora do Vale do Silício. Geralmente, as empresas que vêm para o programa já têmo produto e a tecnologia, mas precisam repensar o modelo do negócio, entender melhor o mercado e o público. E por esse modelo mental diferente, as pessoas aqui estão dispostas a trocar ideias sobre as experiências”, conta Renata Isaac, da aceleradora German Accelerator.

Ponto de encontro

A pouco mais de 3 km da sede do Google, em Mountain View, uma casa se tornou lugar de concorridas reuniões de geração de novos negócios: a SiliconHouse, idealizada pela brasileira Andrea Litto, radicada nos Estados Unidos há mais de vinte anos. O ambiente aconchegante da casa faz empreendedores e investidores conversar, aprender e gerar oportunidades de forma muito mais eficaz do que em reuniões formais. “Aqui conheci diversos engenheiros talentosos vindos do Brasil. O brasileiro é um dos povos mais diversificados do mundo, a forma como se comunicam é contagiante. Eles constroem muito com pouco, é uma cultura incrível. Isso faz toda a diferença no fechamento dos negócios”, diz o americano Wedge Martin, um dos cofundadores da SiliconHouse. O diretor de vendas da Ericsson, o brasileiro Michel Castaldelli, explica que diariamente acontecem encontros de profissionais de diferentes segmentos, os chamados “meet ups”. “As pessoas podem se cadastrar, ver quais reuniões estão acontecendo próximo a elas e, então, escolher em qual participar. A princípio, a gente não percebe. A cultura de compartilhar ideias no Vale é muito forte.”

Na hora certa, no lugar certo

Foi em 2007, na sede da Plug&Play, em São Francisco, mix de incubadora, aceleradora e mentora de startups, que tomou forma o inusitado serviço de compartilhamento de arquivos, o conhecido Dropbox. Qualquer documento arrastado para uma pasta específica do computador prometia ser automaticamente armazenado e replicado em vários dispositivos. Fernando Zornig, gerente da Plug&Play, explica que o conhecido Dropbox. Qualquer documento arrastado para uma pasta específica do computador prometia ser automaticamente armazena-do e replicado em vários dispositivos. Fernando Zornig, gerente da Plug&Play, explica que o Dropbox recebeu um aporte de investimento modesto: apenas US$ 100 mil. Mas como os investidores não dão ponto sem nó, em pouco tempo a ferramenta já valia mais de US$ 100 milhões. “Tivemos casos de conversar com o empreendedor num dia e no outro ele já estava aberto a receber um investimento nosso. Qualquer startup pode se inscrever em nosso pedido de aceleração. O único pedido é que já exista o produto pronto e funcionando. Que ele possa ser oferecido a nossos parceiros que procuram novas tecnologias, novos fornecedores e oportunidades de investimento”, diz Zornig.

Mentes brilhantes

A Universidade de Stanford, a quarta melhor do mundo, é um dos berços da inovação do Vale do Silício. O campus impressiona por ter sido a grande escola de mais de 40 mil empresas fundadas por seus alunos desde 1930. São famosas empresas que geram hoje US$ 3 trilhões em receita por ano e foram responsáveis pela criação de cinco milhões de empregos. A professora Mariangela Smania, guia da Stanford University, revelou que os veteranos do Vale, se-jam empreendedores, empresas ou universidades, sempre serviram como catalisadores para as startups. Isso aconteceu principalmente pela cultura instituída pelos criadores de Stanford, que quiseram retribuir para a sociedade o su-cesso e a fortuna que conseguiram. Atualmente, é impossível dissociar a cultura de retribuição, o famoso “give back”, de Stanford. “A Escola de Design de Stanford, a D.School, é um exemplo disso. Trabalhamos com grupos multidisciplinares e a engenharia é um deles. Temos também a área de robótica, onde os grupos competem entre si. Isso cria uma dinâmica de trabalho incrível. Aqui no Vale não im-porta o seu passado, importa o que você está fazendo. Seu impacto é o que abre os olhos das pessoas e faz com que te deem valor. Não é idade, não é o quanto rico você é. É o que você realmente apresenta como solução e como essa solução pode ser importante para milhões de pessoas. Aqui você senta, toma um café, bate um papo com um CEO. As pessoas tanto aprendem com você como você com elas.” A professora Mariangela Smania aplicou uma dinâmica de design thinking com o grupo de empreende-dores dessa imersão com o objetivo de provocar questionamentos no chamado mindset. “A gente tem o modelo mental fixo, que infelizmente é o modelo que as escolas ensinam às crianças – e incute nas pessoas que os traços particulares de inteligência de cada um, ou habilidades próprias, não podem ser aprimorados. O modelo mental de crescimento é o da pessoa que é curiosa, que está sempre querendo desafios, que está sem-pre querendo melhorar, aprender coisas novas, que não vê falhas como fracassos e, sim, como uma nova oportunidade de aprendizado. No Vale, vemos muito disso: pessoas que falharam e aprenderam rápido com os erros e foram para uma nova tentativa e foram bem-sucedidos nessa nova tentativa.”

Nada se faz sozinho

Fala-se que a taxa de inovação no Vale do Silício aumenta quando as pessoas quebram barreiras e conseguem criar pontes de confiança fora de seus círculos. Fazer isso é crucial porque a inovação prospera quando as pessoas contribuem com ideias, habilidades e redes. E algo absolutamente impensável em terras brasileiras: ter concorrentes por perto. No Vale, acredita-se que essa é uma ótima forma de ganhar mais representatividade e crescer. Há um pensamento que reforça que é preciso confiar nas pessoas para que elas confiem em você. E mais: aprende-se logo que não é possivel inovar sozinho. O gerente de engenha-ria da LinkedIN, Paulo Santana, conta que na sede global da companhia, em Sunnyvale, há muitos talentos brasileiros se destacando. “Você vê que os engenheiros se encontram em eventos o tempo todo. É um bom lugar para se aperfeiçoar, ganhar experiência e crescer profissionalmente.”

Vale do Silício para todos

A jornada de conhecimento da qual a Go’Where participou aconteceu durante uma semana de intensa programação, com uma grade de atividades enriquecedoras. Instalados em uma confortável mansão em San Jose, saíamos diariamente para visitas às cidades próximas para entender como funciona o modelo mental tão inova-dor do Vale do Silício. “Toda a vivência no Vale é para conectar pessoas à inovação, a um mundo a que elas não têm acesso. Na imersão, fazemos mais de vinte atividades – visitas a empresas, dinâmica de grupo, jantares de networking. Também temos realizado imersões com hospedagem em hotéis. Visitamos museus, experimentamos momentos de descontração, conhecemos novas aplicações e até almoçamos em restaurantes com atendimento robotizado. É uma semana inteira de atividades em que as pessoas vão aprender, participar e ter experiências com todo aquele mundo que para nós, de uma certa forma, é ainda distante”, diz João Roberto Azambuja, fundador da SiliconValley.com.br – em-presa que realizou a viagem de imersão, totalmente falada em português. Segundo um dos participantes, Carlos Ogata, VP de Inovação da empresa BestPay, a experiência de aprender com profissionais das empresas mais inovadoras do planeta foi surpreendente.“Não precisa ser PhD, mestre ou de uma universidade top do mundo. Todos podem vir. Uma máxima da região: ‘O Vale do Silício não é um lugar, é um modelo mental’. No velho capitalismo, o que manda é o dinheiro. Na Califórnia, há outro tipo de moeda – a mentalidade, o que você traz de novo, o que você pode agregar de valor. Compartilhar ideias era um tabu. Hoje, em mercados tradicio-nais, uma boa ideia é mantida como segredo industrial, que não pode ser dividido. No Vale, eles partem do princípio que uma ideia compartilhada e aplicada é o principal desafio. Conseguir agregar valor é fazer diferença para o nosso mundo.” Para o VP da Go’Where, João Norberto Busto Jr., participar dessa imersão no Vale foi uma experiência imperdível. “Transformadora, principalmente por termos tido acesso direto a uma nova fonte de informação, conhecimento e inspiração criativa com algumas das mentes mais brilhantes da região.” Ele conta que foi estimulado a abrir a cabeça para novas e modernas for-mas de empreender e gerir equipes com foco em resultados e a filosofia de criar mais qualidade de vida aos colaboradores. “O desafio agora é tropicalizar os aprendizados e aplicar no dia a dia de acordo com a nossa realidade”, explica João Norberto Jr. As missões desenvolvidas pela Silicon-Valley.com.br acontecem durante todo o ano. “É uma rara oportunidade para executivos, empresários e empreendedores brasileiros conhecer o Vale e terem experiências únicas de inovação com produtos tecnológicos, mesmo que trabalhem em outro ramo. Isso é muito válido para nós: poder transformar o negócio de pessoas com a cultura do Vale, com a oportunidade extraordinária que o Vale do Silício gera”, conta o sócio-diretor da empresa, Fernando Castro.

7 ENSINAMENTOS DA INOVAÇÃO DO VALE

1. IDEIAS NÃO VALEM NADA
No Vale do Silício, acredita-se que as ideias não valem absolutamente nada. O que conta mesmo é a execução. Para executar, é necessário ter muito talento, manter a persistência e acreditar profundamente no que você está fazendo.

2. FOCO TOTAL
por conta da supercompetição, as startups do Vale adquiriram o chamado “hiperfoco”, que faz com que elas se dediquem em resolver problemas grandes da maneira mais simples possível, sem inventar muita moda. O hiperfoco é um dos grandes responsáveis pelo sucesso estrondoso das startups do Vale do Silício.

3. CREDIBILIDADE
exercitar a cultura de compartilhamento de informações e networking é fundamental. Aqui é relativamente fácil reunir-se com alguém importante, um presidente ou alto executivo. Mas não é porque é fácil que você deve fazê-lo. Um investidor, empreendedor ou executivo importante só o receberá de braços abertos se você for apresentado por um interlocutor em comum em quem ele confie.

4. LIBERDADE
empreendedores, acadêmicos, cientistas e funcionários precisam se sentir livres para as ideias aflorarem naturalmente, para acontecer a inovação e o questionamento. Precisam ter certeza de que suas criações podem impactar o mundo de forma positiva.

5. APRENDER COM O ERRO
no Vale é muito comum os empreendedores admitirem abertamente seus erros e o que aprenderam com eles – o fracasso faz parte do dia a dia do Vale do Silício. Enquanto a maior parte das culturas considera o erro vergonhoso, por aqui ele é parte natural do processo, uma vez que o pressuposto para a inovação é o teste. Se o erro nunca aconteceu, é porque nada novo ainda foi tentado.

6. INVESTIR EM PESSOAS
não existem soluções inovadoras sem pessoas inovadoras. Se você deseja criar uma cultura de inovação na sua empresa, é preciso investir forte em capital humano. Profissionais qualificados são capazes de pensar em ideias originais e colaborar para a competitividade da empresa.

7. COMPARTILHAR
empreendedores compartilham informações livremente e sem medo de serem copiados, exatamente por acreditarem que a ideia é apenas o começo. Isso pode soar como suicídio empresarial para muitos, mas é bastante comum no Vale do Silício.