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Um Signore Cônsul

Natural da Catânia, mas de origem sarda, 49 anos, casado, dois filhos, Michele Pala iniciou-se na carreira diplomática em 1996. E, nesses 20 anos, serviu em Pretôria, na África do Sul, em Montevidéu, no Uruguai, em Washington, nos Estados Unidos. A cada oito anos no exterior, como é praxe na política consular italiana, ele volta a Roma, para uma reciclagem e para não se afastar muito tempo do país que representa. Ocupa o cargo de cônsul-geral da Itália em São Paulo desde 14 de julho de 2014. Casado com uma brasileira – daí seu português perfeito para quem só está há dois anos no Brasil – ele está integrado à cidade. Aqui, o cônsul Michele desvenda a cidade onde se sente em casa.

Por: Celso Arnaldo Araujo

consul1GW: A esposa brasileira:
MP: Eu a conheci antes de ingressar na carreira diplomática. Foi em Fernando de Noronha. Ela estava ali de férias e eu chegava a bordo de um veleiro, vindo da Europa, como última escala antes da costa brasileira. Sempre gostei de velejar, meu sonho era atravessar o Atlântico. A gente se conheceu. Depois de um namoro a distância, ela foi para a Itália. E nos casamos. Temos dois filhos – um nascido na África do Sul; o outro, no Uruguai. Ambos produtos desse tipo de vida como nômades privilegiados.

GW: O primeiro impacto ao chegar a Sampa:
MP: Conhecendo São Paulo de outras passagens, eu sabia das dificuldades de viver aqui, já estava preparado. Isso me ajudou muito a descobrir, com mais prazer, todos os aspectos positivos da cidade. As pessoas que passam aqui poucos dias não os percebem. Descobri o tanto que São Paulo pode oferecer do ponto de vista musical, cultural, gastronômico. Dos contatos que se pode ter com pessoas de qualquer origem, a importância econômica da cidade. É uma praça incrível e oferece muitas surpresas. Não é linda no primeiro impacto, mas se revela aos poucos.

GW: A influência italiana na cidade
MP: Em todo e qualquer lado. É impressionante perceber, em todos os aspectos, que São Paulo foi literalmente construída pelos italianos. Na arquitetura, na indústria, nos sobrenomes, na cultura, não há um lugar que não tenha, de alguma maneira, uma influência ou uma conexão com a Itália. Isso nos enche de orgulho. Significa que os italianos que imigraram para cá eram pessoas que trabalharam duro e se sacrificaram e fizeram por merecer a estima que ganharam na sociedade paulistana. Temos um capital de simpatia muito forte – mas também é um desafio, porque a expectativa em relação à Itália é muito alta.

GW: As relações comerciais
MP: Continuamos tendo um superávit em relação ao Brasil. As pessoas acham que só produtos da moda e da gastronomia são típicos da italianidade. É verdade, mas o ponto mais forte da economia italiana de exportação é o maquinário – máquinas para fazer máquinas. Vou muito a feiras e há pouco fui a uma da indústria do vidro. É impressionante o high-tech das empresas italianas no corte e no molde do vidro. E é só um exemplo. É enorme a capacidade das pequenas e médias empresas que fazem o tecido econômico italiano e souberam se adaptar e ganhar o desafio da inovação tecnológica, combinada com a tradição artesanal de séculos e séculos.


GW:
O que faz um cônsul-geral
MP: Cuida da grande coletividade italiana na cidade. Temos 200 mil cidadãos italianos registrados no consulado – que recorrem aos serviços consulares, em busca de passaportes, registro civil, voto eleitoral. Ao mesmo tempo, São Paulo merece uma atividade de promoção cultural e econômica da Itália. O cônsul-geral também coordena outras instituições italianas, como o Instituto Italiano de Cultura, a Agência pela Internacionalização das Empresas Italianas, o ICE, além de manter relações com autoridades estaduais e municipais.

consul2GW: A concessão do visto italiano ficou mais difícil?
MP: Não houve mudança de regras. A burocracia é o que a lei requer para a concessão de cidadania. No caso de viagem à Itália de até três meses, o brasileiro não precisa de visto.  Os problemas que temos referem-se ao tempo de espera para o reconhecimento da cidadania italiana. Há milhões de descendentes de italianos que desejam esse reconhecimento de cidadania, às vezes relativo a um italiano que veio para cá há 150 anos. Não há limite geracional nessa concessão. Pode-se reconstruir a cidadania sem limites. A única condição é que o ascendente italiano estivesse vivo em 1861 – quando a Itália se forma como reinado. Se esse ascendente estivesse na Itália em 1861, ele seria automaticamente italiano e transmitiria sua descendência. Estamos falando de seis, sete gerações e milhões descendentes. O consulado tem um número limitado de funcionários, que tem de cuidar de 200 mil cidadãos. Desses, apenas 10% são natos da Itália. Os demais obtiveram sua cidadania por direito de sangue. Mas, para reconhecer os novos, reconheço que estamos num ritmo que não é o desejável.

GW: Campanha Made in Italy
MP: Essa campanha foca nos produtos enogastronômicos, sobretudo ingredientes originais. Queremos distingui-los das imitações. Teremos em outubro a semana da gastronomia italiana. Serão 20 restaurantes italianos e 20 chefs de 20 regiões da Itália, propondo cardápios típicos e vinhos. Isso ajuda a divulgar o típico made in Italy – os queijos originais, os embutidos, como culatello e prosciutto, azeites, massas – para promover nossos produtos e educar o consumidor sobre os originais.

GW: Como a Itália consegue fazer o melhor café do mundo sem ter um único pé de café?
MP: Porque o nosso sistema de torrefação é único no mundo. Produz um tipo de café que os italianos gostam muito e faz sucesso no exterior. A torrefação é fundamental. Mas o melhor café do mundo vem do Brasil. Há aqui empresas importantes que fazem um belo trabalho de sustentabilidade social e ambiental. Comprando deles, produzimos um café mais concentrado, que dá origem ao irresistível espresso italiano.

GW: Como obter o “green card” italiano
MP: Há vários tipos de visto para quem não é cidadão. Para trabalhar no país, é necessário um contrato de trabalho autorizado na Itália e ser admitido numa cota anual. O que mais concedemos são vistos de estudos. Temos a oferecer algumas universidades italianas de nivel internacional, como a Bocconi, de Milão, que tem um máster de finanças situado entre os 10 melhores do mundo. A universidade mais antiga do mundo é Bologna.

GW: O que mais sente falta da Itália?
MP: No tipo de vida que tenho, preciso me esforçar para não sentir falta de nada – ou não se vive. Mas confesso sentir falta de uma boa muzzarela de búfala italiana, com uma elasticidade que não se encontra em nenhum lugar do mundo.

GW: Restaurantes italianos que frequenta em São Paulo
MP: Vou mais a não-italianos, para conhecer e variar. Mas, entre os de comida italiana, destaco Osteria del Petirosso, Picchi, Nino Cucina, Terraço Itália.

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