Divina Hebe

(Capítulo XXXI – Do livro de memórias ainda inédito: “Rápido antes que eu me esqueça”, de Ovadia Saadia)

A vida mundana e social de São Paulo dos anos 1980 para cá também se confunde com a vida pessoal de Hebe Camargo – que, ao se casar com o empresário Lélio Ravagnani, no início da década, optou por ser a mais faiscante das socialites, entre as quatrocentonas que reinavam em Sampa.

O casal marcava presença todas as noites no Gallery, Hippo, Régine’s, e quase todos restaurantes da moda, até a morte de Lélio em 2001, quando Hebe passou a sair com grupos de amigos e elegeu novos pontos, como A bela Sintra, de Carlos Bettencourt

Texto e fotos Ovadia Saadia

Em 1966 eu mal falava português e meu melhor amigo era o Francisco Moreno, hoje médico e extremamente politizado em relação à questão israelense. Nosso sonho era descobrir uma passagem secreta para outro planeta em pleno Centro de São Paulo, para podermos virar celebridades e sermos entrevistados pela… Hebe! A primeira dama da TV no País. Falavam de suas joias e de seu salário… Aos 28 anos de idade minha mãe (1935- 2002) me contou, uma manhã, ter sonhado que estava no camarim de Hebe. Nunca se falaram, mas, em 1984, fiz uma festa estranha para Agnaldo Rayol no Régine’s, à qual compareceram 1.200 pessoas, e, no meio da confusão, as duas trocaram sorrisos. Sim, a diva estava lá. Por outro lado, numa fria noite de 1987, levei pai e mãe para conhecer as instalações do Night Club Gallery e, pelo vidro que separava o restaurante do bar e da boate, vi que Hebe jantava com o marido Lélio e com Ronald Golias. De lá para cá, quase 50 anos depois, não me lembro de um ano que não inclua na memória alguma lembrança da mulher-fenômeno.

•Na festa de primeiro aniversário da “minha” boate Régine’s (31/03/1981-14/08/1986) ela escorregou na feérica pista de danças a meu lado. Não sei por que aquilo me chocou: achava que as rainhas não derrapavam.

•Nossa carreira sempre deu um jeito para que nossos destinos se cruzassem de uma forma ou de outra. Não somos amigos, mas nos cumprimentamos sempre. Nunca fiquei mais de seis meses sem vê-la em algum lugar. La Tambouille e A bela Sintra, às vezes na mesma semana. Tinha o Magari também, ela não variava tanto em relação às novidades de São Paulo.

•Na festa inaugural do hotel Unique São Paulo (outubro de 2002), o desfile beneficente para Laramara teve assinatura da grande Eugênia Fleury, que convidou Hebe para ser a mestra de cerimônias. Foi um trabalho árduo pelo inesperado. Amaury Jr. exigiu exclusividade para cobrir a festa sem interesses comerciais. Tive então que desconvidar outras TV’s que haviam sido  onvidadas e já agendadas, o que me valeu uma vigília noturna-zumbi. Peço desculpas até hoje, quase uma década depois. Não dá para esquecer Hebe cantando, de vestido azul, para o dono da casa, Victor Siaulys (1935- 2009), absolutamente embevecido, Como é grande o meu amor por você, num palco-passarela que logo se transformaria no cenário dos eventos mais poderosos do país. Hebe-talismã.

•O velório do marido Lélio, numa sala VIP do Hospital Albert Einstein, o Plaza Athenée, em Paris, a viagem que as aguardava. Justo neste momento deu meio dia, uma sirene tocou e um enxame de enfermeiras e auxiliares hospitalares de cozinha, laboratoriais e administrativos coreu em direção à musa televisiva. “Só peça para não me pegarem e beijarem muito, porque são mais de 200”, me suplicou Hebe, ao pé do ouvido. Tudo em vão. Não vi mais nada, só o motorista tentando colocá-la no banco de trás da Mercedes. Entendi – na pele – sua força popular e carisma únicos, nessa triste segunda-feira cinzenta.

•Depois me lembrarei de mais passagens, depois. Um jantar em sua residência, na divisa Cidade Jardim-Morumbi, inaugurando uma ala nova de um palácio tropical, me deixou deslumbrado pelo bom gosto de todos os detalhes, plantas, cristais, animais e preciosidades.

•Não contei para ninguém como fiquei triste quando veio a noticia do câncer, em 2010. Os traumas voltam à tona nesses anúncios. Seria possível um país sem Hebe? E em seguida, fim de 2010, ontem, aquela gravação de DVD poético-emotiva no Credicard Hall.

•Mulher-mídia. Tudo de novo naquela noite de gala e música no Hall, o exemplo do eterno reinício. Seu sensual e justo longo branco, mil pedrarias e joias da rainha de Sabá me lembraram o show de 1972 de Marlene Dietrich em Londres. A câmera captou, entre um (discutível) cantor convidado e outro, momentos da grande musa sozinha no palco, olhando em direção ao céu de néon; talvez agradecendo tantas glórias e graças recebidas. Talvez.

•Ainda a vi algumas vezes, nunca mais conversamos muito.

Um sofá vazio, um país choroso. Como será a vida, não na TV, mas em São Paulo, sem Ela-Hebe daqui para o sempre…?

 

Leia essa e outras matérias na Go’Where n° 95