Mamma Mia – De mãe para filha

Musical da Broadway, filme com Meryl Streep, canções importais do ABBA. A versão paulistana de Mamma Mia é um estouro de bilheteria – graças sobretudo a estas duas moças, Kiara e Pati

No camarim, Kiara Sasso dá uns retoques na maquiagem da “filha”, Pati Amoroso. Não têm idade para ser mãe e filha – mas o musical é um mundo de sonho

No centro da trama, mãe, filha e três possíveis pais. A magia e o as letras das canções do ABBA inspiraram a escritora Catherine Johnson nesta história sobre amor, amizade e escolhas, passada em uma pequena ilha grega. O sucesso estrondoso do musical Mamma Mia, que já encantou milhares de pessoas pelo mundo, ganha cada vez mais público em São Paulo e tem lotação máxima em todas as apresentações no Teatro Abril. Entre os protagonistas do musical, a experiente Kiara Sasso, que interpreta Donna, vivida no cinema por Meryl Streep, e Pati Amoroso, uma jovem atriz de 20 anos, com currículo admirável, que incorpora a filha de Donna, Sophie. “Pela primeira vez, em muito tempo, não sou a mocinha. O trabalho de corpo é totalmente diferente de tudo que já fiz”, diz Kiara, uma veterana de supermusicais – já atuou em A Noviça Rebelde, A Bela e a Fera, O Fantasma da Ópera e Jekyll & Hyde – O Médico e o Monstro.
Pati é uma jovem doce e muito dedicada. Desde peque na, quando descobriu um dom para o canto, investe seu tempo nos estudos não só de música, mas também do corpo, com aulas de balé, dança e sapateado. Ela revela que, dois meses antes de começarem os ensaios para o Mamma Mia, foi para a New York Film Academy fazer um curso de musicais. “Lá eu tive aulas de tudo, de jazz a improvisação. Foi fundamental para eu compor a minha personagem”. Dois meses antes da estreia da peça, o diretor associado Robert McQueen, o diretor musical David Holcenberg e a coreógrafa Janet Rothermel, da versão americana do espetáculo, se instalaram em São Paulo para supervisionar os primeiros ensaios do elenco brasileiro escolhido para a montagem. “Tudo precisava ser igual ao original, por isso a qualidade é muito alta”, observa Kiara. Nesta entrevista, as meninas que interpretam mãe e filha no musical revelam como se preparam para encarar oito apresentações semanais, os desafios para chegarem ao topo da carreira, e o que ainda falta para o teatro musical brasileiro ser equivalente ao americano.


A carreira

Para começar, algo em comum: a paixão por cantar. Nos EUA, Kiara cursou teatro musical na Faculdade de Santa Monica, foi Polly em The Threepenny Opera e Thea no primeiríssimo workshop do musical da Broadway Spring Awakening. “Eu comecei a atuar com oito anos nos EUA, onde fui criada, mas só descobri meu dom para o canto com 11 anos, depois que assisti ao Fantasma da Ópera. Fui cantando com o CD e percebi que eu levava jeito para a coisa. Comecei a fazer aula de canto, a sonhar com isso, mas era uma coisa tão distante! Com quase 15, já morando no Rio, conheci o pessoal de um musical, Banana Split, e uma das atrizes teria que deixar a peça. Me chamaram para fazer um teste e eu fui aprovada para o elenco da peça, que estava fazendo muito sucesso na época”. Indagada sobre sua idade, Kiara disfarçou, deu risada, mas não revelou. Claro que é ela bem mais jovem do que Merry Streep no filme. “Isso não interfere no resultado, mas aceitar o papel foi um grande desafio. No início tive um pouco de medo de não dar conta, pois é uma personagem mais velha do que eu, que tem uma experiência de vida que eu não tenho, uma vivência que não tenho. Então, as pessoas comprarem a ideia de que sou mãe da Sophie é um desafio diário”, diz Kiara, que, com seu currículo invejável, é considerada atualmente o nome de maior peso no teatro musical brasileiro, tendo protagonizado os mais importantes espetáculos do gênero do País. Além dos palcos, Kiara já dublou Ariel de A Pequena Sereia, a Aurora de A Bela Adormecida e a Cinderela. Já Pati Moroso é o tipo de garota-prodígio, que desde pequena se dedicou ao que mais amava: cantar e interpretar. Quem vê seu rostinho de menina nem imagina que ela já frequentou alguns dos melhores cursos de teatro musical do mundo, como o ISTA Festival (Venezuela) e o Broadway Dance Center (Nova York). “Eu morei nos Estados Unidos dos 15 dias de vida até os 10 anos e durante muito tempo estudei música, canto e dança. Balé, por exemplo, faço desde os três anos. Depois, fiz sapateado e jazz. Quando vim para o Brasil fui matriculada numa escola americana tradicional, onde a metodologia também era bem voltada para a área de música”. Antes de entrar para o elenco de Mamma Mia, Pati estava em cartaz com o musical Bark, Um latido Musical, com direção de José Possi Neto. Sobre a escolha de sua carreira, ela se diz plenamente realizada. “Quero continuar atuando e quem sabe um dia até dirigir. Mas antes pretendo voltar aos EUA e estudar ainda mais. Eu gosto muito de musical!”. Para a jovem atriz, estar ao lado de grandes nomes do teatro musical, como Kiara e Saulo Vasconcelos, tem sido um grande aprendizado. “Aprendo muito a cada dia. Eles têm a maior paciência comigo, sempre estão me dando dicas. Enfim, a equipe me abraçou como uma filha”.

Mãe, filha e três candidatos a pai, numa idílica ilha grega: o enredo de Mamma Mia encanta plateias de todo o mundo

Desafios

Cantar, interpretar e dançar, tudo ao mesmo tempo. Para Kiara, fazer teatro musical é coisa de atleta. Por isso, é preciso fôlego e muita dedicação. “Na época de ensaios, são muitas horas e é muito desgastante não só fisicamente, mas psicologicamente. Depois da estreia, dá para voltar às aulas de pilates, dança, academia”. A resistência corporal vem com o tempo. “Quando comecei, eu não era tarimbada em fazer sete apresentações por semana e vivia doente. Para completar, os diretores não gostavam das meninas que me substituíam, então tive muito problema. Agora eu tenho mais resistência física”. Pati também mergulhou de cabeça no musical e, para ela, cada apresentação é um desafio. “As músicas da Sophie são muito agudas e como ela abre o espetáculo e tem muitas cenas, a exigência é grande. Por isso, eu me dedico muito, chego cedo ao teatro, durmo cedo, me cuido. Eu não saio mais à noite, por exemplo. Preciso dormir oito horas para estar bem no dia seguinte. Durante o dia faço aula de canto com um professor americano, o Bruce Mcdonald, via skype, além de aula de coaching”, descreve. Namorados? Para a jovem atriz, nem pensar. Já Kiara assume, baixinho, que sim, namora.

O teatro musical no Brasil

Não dá para negar que o teatro musical vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil. Com a estreia de Rent em 1999, no Teatro Ópera, em São Paulo, teve início uma nova fase do renascimento dos musicais: as adaptações da Broadway. Os orçamentos generosos, auxiliados por leis de renúncia fiscal permitiram a realização de grandes montagens e aceleraram a profissionalização no setor. Atualmente muitos grupos e produtoras trazem os espetáculos para cá, sendo que algumas compram os direitos de forma mais livre, podendo adaptar como acharem melhor, e outras, como a responsável pelo Mamma Mia, compram a atração de “porteira fechada”. “Nesse caso, tudo é montado de acordo com o nível de qualidade do musical original, inclusive com aprovação dos diretores sobre todo o elenco, bailarinos, coro, etc”, explica Kiara. Mesmo com tanto sucesso – as apresentações de Mamma Mia deste ano já estão todas lotadas – ainda faltam cursos voltados para a área de musicais que possam formar, aqui no Brasil, profissionais completos. “O teatro musical envolve não só interpretação, mas canto e dança também. “Acho que aind precisamos de mais cursos voltados para o teatro musical, que foquem tanto a atuação quanto a dança e o canto. O mercado brasileiro precisa desenvolver mais o ‘ator-cantor’. Existem algumas escolas, mas são poucas”, analisa Pati.

Kiara Sasso, entre Andrezza Massei e Rachel Ripani, do elenco de Mamma Mia