O Rei do Riso

Marcelo Médici

Apesar de não se achar engraçado, não é bem assim que o público o enxerga! Cerca de 250 mil pessoas já gargalharam com a peça Cada Um com Seus Pobrema. Agora em cartaz em São Paulo com Cada Dois com Seus Pobrema, o ator Marcelo Médici atende a pedidos e leva novamente aos palcos alguns dos personagens mais queridos do público.

Por Malu Bonetto
Fotos: Sergio Carvalho

Ele é ator. Aliás, um excelente ator, já que consegue extrair do seu público um das coisas mais difíceis – o riso. Aos 43 anos – e 25 de carreira – o paulistano Marcelo Médici tem sua imagem associada a perso-nagens de humor, como o corinthiano Sanderson – que lhe rendeu o Prêmio Multishow do Bom Humor, em 1998; a apresentadora infantil Tia Penha – que não mente, fuma, detesta crianças e adora dinheiro; e a vidente Mãe Jatira – que trabalha a espiritualida-de usando referências do universo infantil. Mas, se for preciso, ele também incorpora personagens que não têm esse viés da comédia, como foi o caso do Dr. Castilho, na novela global Alto Astral. “Nunca pensei em fazer humor, sou ator de formação, fiz muitas peças que não eram comédias. Eu fazia o Sanderson nos camarins e os amigos falavam que era engraçado…”, conta Marcelo, que está de volta ao teatro com Cada Dois Com Seus Pobrema.

Marcelo Médici

Foto: Jairo Goldflus

GW: E por que esse nome?

MM: Os dois foram batizados pelo Ricardo Rathsam. Eu queria fazer um solo com os personagens que eu já tinha, estava em fase adian-tada de ensaio e, num deles, o Sanderson disse “cada um com seus pobrema” e o Ricardo na hora disse: “o título é esse!”. E para o  Dois, como o Ricardo entra em cena, fizemos esse trocadilho.

Marcelo Médici

Foto: João Caldas

GW: Na trama principal, você interpreta duas personagens muito diferentes. Qual o segredo?

MM: A peça tem um lado pessoal meu, resgato algumas coisas, é quase revisitar algumas coisas que já fiz. Estou mais velho, então fico mais cansado e sempre penso que tenho que fazer um espetáculo que consiga aproveitar sem me cansar muito, mas eu só vou piorando. Saio morto de cena, mas feliz em saber que as pessoas acham os dois tão diferentes. É normal um personagem lembrar outro porque sou eu fazendo todos. Há um trabalho corporal e expressões nos ensaios e, como as trocas precisam ser rápidas, as roupas são práticas.

GW: Podemos dizer que, depois de dez anos, você fez uma continuação de Cada Um Com Seus Pobrema?

MM: Ele não é uma continuação, é complementar. No Cada Um conto a história de um ator de teatro que vai fazer um monólogo de Hamlet, fica inseguro, desiste e aí entram meus personagens. Já no Dois é como se esse ator tivesse feito a peça, algo aconteceu e a trama desenrola. Tive a preocupação de pensar nas pessoas que não viram o outro. Mas quem assistiu ao primeiro vai perceber a trajetória desse ator, e isso tem um sabor especial, mas não há dependência nesse sentido. No Cada Um, Ricardo Rathsam dirigiu e colaborou no texto, no Cada Dois ele está em cena. Já a Paula Cohen fez assistência de direção na montagem anterior, agora assina a direção, e brinco que no terceiro ela estará em cena.

“O humor é um vício, você fica meio condicionado em fazer as pessoas darem risada…”

GW: Seus personagens estereotipados, como o Mico e o Co-rinthiano, já foram alvo de preconceito ou retaliação?

MM: Tenho sorte, nunca fui atacado por alguma pessoa que se sentiu ofendida. Adoraria que as pessoas entendessem meu texto. Por exemplo, a faxineira do teatro é uma nordestina. As pessoas poderiam questionar por que a nordestina é retratada como a moça da limpeza. Bom, eu sou filho de nordestino, meu pai e a família dele são pernambucanos, eu vivi essa batalha das pessoas que vieram para São Paulo. Ela não esta lá como vítima, eu tento levantar uma bandeira a favor deles. O Sanderson é um personagem importante, mostra um ponto de vista masculino sem cair na grosseria. Quando ele reclama que a namorada pede três refrigerantes e couvert… Poxa, quando eu fazia teatro tinha dessas coisas, não pedíamos couvert porque era cobrado a mais e pedíamos um só refrigerante e copo com gelo para durar mais. A ideia é provocar uma identificação com as pessoas. Nunca ninguém reclamou que se sentiu ofendido.

GW: Que personagens destacaria na sua carreira?

Marcelo Médici

Foto: Jairo Goldflus

MM: No começo, fazíamos uma pesquisa para saber com qual deles as pessoas se identificavam e não havia um específico. No Dois não faço a Smurfete e já tem gente reclamando. O Sanderson também não pode ficar de fora, fiz durante muito tempo no A Praça é Nossa e também faço no Vai que Cola. Com ele ganhei, em 1998, o Prêmio Multishow do Bom Humor. Acho que ele é o que mais me associam, mas o Mico foi um dos vídeos mais acessados na internet desde que estreei há 11 anos.

GW: E como descobriu o humor?

MM: Na verdade, foi sem querer. Nunca pensei em fazer humor, sou ator de formação, fiz muitas peças que não eram comédias. Eu fazia o Sanderson nos camarins e alguns amigos falavam que eu era engraçado, mas eu nem considerava, né, são amigos. Mas o humor é um vício, você fica meio condicionado em fazer as pessoas darem risada… Mas foi sem querer, algo que foi aconte-cendo e eu nem percebi.

GW: Você se acha engraçado?

MM: Sinceramente, não. Às vezes, me acho na comédia, em um personagem, mas você busca isso nos ensaios.

GW: Qual o limite do humor?

MM: Não existe. Não pode existir porque senão não vai existir humor. O público decide o que quer assistir, você não vai ao teatro para ver algo ruim, você se informa sobre a qualidade antes. Se o humor trabalhar com qualquer cerca, ele não vai existir, mas, claro, que o que não acho legal, não faço. Ninguém faz humor para ofender ninguém, se alguém está fazendo isso é para pro-vocar ou é um estilo. Acho que as pessoas deveriam se ofender com coisas mais sérias e graves, essa não é a intenção do humor. Comédia é isso, ela critica, cutuca e questiona.

GW: Planos para voltar para a TV?

MM: Em fevereiro começo a gravar a nova versão de Sassaricando, no Rio de Janeiro. Então o Cada Dois, talvez, dê uma pausa.