Sampa de A a Z

Cidadão paulistano há mais de seis décadas, o espanhol José Zaragoza – o Z da DPZ – já passou dos 80 e nada o impede de ir adiante. Trabalha todos os dias, acabou de participar da sua 69° exposição de arte e está à frente de um grupo de amigos que se encontram toda semana em seu ateliê para pintar o que Sampa representa para cada um. Enquanto isso, descobrimos, afinal, o que a cidade significa para Z

Por Lilian Anazetti Fotos Wellington Nemeth

Ele é apaixonado pelo Brasil. Diz que deve sua vida ao país. Aqui se tornou um dos maiores publicitários de todos os tempos, revelou-se um artista. Boa gente, Zaragoza gosta de papear, relembrar a época em que chegou de navio, sem rumo e com pouco dinheiro. “Saí da Espanha temendo o serviço militar em plena ditadura de Francisco Franco”, conta. No Brasil, a realidade era outra. “Quando o navio parou no Rio, fiquei bobo com a beleza das mulheres, mas tive de seguir para São Paulo, onde tinha conhecidos”. Sem saber se queria ficar, Zaragoza arrumou emprego num laboratório fotográfico e ali começaram seus primeiros contatos com o mundo publicitário. Tempos depois, juntou suas pinturas e bateu na agência Thompson. “No primeiro dia de trabalho, cheguei cedo para fazer bonito. Não tinha ninguém a não ser um rapaz que também falava com sotaque catalão. Era o Francesc Petit”, conta ele. Os dois tornaram-se amigos e montaram o estúdio Metro 3, de comunicação visual. Em 1968, os dois fundaram a DPZ com o redator Roberto Duailibi. “A gente precisava de um brasileiro para poder montar a empresa e o Duailibi era o melhor redator que conhecíamos”. A agência transformou-se numa das maiores da América Latina e aí vieram prêmios, sucesso e fortuna.

Mas esse espanhol de Alicante, criado em Barcelona, tem outras facetas. Apaixonado por desenho desde menino, fez a Escola de Belas Artes de Barcelona e hoje, aos 82 anos, contabiliza 69 exposições, entre elas três Bienais de São Paulo (63, 65 e 67) e outras tantas em Paris, Nova York, Barcelona, Madri, Roma, Lisboa, Londres, Tóquio. A mais recente, Windows, aconteceu na Galeria Canvas (SP), com obras que o pintor começou há 27 anos e resistiu em mostrar até agora. As telas foram inspiradas no medo que tomou conta dos nova-iorquinos no verão de 1985, sob a notícia de que um furacão, o Gloria, iria arrasar a cidade em três dias. “Na época eu tinha um apartamento em Tribeca. Todos protegiam os vidros das janelas grudando neles fita crepe em forma de X. Foi um pavor que dominou a todos durante um dia e uma noite em que ninguém conseguiu dormir. E, afinal, o furacão Gloria não deu as caras, mas continuei trabalhando nas obras”.

Cidade que impressiona

E trabalho é um dos hobbies preferido de Zaragoza. Além de ir para a DPZ todos os dias de manhã – ainda exerce o cargo de diretor criativo – à tarde fica em seu ateliê. Ele e um grupo de 11 artistas têm se encontrado para organizar uma exposição sobre a cidade. “Cada um vai pintar a sua São Paulo”, explica ele. “Do meu apartamento, vou pintar a vista que tenho da Paulista”. No circuito Jardins, ele não abre mão de ir a bons restaurantes. “Vou muito ao Parigi, Figueira Rubaiyat, La Tambouille e Gero. A conta não chega à minha mesa, vai direto para a agência”, diz ele, sorrindo. Além de comer bem, Zaragoza adora o roteiro cultural da cidade. “São tantas opções que, sempre que posso, estou nesse circuito. São programas indispensáveis. Recentemente assisti à peça Vermelho, com o Antonio Fagundes, e achei fantástica”. Outro projeto em andamento é um longa sobre o universo da propaganda no Brasil. “Está tudo encaminhado. Quero mostrar o pior e o melhor dia de alguns publicitários. Tem muita história boa”.

O que mais o encanta na cidade? O que ele transformaria em arte? “O que mais me impressiona ainda é a forma carinhosa como as pessoas se relacionam. Você encontra um sujeito na rua, ele bate nas suas costas, diz que está com saudade e emenda um abraço. Os meus amigos são assim e isso é uma coisa que só o brasileiro sabe fazer. Acho que foi por isso que eu nunca quis voltar para a Espanha, que me apaixonei pelo Brasil, por São Paulo. Não tenho receio em dizer que devo tudo o que conquistei a esta terra. Foi aqui que aprendi a fazer propaganda”.

 

Leia essa e outras matérias na Go’Where n° 94