Simplesmente, Nero

Queridinho do público, Alexandre Nero se prepara para subir aos palcos no show O Grande Sucesso e viver o maestro João Carlos Martins nos cinemas. Já na vida pessoal, o ator vive seu melhor papel: o de pai de Noá.

Por: Malu Bonetto

nero_1Nascido em Curitiba, Alexandre Nero ficou conhecido do grande público em 2008, ao interpretar o verdureiro Vanderlei, na novela global A Favorita, mas sua trajetória profissional começou bem antes disso. Aos 14 anos, começou a fazer aula de violão e, em 1995, foi convidado a atuar no musical Chicago. Mas foi durante a turnê do musical Os Leões, em 2006, que um produtor da Rede Globo o convidou para fazer um especial de fim de ano na emissora. De lá para cá, ele soma mais de dez novelas na emissora , entre elas Império e A Regra do Jogo. Paralelamente à televisão, Nero estreia este mês o espetáculo O Grande Sucesso e vai interpretar o pianista e maestro João Carlos Martins num longa-metragem.

GW: Muitas pessoas estão conhecendo esse seu lado agora, mas sua ligação com a música é antiga.
AN: Sim, comecei minha carreira de músico aos 19 anos, tocando em barzinhos. Tenho nove discos lançados, em solo e com grupos, além do DVD Revendo amor, com pouco uso, quase na caixa, que lancei em 2013. Aliás, minha primeira experiência como ator foi justamente num musical.

GW: Onde busca inspiração para suas composições?
AN: Tudo pode ser inspirador: o dia a dia, as coisas que eu observo. Meu trabalho é observar, como compositor e como ator, e como observador eu roubo imagens e gestos das pessoas.

GW: No dia a dia, o que você escuta?
AN: Ultimamente, tenho ouvido muita música para criança. E, por conta do filme sobre o João Carlos Martins, ouvi Bach enlouquecidamente. Pode-se dizer que minha trilha sonora mistura música clássica e canções de Bita e os Animais.

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Nero com os pais, Ibrahim e Iracema, e as irmãs Andrea e Ana

GW: Além da trilha sonora, o que mais o Noá mudou na sua vida até agora?
AN: Nesse momento, vejo que dou menos importância a algumas coisas, percebo melhor o que de fato importa. Eu tenho dito que, para mim, tem sido uma renovação de esperança no ser humano. Aquela sensação de que a gente nasce bom e vai se transformando com a passagem do tempo, sabe?

GW: Como foi a escolha do nome dele?
AN: Tínhamos pensado em um nome de menina, que seria Nina. Aí começamos a viajar em nomes de menino. Nero é negro em italiano e, como ele foi concebido em Paris, pensamos em “noir”, negro em francês. Também não queríamos colocar “h” no final, por isso acabou ficando Noá, com acento agudo e tudo mais. Gostamos da sonoridade, ficou meio indígena.

GW: Você é um pai presente, daqueles que troca fralda e acorda quando o bebê chora?
AN: Eu ando trabalhando direto nos últimos tempos, mas, dentro das possibilidades, eu tento ser presente. Mas não sou aquele cara que briga para trocar uma fralda. Esses caras que brigam pra arrumar a casa, para lavar a louça na verdade só existem nas fantasias românticas. Agora, o que for preciso fazer eu faço, sem o menor problema.

GW: Como está sendo a experiência de ser pai?
AN: Olha, tudo ainda é muito novo pra mim, mas o bacana é que está sendo muito divertido. A gente volta a brincar com coisas de criança, é quase um álibi para voltar a ser criança, mesmo!

GW: E o que você deseja para o futuro dele?
AN: Nesse mundo maluco que a gente vive, eu desejo, do fundo do meu coração, que ele consiga encontrar pessoas que o entendam. Espero que uma dessas pessoas seja eu, que eu consiga compreender o que é melhor pra ele e possa ajudá-lo, da melhor maneira possível.

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Nero nas gravações do longa-metragem sobre o maestro João Carlos Martins

GW: Acha que o bom momento pessoal está refletindo no profissional e vice-versa?
AN: Talvez seja mais fácil trabalhar quando você está num clima bom na sua vida, mas isso não quer dizer que o resultado do trabalho vai ser bom. Não vejo essa relação. Muitas vezes você faz obras-primas em um terreno super árido. Na verdade, quando mais árido o terreno, mais coisas criativas aparecem.

GW: Neste segundo semestre, você vai fazer o musical O Grande Sucesso. Como foi a escolha do repertório?
AN: Não sei se a gente pode chamar de musical. Em tese, sim. Eu diria que é um ensaio sobre o fracasso, porque ninguém é só um total sucesso ou um total fracasso. O espetáculo, que tem argumento meu e direção do Diego Fortes, conta a história de uma banda que quer fazer sucesso, mas esse é o assunto menor: o mais importante é o que vamos discutir ali. Sobre o repertório, ele foi sendo construído por todos nós, músicos e atores, com canções minhas e de outros compositores. Na verdade, não é um musical nos moldes tradicionais, queremos fazer um espetáculo experimental, mesmo.

GW: Ano que vem, você fará o papel principal do longa-metragem baseado na biografia de João Carlos Martins. Como surgiu o convite?
AN: A Paula Barreto, da LC Barreto, me faz esse convite e contou que a direção seria do Mauro Lima, que dirigiu Meu nome não é Johnny, Reis e ratos e Tim Maia. Acredito que a minha relação com a música tenha muito a ver com esse convite.

GW: Já conhecia bem a história dele?
AN: Conhecia o lado do João que a maioria dos brasileiros conhece, que é a do homem-superação, obstinado, que jamais desiste. Agora, depois de estudar a sua obra, eu acabei descobrindo o porquê do João ter se tornado uma figura tão importante na música erudita, antes mesmo dessa história incrível de superação. Ele é um dos maiores intérpretes de Bach, tanto em função da habilidade e da rapidez assustadoras que ele tem, quanto da interpretação. Ele deu à obra de Bach, que costumava ser tocada de forma extremamente técnica pelos músicos europeus, uma carga de emoção, uma coisa brasileira mesmo, que foi o seu grande diferencial.

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Nero atuando na comédia Oizintocáveis

GW: Como está sendo a construção do personagem?
AN: A construção do personagem foi muito mais musical, já que a ideia é mostrar a relação do João com o piano, mais do que qualquer outra coisa. Para mim isso é quase natural, eu sei como é ter uma relação com um instrumento, com a música. É importante dizer que ninguém ali está tentando imitar o João – seguimos algumas características, mas a gente não dependia do tipo físico na construção do personagem, como no caso do filme do Tim Maia, por exemplo.  Mantivemos alguns aspectos, mas o filme é muito menos a imagem do João…

GW: Nesse filme, você não será um galã, como no seus últimos trabalhos. Falando nisso, como vê esse “rótulo”?
AN: Para mim essa história de galã é uma grande bobagem, uma grande brincadeira. Na verdade, isso tem muito mais a ver com o personagem que você está fazendo, com a repercussão de um trabalho, de muita coisa. Sou um cara absolutamente comum.

GW: Você se considera um homem vaidoso?
AN: Os atores são vaidosos e, além disso, vivemos em uma época de culto à vaidade. Todo mundo tem redes sociais e quem está ali é vaidoso, de alguma maneira: seja para se vender, para se posicionar, para saber o que está acontecendo com as outras pessoas. Nesse sentido todo mundo é vaidoso e isso não é necessariamente uma coisa ruim, mas é preciso ter limites. Acho que sou um vaidoso dentro de um limite de normalidade.

GW: E se acha bonito ou romântico?
AN: A beleza e o romantismo são duas idealizações criadas por nós, não há padrão certo ou errado nessas questões, tudo é muito particular. Dentro da minha perspectiva do que seja um cara bonito ou romântico, acho que sou bacana nos dois.

GW: Tem algum cuidado específico para manter a forma?
AN: Quando não estou trabalhando insanamente, sim. É muito difícil, nessa profissão, conciliar alimentação boa com exercícios físicos, porque você não tem hora para dormir, para comer, para trabalhar, não tem rotina. As pessoas têm uma visão glamourosa dessa profissão, mas, na vida real, no dia a dia, não ter uma rotina não é nada bom. Aliás, sinto muita falta das duas coisas.

GW: Você é muito ativo nas redes, se incomoda com os comentários?
AN: Na verdade eu me incomodo cada vez mais com a intolerância e as certezas das pessoas, sempre donas da verdade, e isso tem feito eu me distanciar das redes sociais nos últimos tempos.

GW: Você se expôs em relação ao momento político do Brasil, não tem medo? Está esperançoso com uma boa mudança?
AN: Como qualquer pessoa, eu tenho medo, tenho receio, sim. Acho que esse turbilhão horroroso que a gente está vivendo vai demorar para passar. Ainda vamos afundar muito nesse pensamento arcaico, reacionário que tem me assustado bastante. Mas, de alguma forma, quase que às avessas, pela primeira vez na minha vida, eu vejo que o Brasil está amadurecendo politicamente. Mesmo que fale bobagem, brasileiro está falando de política, e não só de futebol, como antigamente.


O Grande Sucesso

Teatro Vivo: Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 São Paulo/SP
Temporada: de 12/08 até 9/10