Novos bares e restaurantes revitalizam o velho centro de São Paulo

Houve um tempo em que os melhores e mais badalados restaurantes de São Paulo ficavam no centro da cidade. Essa era se encerrou, no final dos anos 70, com a decadência generalizada da região onde a Pauliceia começou. Mas uma nova onda gastronômica se irradia agora pelo marco zero da cidade, com a abertura de novos points – alguns, descoladíssimos, que atraem uma moçada que não tinha o hábito de frequentar a região. Quem diria, o centro hoje é vintage – e voltou a ser gourmet. Eis algumas de suas atrações.

Por: Celso Arnaldo Araujo

Drosophyla Madame Lili

De um modesto endereço na rua Pedro Taques, na Consolação, o exótico e transadíssimo bar de Lilian Varella agora está em novo endereço, um lindíssimo casarão tombado dos anos 20, na rua Nestor Pestana – quase em frente ao Teatro de Cultura Artística. Inteiramente restaurado, nos trinques, o Drosophyla é um espaço a ser descoberto – porque único. Só por ele, hoje vale ir ou voltar ao centro. A decoração mantém o mobiliário e o design de interiores da época – não se esqueça: anos 20 de uma São Paulo chiquérrima – com objetos e quadros irreverentes, além de relíquias e antiguidades garimpadas ao redor do mundo pela proprietária. Sim, Lilian é a própria “Madame Lili” do título. E ela caprichou em tudo. Os uniformes dos garçons são assinados por Ronaldo Fraga. No segundo andar do casarão, um terraço disputado para noites quentes. Show musicais quase todas as noites. Mas vamos aos trabalhos. Da extensa carta de drinks, Lilian/Lili destaca o setor dos “Apotecários”, que têm o tema “deixe o cocktail ser seu remédio”. São drinks com “ação restauradora”, como o Jasmineiro – vodka premium, aperol, syrup de cardamomo, água com gás, limão siciliano e chá de jasmim. Ação analgésica, digestiva, expectorante. Entre os comes, fazem sucesso, para abrir o apetite, o Francesinho (queijo camembert ao forno, com crosta de alho, cogumelo e pesto) e as Cocas (pão de trigo e cerveja coberto, por exemplo, com mussarelinhas, tomates e molho ao pesto). Pratos: o clássico strogonoff das melhores noitadas paulistanas e um magnífico Polpetone com penne.

Drosophyla
Rua Nestor Pestana, 163 – Tel.: (11) 3120-5535


Casa de Francisca

Por 10 anos, o gostoso bar musical fez fama nos Jardins. Este ano, a Casa de Francisca foi atraída pelos novos ares do centro – nas redondezas da Praça da Sé, no primeiro andar do recém-restaurado Palacete Teresa, na vizinhança da Catedral da Sé em que as ruas de pedras portuguesas só recebem pedestres. Inaugurado em 1910, o histórico edifício ficou conhecido como ‘a esquina musical de São Paulo’, por abrigar a Rádio Record, a editora Irmãos Vitale e a loja de instrumentos musicais Casa Bevilacqua. Nos Jardins, a casa só abria à noite. No seu novo/velho endereço, abre também para almoço – e tem atraído executivos do mercado financeiro e do poder judiciário, segmentos que ainda dominam a área. Kátia Lyra – ex-Lola Bistrot – é a chef, e o sistema de serviço é bem caseiro. Não há bufê nem garçom – mas um menu executivo, que pode incluir salada, prato principal e sobremesa. O cliente encomenda seu “combo” ou só o prato e pega no balcão, em clima de informalidade e convívio. O cardápio foi concebido pelo proprietário e curador Rubens Amatto para representar a mistura de culturas da cidade. Há por exemplo uma versão do baião-de-dois, com costela de porco confitada, quiabo tostado na chapa, vinagrete de abóbora e farofa com cebola, um ragu de carne com puré e – para os mais “orgânicos” – um curry de abóbora e cogumelos na chapa com arroz de castanha-de-caju. O carro-chef das sobremesas é o creme de tapioca flocada umedecido com leite de coco e finalizado com doce de leite e farofa de amendoim. À noite, o Casa de Francisca mantém sua vocação musical – com shows estrelados e um menu de drinks e comidinhas. Mas o novo endereço faz toda a diferença.

Casa de Francisca
R. Quintino Bocaiúva, 22, primeiro andar Tel.: (11) 3052-0547


La Central

No térreo do edifício Copan, revitalizado pelo estrondoso sucesso do Bar da Dona Onça, de Janaína Rueda, o La Central Restaurante y Taqueria é descontraído, com cara de bar –a carta de drinques, aliás, é assinada por Fabio la Pietra (do SubAstor) e inclui mixes da pesada, como o Mucha-lucha, à base de tequila, aperol, grapefruit e essência de pimentas. O nome da casa remete ao famoso restaurante de Lima, Peru, mas seu cardápio, na verdade, reflete a culinária tex-mex da Cidade do México, com opções como o Picadillo La Central e Tamal de camaronês (uma espécie de pamonha mexicana com camarões e abobrinha). E, claro, os famosos tacos que são uma das “razões sociais” da casa – o de carne de porco com purê de feijão é um dos mais pedidos. Ambiente descolado, sempre lotado. À noite, mais balada que restaurante.

La Central
Edificio Copan – Avenida Ipiranga 200 – Tel.: (11) 3214 5360


Esther Rooftop

Só podia ser em São Paulo: a cobertura de um dos ícones da arquitetura modernista da velha cidade, prestes a completar 80 anos no coração da Praça da República, agora abriga um restaurante que vai muito além da privilegiada vista – e atrai foodies para o faminto centro. O Edifício Esther, misto de apartamentos e escritórios, e que se mostrava em decadência antes do Rooftop, ganhou com ele uma nova aura. E isso graças ao chef e apresentador francês Olivier Anquier – que há anos comprou a cobertura para ali fazer sua residência, com a mulher Adriana Alves. No ano passado, porém, o topo do Esther ganhou nova destinação. Anquier se juntou ao irmão Pierre, ao chef Benoit Mathurin e a outros empresários para ajudar a revitalizar a região com a transformação de sua casa num bistrô de primeira linha. Desde que abriu, o Esther é uma sensação – lotado para almoço e jantar. Ir ao Esther dá bem uma ideia do que foi a Pauliceia desvairada e charmosa dos anos 30. Um pequeno elevador leva os clientes ao ponto mais alto do edifício de 11 andares. As mesas mais disputadas são as do terraço, com direito à linda vista da Praça da República, muito mais bonita do alto do que ao rés do chão. Menu predominantemente francês com toques cosmopolitas – e preços convidativos. Terrines, macias bochechas de boi cozidas por três horas em molho de mel e alecrim, um ensopado de peixes e frutos do mar thai e o brioche Esther, com sorvete de caramelo salgado e maçã caramelada. Ir ao Esther hoje é um programa obrigatório – quando nada, para ver a cidade de um ângulo a que poucos têm acesso.

Esther Rooftop
Praça da República, 80 – Tel.: (11) 3256-1009


A Casa do Porco Bar

As filas formadas à porta, sete dias por semana, no almoço e no jantar, dão uma ideia do êxito do empreendimento do chef Jefferson Rueda. Ele, com A Casa do Porco Bar, e a mulher, Janaína Rueda, com o Bar da Dona Onça, formam uma dobradinha que hoje atende cerca de 20 mil pessoas por mês – e estão entre os maiores responsáveis pela revitalização gastronômica do centro. Como o nome diz, sem metáforas, na A Casa do Porco Bar a atração é a carne suína. Os porquinhos servidos no bar-restaurante têm origem caipira, a mesma do rio-pardense Jefferson. Agora na casa própria – depois de ter sido chef de menus de respeito – ele desenvolveu receitas da “alta gastronomia popular” em ambiente descontraído. Quase tudo é feito na casa. As linguiças, as conservas, o pão, o macarrão. A preocupação com o produto também se estende aos porcos — Rueda foi de fazenda a fazenda para escolher seus produtores. Um dos carros-chefe é o porco em cinco versões e pequenas peças: leitão de leite, medalhão em bacon, barriga crocante, linguiça e codeguim, tudo envolto pela redução do caldo. Já o Porco de san zé, churrasqueado, mas bem molhadinho, vem com tutu de feijão, tartare de banana e salada de couve. Prepare-se para esperar – mas entretendo-se com uma porcopoca: pururuca temperada com especiarias. E se a paciência não for das melhores, na própria calçada da A Casa do Porco há uma janelinha onde o cliente pode se abastecer com um dos “musts” do point – um sanduba com porco assado, tomate, cebola e bastante maionese com mostarda na ciabatta. Ah, de quebra, o cliente de A Casa do Porco pode eventualmente ver a mulher de Jefferson,a festejada chef Janaina Rueda, do Bar da Dona Onça, que fica a 300 metros dali, dando uma mão ao marido.

A Casa do Porco Bar
R. Araújo, 124 – República, São Paulo – Tel.: (11) 3258-2578