Prefeito 24h

Um regime de trabalho impressionante, que se inicia às primeiras horas do dia e se encerra na madrugada seguinte – e não tem refresco nem nos fins de semana. Três horas de sono por noite. O jornalista João Doria está decidido a ser o melhor e prefeito que São Paulo já teve – e a fazer da cidade um polo de investimentos estrangeiros que a transformarão numa metrópole moderna e mundialmente atraente. Ele recebeu GoWhere Business às 10 da noite, na sede da Prefeitura, como se seu dia estivesse se iniciando naquele momento.

Por: Celso Arnaldo Araujo

GW: Você poderia descrever resumidamente um dia típico do prefeito João Doria?
JD: Durmo pouco – e não recomendo que as pessoas façam isso. Sempre dormi muito pouco, agora um pouco menos. Três a quatro horas por noite. Inclusive sábados e domingos, porque não temos dias de folga. Todo dia é dia de trabalho. Eu amo o que faço, faço com paixão e não tomo nenhum tipo de remédio, a não ser meu complexo vitamínico. Levanto por volta das 6 horas. Faço exercícios – exatos 12 minutos. É pouco, mas é constante. Fim de semana, 50 minutos. Saio de casa por volta de 7h15 e, normalmente, venho direto para a prefeitura. Independentemente dos compromissos externos, nunca saio daqui antes de meia noite e meia. Como, aqui mesmo, uma saladinha à noite – como já fazia no meu escritório. O que mudou em relação à vida privada é o fato de eu agora trabalhar também aos sábados e domingos.

GW: E os filhos, como é que ficam?
JD: Sofrem, tanto quanto minha esposa Bia. É claro que meus filhos, Johnny, Felipe e Carolina, gostariam de conviver com o pai. Eu tenho esse déficit familiar ampliado pelos próximos quatro anos – meu ritmo não vai mudar, não há hipótese. Entendo que estou no limite – e até meus amigos médicos me condenam por eu dormir tão pouco. E eles têm razão. Mas estou aqui para cumprir a demanda e fazer o necessário para que a cidade possa se recuperar e comandar a transformação de São Paulo.

GW: Você se diz um gestor – e um gestor administra empresas. Mas São Paulo, com 12 milhões de habitantes, e uma lista de problemas, é muito mais que um país. Por onde o gestor começa?
JD: Planejamento, estruturação, definição de prazos, boa equipe e cumprimento de tarefas. Nosso trabalho é coletivo. Tenho a força de comando e a capacidade de liderar – mas preciso de um bom time, e esse bom time está fazendo uma boa prefeitura, com índices de aprovação que representam a melhor avaliação que um prefeito já teve nos seus primeiros cem dias, na história das pesquisas.

GW: É difícil trabalhar com você?
JD: Eu diria que não é fácil. Primeiro porque trabalho muito.  Segundo, porque sou muito exigente. Gosto das coisas bem feitas. Da perfeição. Eficiência. Prazos cumpridos.

GW: Chega ao nível da obsessão?
JD: Ao nível da determinação: fazer o melhor possível, dentro do menor tempo possível.

GW: Você diria que seu maior feito, nos seus primeiros 100 dias de governo, foi o Corujão da Saúde, que zerou a fila dos exames médicos em São Paulo?
JD: Na saúde, foi. O Corujão zerou o déficit de 486 mil exames e passamos a administrar a relação cotidiana, que está sob controle: exames mais urgentes em até 30 dias, menos urgentes em até 60 dias. Agora, vem o Corujão da Cirurgia – com uma fila de 67 mil pessoas. Nossa intenção é zerá-la num período de oito meses. É mais complexo fazer cirurgia do que exame e, numa primeira etapa, vamos utilizar os hospitais públicos, estaduais e municipais.

GW: Uma das pedras de toque de sua gestão é fazer parcerias com empresas, que doam produtos para serem distribuídos aos cidadãos nos programas da prefeitura. A pergunta que não quer calar: o que elas querem em troca?
JD: Cidadania – para uma empresa-cidadã. É o que podemos oferecer a essas empresas que já ganharam muito dinheiro em São Paulo, que é o maior mercado de consumo para praticamente todas as empresas às quais solicitamos apoio solidário. É hora de devolver um pouco para a cidade e ajudá-la a se recuperar – para voltar a ser um polo de consumo de produtos e serviços.

GW: Das doações que você recebeu até hoje, qual a mais significativa?
JD: A que vamos anunciar na semana que vem na área de tecnologia e educação. Em junho completaremos 650 milhões de reais em doações. São 200 milhões de dólares – já superando o que o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, recebeu em 12 anos de mandato.

GW: Você convoca os empresários para virem à prefeitura?
JD: Todo dia. Até hoje não recebi nenhum não. Pode haver ponderações, mas negativas ainda não. Acabamos de entregar à Guarda Civil Metropolitana 10 novas motos Honda. Outras 40 para a CET. Aliás, instituímos semana passada o Drone Pol – a primeira polícia da América Latina a fazer controle com drones, doados por fabricantes chineses.

GW: Você já foi ao Oriente Médio duas vezes, bem como à Coreia e à Europa, em busca de investidores. O que São Paulo tem para vender aos investidores?
JD: É uma megametrópole global, com 12 milhões de habitantes em seu núcleo urbano, 20 milhões na região metropolitana. É o maior polo de consumo da América Latina, terceira maior capital do mundo; a maior população nordestina, sulista e nortista está aqui, a maior população de estrangeiros está aqui, a maior cidade japonesa fora do Japão, a maior cidade italiana fora da Itália e portuguesa fora de Portugal.

GW: Mas o que mais atrairia um investidor estrangeiro?
JD: Mercado de consumo com enorme potencialidade de crescimento. Construção civil, por exemplo. São Paulo ainda está num estágio muito pequeno, comparada a outras grandes ca-pitais do mundo – ainda não teve a ousadia de erguer edifícios maiores para abrigar complexos de skylines que façam jus à dimensão da cidade.

GW: Uma estimativa de investimentos na cidade em seus quatro anos?
JD: Só nos programas de privatização, nossa expectativa é de 7 bilhões de reais. No mínimo. Interlagos e Anhembi serão os leilões mais robustos. Mas o Bilhete Único também será privatizado – e representará um ingresso substancial. São oito milhões de usuários. Qualquer coisa multiplicada por oito milhões é uma fortuna.

GW: Falando em fortuna, você é um homem rico?
JD: Sou. Fruto de meus 45 anos de trabalho.

GW: Um selfmade m`an típico?
JD: Do meu pai herdei o que ele pôde oferecer de melhor, a mim e a meus irmãos: caráter e dignidade. O resto foi trabalho, trabalho, trabalho.

GW: Essa fortuna vai permitir que você abra mão de seu salário pagar suas próprias despesas como prefeito?
JD: Sim, serão 52 salários ao longo de quatro anos, doados mês a mês a entidades do terceiro setor. Posso fazer e estou fazendo. Minha inspiração para isso foi Michael Bloomberg, que abriu mão de seu salário quando prefeito de Nova York. Carro, uso o meu – com motorista da prefeitura, por razões de segurança. Viagens internacionais, pago do meu bolso. Em trajetos mais curtos, vou com meu avião, com tudo pago por mim. Em viagens mais longas, pago minha passagem, não peço diária e não uso cartão corporativo oficial nem verba de representação.

GW: Você pode assegurar que em seus quatro anos não haverá nenhum caso de corrupção na prefeitura?
JD: Espero que não. Para isso, montei um time de gente honesta e decente. E temos uma boa procuradoria, que tem a responsabilidade de zelar pela transparência do dinheiro público na prefeitura. Tenho convicção de que essa zeladoria de honestidade será sempre preservada. Se alguém cometer alguma regularidade, será punido.

GW: Não adianta eu te perguntar se será candidato a presidente em 2018 que você vai dizer que não. Mas, para não perder o hábito: você será candidato a presidente?
JD: O que digo sempre é que não faço gestão para ser candidato, mas para ser prefeito eficiente. É a melhor contribuição que eu posso dar à democracia brasileira.

GW: Mas você tem consciência de que o prefeito João Doria, com apenas 120 dias de governo, é uma avis rara na política brasileira – praticamente o único sem denúncias…
JD: Agradeço essa deferência, mas insisto: fui eleito para ser prefeito, ser eficiente e transformador. Esse é meu foco integral.

GW: Uma crítica minha como paulistano: não vi ainda nenhum programa específico para o centro da cidade, onde está encravada a Prefeitura de São Paulo. Para chegar até aqui, passamos por uma área assustadora…
JD: Vai mudar. A revitalização urbana do centro de São Paulo será conduzida pelo maior arquiteto urbanista do país, Jaime Lerner – anuncio isto em primeira mão. O peso e a credibilidade de Lerner vão ajudar no processo de recuperação de todo o centro da cidade. E vamos incrementar os programas para a população em situação de rua – como o Espaço Vida, o Trabalho Novo, etc. Gradual e rapidamente vamos acolher essas pessoas em espaços onde serão preparadas e treinadas para trabalhar.

GW: E a cracolândia, uma área que envergonha a cidade?
JD: Para a região, temos um projeto chamado Redenção, que será colocado em prática brevemente, para acolher os psicodependentes de crack e prender os traficantes em seu shopping center de drogas a céu aberto. (Nota: no dia 21 de maio, uma operação conjunta das polícias Civil e Militar e de agentes de políticas sociais da Prefeitura e do Governo do Estado, prendeu traficantes e desalojou dependentes. “A cracolândia acabou”, anunciou o prefeito Doria)

GW: É verdade que você leva uma garrafa pet de guaraná quente para servir aos que falam bobagens nas reuniões com secretários? É fato ou meme?
JD: Fato. As reuniões têm que ter bom humor. Além de oferecer vitaminas, sempre trago um mimo, uma brincadeira, para os secretários. Há a eleição do Secretário do mês, que ganha um bom relógio…

GW: Um Patek Philippe?
JD: Um bom relógio, para lembrar sempre que há prazos para cumprir e horário para chegar. Uma simbologia. E quem fala bobagem deve tomar um guaranazinho quente para se lembrar de que, nessas horas, é melhor ficar de boca calada. Todos dão muita risada.

GW: Você reconheceu que ter pintado de cinza os grafites da Avenida 23 de Maio foi um erro…
JD: Erramos na forma da comunicação com os grafiteiros, não na decisão. Os muros da 23 que estavam mutilados por pichadores, inclusive os grafites, foram inutilizados completamente. Há outros preservados. E no lugar do cinza vem o verde. Teremos ali o maior corretor verde da América Latina, quem sabe do mundo. Na hora em que ficar pronto, vai ser uma beleza. Cem por cento com doações.

GW: Se você não concorrer ao governo do estado ou à Presidência em 2018 e cumprir integralmente seu mandato de prefeito até 2020, você só poderá concorrer de novo em 2022. Nesses dois anos, você voltaria para suas empresas?
JD: Meu único foco neste momento é ser prefeito na cidade de São Paulo, ser inovador, transformador, ser correto, honesto e um representante da esperança. Espero que uma gestão diferenciada, como a que estamos fazendo em São Paulo, leve as pessoas a compreender que é possível fazer algo melhor pelo Brasil, algo mais inovador, que encha as pessoas de orgulho. Espero, ao término de meu mandato, poder olhar nos olhos de meus filhos e de minha esposa e dizer: valeu a pena.

GW: Como empresário, você era mais diplomático. Agora, diz tudo à queima-roupa, sem papas na língua – como quando respondeu a Lula mostrando sua carteira de trabalho. Prefeito tem que ser assim?
JD: Minhas respostas não são agressivas, mas definitivas. Quando se tem a responsabilidade de comandar a maior cidade do País, é preciso ser altivo. Mas não perco a educação, nem a diplomacia.

GW: O Brasil tem futuro, depois do Temergate?
JD: Prefiro falar do futuro do Brasil. O Brasil não acabou, nem vai acabar. Se há um especialista em crises, é o Brasil. Povo resiliente, estruturas sólidas, o Brasil superará esta crise e caminhará para o crescimento econômico e social.

GW: Cortar impostos, nem pensar….
JD: Nem aumentar. Mas nossas despesas estão sendo estritamente controladas. Aliás, é hora de desligar o ar-condicionado (o prefeito aponta o controle remoto para o aparelho na parede e corta ar na sala anexa a seu gabinete, onde estamos). Aliás, temos um “guardião da economia” para cada secretaria. Ele cuida da economia de combustível, luz, água, xerox, telefones, preservação de mobiliário. Só a economia de automóvel, ao longo de 12 meses, está estimada em 100 milhões de reais. Cortamos 30%de cargos comissionados.

GW: Você não trouxe os seus para o lugar deles?
JD: Não. Não tenho séquito. Tenho equipe – e sem filiação partidária. Aqui a palavra é eficiência – não partido ou ideologia.