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A hora do brigadeiro gourmet

Conversamos com três especialistas no doce que vem sendo o maior sucesso do momento para tentar descobrir: qual é o segredo do brigadeiro gourmet?

por Juliana Marchioretto

Maria Brigadeiro – a pioneira

Ela é uma fã incondicional de brigadeiro e afirma isso com o maior orgulho. Juliana Motter, dona da Maria Brigadeiro, criou o conceito de brigadeiro gourmet e fez o doce de festa de criança crescer e aparecer. Formada em jornalismo e gastronomia, ela aprendeu a fazer brigadeiro com a avó doceira, aos 6 anos. De lá pra cá, não parou de inventar receitas e mudar a fórmula do brigadeiro, que, até então, parecia imutável. “Eu sempre tive essa inquietação com relação ao brigadeiro ser um doce subvalorizado, consumido só em festa de criança. Eu queria crescer, mas queria que o brigadeiro continuasse sendo o meu doce favorito, então fui fazendo ajustes na receita”.

A Maria Brigadeiro surgiu meio assim, sem perceber. O nome veio do apelido que Juliana ganhou na infância, pela mania de presentear os amigos com o doce. Quando as experimentações na receita foram sendo conhecidas, no boca a boca, ela não teve mais como conciliar e largou a carreira de jornalista. Estava formada a Maria Brigadeiro.

Empenhada em difundir o conceito de brigadeiro gourmet, a dona da Maria Brigadeiro confessa que as pessoas ainda não sabem exatamente o que isso significa, mas explica que criou uma série de inovações – variedade de sabores, embalagens elaboradas, ingredientes diferenciados e fabricação no dia e na hora do consumo – que garantem ao brigadeiro o status de gourmet, como, afirma ela, ele merece, por ser o mais brasileiro dos doces.

A Maria Brigadeiro tem uma só loja, que fica no mesmo espaço onde o atelier funciona. Todos os brigadeiros são feitos no dia e enrolados na hora em que o cliente faz o pedido. A equipe de 40 pessoas – 20 só na produção – se desdobra para fazer tudo funcionar a contento. Juliana explica que treina pessoalmente todos os funcionários e que cada um tem uma especialidade: massa, confeito, enrolar o brigadeiro… Uma verdadeira linha de produção funcionando a todo vapor, para quem quiser ver.

A expansão está nos planos, mas, antes disso, ela quer se certificar de que a qualidade que consagrou a Maria Brigadeiro não vai se perder : “A gente recebe varias propostas de investidores, mas eu me vejo falando não pra tudo, porque a gente escolheu fazer o brigadeiro com qualidade. O dia que eu achar que posso abrir 10 lojas e conseguir exatamente essa qualidade nas 10 lojas, eu vou ficar tranquila e expandir”, revela.

Além de criadora de delícias, Juliana é uma reconhecida lançadora de tendências, tanto com os brigadeiros quanto com as embalagens, copiadas aos milhares por aí. Ela conta que percebeu isso quando soube, assustada, que as panelinhas para brigadeiro, que ela criou sob encomenda para uma cliente que ia fazer um chá de panela, ganhou indústria própria. Juliana contou, também, que os novos sabores de brigadeiro quase sempre surgem por acaso, com alguma mistura feita sem querer, e que dão certo, por que as pessoas experimentam e gostam. “O brigadeiro de especiarias indianas, por exemplo, eu inventei junto com a marmita, porque a marmita que eu peguei pra colocar os brigadeiros era uma marmita que eu colocava masala. Quando comeram o brigadeiro, repararam que ficou o sabor das especiarias, e que ficou bom, porque o gosto impregnou. Foi assim que surgiu o brigadeiro de masala”. Nada mais despretensioso e autoral, como tudo que a Maria Brigadeiro produz.

Brigaderia – tino para o negócio

A vida da mineira  Taciana Kalili  deu uma guinada gigantesca por causa do brigadeiro. Recém-casada e de mudança pra São Paulo, ela estava tentando encontrar um emprego na sua área – estamparia de moda – na capital paulista. Vendo as muitas dificuldades, ela pensou em fazer algo diferente na nova fase da vida, mas ainda não sabia o que. Tudo aconteceu em uma festa que ela fez pro marido, um fã ardoroso do doce. Para agradá-lo, ela fez cerca de 30 tipos diferentes de brigadeiro, o que foi um sucesso absoluto – com ele e com os convidados, que não pararam mais de fazer encomendas para Taciana. Surgia, assim, a Brigaderia.

A paixão da mineira pelo doce e a ótima visão de mercado fizeram a marca crescer vertiginosamente. Em dois anos, a Brigaderia já tem 9 lojas próprias em shoppings da capital paulista e uma a ser inaugurada, agora em maio, no Rio de Janeiro, onde, segundo a própria Taciana, o negócio tem tudo pra dar certo, já que os cariocas são apaixonados por brigadeiro, ainda mais que os paulistas e os mineiros.

Segundo a dona da Brigaderia, a rede foi crescendo sem planejamento e as coisas foram acontecendo por acaso. Sem espaço em casa para dar conta de tanta encomenda, ela resolveu que queria ter uma loja de shopping. A ideia deu certo e depois de seis meses de experiência na primeira loja, no Market Place, a coisa não parou mais de crescer: “Fui procurada por um grupo que administrava shoppings e fechei uma parceria”. De quebra, o marido se tornou seu sócio e passou a cuidar das contas da rede.

Tanto crescimento fez Taciana abrir uma fábrica de brigadeiros. Como a primeira, de 400 m², ficou apertada para tanta produção, a segunda, de quase 1.000 m² está sendo preparada para assumir a preparação dos brigadeiros, que são distribuídos diariamente para as lojas. O que não for vendido no dia é distribuído a uma ONG. “Os funcionários também tem uma cota, mas é pouco, por indicação da nossa nutricionista, porque tem gente que acaba engordando mesmo”.

Além dos mais de 30 tipos de brigadeiros, a decoração e as embalagens da Brigaderia são um show à parte. Como trabalhava com moda, Taciana explica que não tem dificuldade para criar e conta com uma ajuda poderosa: uma ONG criada por ela, que ajuda ex-dependentes químicos em sua cidade natal, Pouso Alegre (MG). No início, era a mãe dela que produzia as caixinhas de madeira forradas com tecido (o hit da loja), mas, com a expansão da rede, ela teve de terceirizar o serviço, e aproveitou para ajudar quem precisa, de lambuja.

Os planos para o futuro são grandiosos: pelo menos 20 lojas próprias, crescimento pelo Brasil afora, vários tipos de doces – baseados em brigadeiro, pra não esquecer a origem – e uma Brigaderia cada vez maior. Pelo ritmo em que a coisa anda, quem é capaz de duvidar que Taciana vai comemorar tudo isso muito em breve?

Nina Brigadeiro – internet e encomendas

Atendimento bem feito e personalizado e brigadeiros saborosos e feitos com todo o cuidado. Essa é a receita da Nina Brigadeiro, um ateliê que trabalha apenas com encomendas e está há um ano e meio no mercado, conquistando clientes com o requinte dos brigadeiros gourmet.

Tudo começou por acaso. Para satisfazer uma amiga grávida, a chef Leda Maria Zanini, que na época era uma recém-formada em gastronomia, resolveu fazer uma receita de brigadeiro de limão siciliano. Empolgada com a experiência, fez também brigadeiro tradicional e distribuiu para as amigas, que adoraram. “Como só cuidava da casa, resolvi testar outras receitas, mas nenhuma delas retirei da internet, enfiei a cara no fogão. Comprei uma caixa com 48 latas de leite condensado, boa parte delas estragou no teste, mas as que deram certo, distribui para amigos e familiares. Os elogios foram tantos que, além das encomendas que foram surgindo, resolvi concretizar a profissão”, conta Leda.

Feliz com a nova ocupação, a chef começou a pesquisa de fornecedores e montou o atelier. A ideia do nome surgiu de um apelido – Nina – pelo qual o marido a chamava. Estava formada, assim, a Nina Brigadeiro, que conta com uma equipe de 5 pessoas, entre ajudantes, estagiária e entregador. Para se preparar para o negócio, Leda diz que fez pesquisas na internet, visitou várias lojas especializadas no doce e provou muito brigadeiro.

“Analiso o que é tendência e a preferência das pessoas. Hoje possuo um cardápio com 26 sabores, e quando introduzo um novo, procuro substituir. Vejo por aí brigaderias com 40, 50, 60 sabores de brigadeiro. De creme bruleé a brigadeiro com pó de ouro. No meu modo de ver, é inviável e não tem saída. Meus clientes adoram as minhas opções e me elogiam muito”, conta a doceira. Cerca de 70% das vendas da Nina Brigadeiro acontecem por intermédio da internet. “Vendo mais por e-mail. Em 70% das minhas encomendas, não falo sequer uma vez com o cliente por telefone. Periodicamente publico meu trabalho em sites de busca e redes sociais. Posso afirmar que 90% dos clientes provém da internet”, explica. Vai uma encomenda de brigadeiro aí?

 

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