O sucesso fenomenal do Paris 6 chega a Miami

É tentador dizer que Isaac Azar foi tentar a sorte em Miami. Mas seria apenas um trocadilho meio óbvio. Porque o sucesso do criador da hoje milionária marca Paris 6, que agora conquista Miami Beach, nunca dependeu do fator que se antagoniza com seu sobrenome. Foi tudo muito bem planejado – e ousadamente executado. Esse início da expansão internacional do fenômeno Paris 6 exigiu de Isaac seu passo mais arrojado – mudar-se para a Flórida, com a família. Enquanto isso, no Brasil, a grife se expande 24 horas por dia. Já são oito casas – as três de São Paulo na mesma rua. Juntas, elas serviram quase um milhão de pessoas no ano passado. Agora, a América de Trump tem um novo distrito gastronômico: Paris 6.

Por: Celso Arnaldo Araujo

A Collins Avenue, paralela à Ocean Drive, é o ponto mais badalado de Miami Beach – a faixa litorânea de Miami. O “Péris six”, como dizem os americanos, está no número 2200, em frente ao luxuriante W Hotel. As portas estão abertas até “late night”, para tentar reproduzir o fenômeno brasileiro. Isaac é o primeiro a reconhecer que o “Péris six” ainda não chegou lá. “Nosso projeto é fazer do Paris 6 uma marca forte também no exterior, começando por Miami. Mas os Estados Unidos têm uma cultura gastronômica diferente, vai levar algum tempo”. Com o epíteto de “vintage bistro”, a casa se apresentou aos americanos em outubro e, desde então, vem impondo sua proposta – numa região de Miami notabilizada por seu clima de balada hipster. Num país onde normalmente as pessoas chegam para jantar às 18 horas, é esse público o mais sensível ao apelo da proposta “late night” da casa. E 50% da clientela é de… brasileiros. Aos poucos, o Paris 6 Miami vai pegando. Aos sábados à noite já há filas na calçada da Collins. “Estamos trabalhando com cuidado. A comida é deliciosa, o ambiente é charmoso, é muito difícil não dar certo”, raciocina Isaac, com seu otimismo habitual. Não é um empreendedor infalível – outras iniciativas suas, quando o Paris 6 ainda engatinhava, não foram à frente, como o Azãit e o St.Tropez de Todos os Santos. Mas o Paris se consolidou. E agora, aos 10 anos recém-completados do Paris 6, Isaac já pôde se dar ao luxo de deixar a matriz brasileira aos cuidados de seus sócios e CEOs, José Edgard Bueno e Michel Vigano. Para viabilizar a casa de Miami, Isaac se associou à apresentadora Marília Gabriela, ao ator Murilo Rosa e ao jogador de futebol Ricardo Goulart. O artista Romero Britto, que mora em Miami, é parceiro permanente. Aliás, show business e futebol sempre fizeram tabelinha por trás do fenômeno Paris 6 – e não é diferente na filial de Miami. Na primeira página do novo menu da casa, estreado em 16 de dezembro de 2016, Isaac aparece em duas fotos, ao lado de Neymar e Daniel Alves, que frequentam o Paris quando estão no Brasil. O Paris 6 Miami Beach abriu suas portas com um menu de pratos “anônimos”, sem a associação com famosos que se tornou um dos grandes apelos do cardápio paulistano. Mas esse novo menu já tem a cara “galeria de famosos”. Para justificar a presença de nomes brasileiros completamente desconhecidos dos americanos e turistas, ao lado de cada prato, Isaac escreveu no menu – em inglês – uma espécie de carta de intenções: “Nosso Grand Menu ganhou vida graças à generosidade das mentes mais criativas que tive o privilégio de conhecer. Muitos são bons amigos e membros do universo artístico brasileiro – pessoas com quem tive a chance de dividir ideias sobre o Conceito Paris 6. As próximas páginas são dedicadas a eles”.

E, entre esses amigos, os clientes do Paris 6 Miami poderão escolher, como entrada, o “Ground Beef Croquettes a Ellen Roche” ou o “Tartare de Saumon Canapés a Regina Duarte”, além do “Filet Mignon Apéritif a Fafy Siqueira”. Sopas? Tem o “Gratinée des Halles (sopa de cebola) a Antonio Fagundes” e, das saladas, a “Caesar Salad a Miguel Falabella”. Entre as receitas de peixe e frutos do mar, “Filet de Corvina with Lemon Risotto a Carol Castro” e o famoso “Crevettes au Riz Provencal hommage a Bruno Gagliasso” – o primeiro prato a ser batizado no menu paulistano. Gagliasso chegou a ser sócio do Paris 6 Rio. A casa de São Paulo tinha um ano quando o ator, que estava fazendo a peça Um certo Van Gogh, foi apresentado a Isaac – que foi assistir ao espetáculo. “Sou fã de Van Gogh e também pinto. Disse ao Bruno que queria ajudar a divulgar o espetáculo. O pessoal da peça teria cortesia aqui dentro. Cobri umas fotos de Paris antigas nas paredes por cenas da peça. O Bruno ficou entusias-mado e disse que agora faltava um prato com o nome dele no menu. O prato que ele mais gostava era o Crevettes à provençal”. Surgiu aí o Camarões à Bruno Gagliasso, hoje ainda o prato número 1 do Paris 6 – e a interação de Isaac e da casa com trupes de teatro. Seguindo no menu, o “Carré d´Agneau et Couscous a l´abricot a Reynaldo Gianecchini” faz sucesso entre as carnes – em Miami também.

Férias em Paris

Por que cozinha francesa de bistrô? O pai de Isaac era exportador de café e, durante as férias de verão no Brasil, ia fazer contatos na Europa, levando mulher e filhos. A França era o destino anual da família Azar. Sua mãe ficava num hotel de estação de esqui, os quatro filhos num colégio interno. Nos fins de semana, iam a restaurantes.  O algarismo 6 vem de 6° arrondissement, charmosa região parisiense, no centro da Cidade-Luz, que engloba os bairros de Saint-Germain-des-Prés e Notre-Dame-des-Champs, com uma legião de bistrôs. “Talvez por ser 24 horas, a classe artí sti ca, com horários notí vagos, abraçou a ideia. Procurei dar ao Paris 6 um clima de Paris entre 1900 e 1920, sua época cultural mais fértil. Estudei art déco, art nouveau”. Como restaurateur, Isaac nunca se contentou em servir apenas comida e bebida – mas ousadias também. E, entre elas, batizar todos os pratos do menu, das entradas às sobremesas, com nomes dos artistas que frequentam a casa. Mas, para que pudesse fazer isso, ele precisou primeiro atrair os famosos para seu restaurante. E aos artistas que gostaram do Paris 6, ele concedeu privilégio de batizar seu prato favorito – ou aquele que ajudou a criar, como é o caso do “Magret du canard a Fernanda Takai”.

Rede socialite

Em Miami, a equação é inversa. Os famosos já estão atraídos – eternizados no menu. Falta ainda o público comum, que aos poucos vai descobrindo o charmoso point brasileiro – do almoço ao filé do início da madrugada. Os críticos e chefs brasileiros que vivem falando mal do Paris 6 merecem de Isaac indiferença e, às vezes, contrapontos nas redes sociais, que Isaac utiliza com maestria: o Instagram do Paris 6 é o mais acessado entre todos os restaurantes brasileiros. No fim de janeiro, tinha 662 mil seguidores. Até um episódio que poderia depor contra a matriz da Haddock foi gerenciado com a conhecida perícia mercadológica de Isaac, mesmo à distância. A cliente que escorregou à porta do restaurante, sob chuva torrencial, e quase foi levada pela enxurrada, ganhou dele um cartão VIP cortesia para o resto da vida, em qualquer Paris 6, inclusive Miami. A cena do escorregão, aliás, teve, segundo Isaac, nove milhões de visualizações – recorde brasileiro do Facebook.

Made in USA

O projeto Miami, amadurecido por dois anos, fez Isaac levar toda a família para a Flórida, há pouco mais de um ano, instalando-se primeiro em Key Biscayne e, depois, no atual condomínio em Aventura. Ele não queria ficar no vai e volta. A primeira expansão internacional do Paris 6 justificaria seu tempo integral na cidade – ainda mais num período em que estava reivindicando seu Green Card, agora concedido. Estabeleceu para si uma rigorosa agenda nestes primeiros tempos de Paris 6 Miami. Começa o dia malhando com seu personal, Valério Santos. A manhã é de trabalho burocrático em seu home office, traçando estratégias e ações do Grupo Paris 6 no Brasil. Já com oito casas no País (três em São Paulo e filiais no Rio, Porto Alegre, Belo Horizonte, Campinas, Brasília e Goiânia, e com projetos já em andamento em Curitiba e Salvador), a ideia é abrir pelo menos cinco casas por ano. Por volta de meio dia, vai para o restaurante receber clientes do almoço. À tarde, fica por lá mesmo – agora cuidando das estratégias do Paris 6 Miami. Permanece lá para o turno do jantar – e vai para casa no início da madrugada, depois de fechar a casa. O fim de semana é com a família – a esposa Caroline e os filhos Sophie (15), Catherine (13) e Jean-Luc (3).

Ah, um detalhe: como a casa ainda não tem o frenético movimento dos Paris 6 do Brasil, Isaac tem tempo de voltar às origens – de vez em quando, veste o avental e vai para a cozinha, fazer dupla com o chef Mario Souza, importado do Brasil. Nos planos de expansão internacional, o próximo passo, provavelmente, é Portugal. E que tal um Paris 6 em Paris – de preferência no 6º arrondissement? “Por enquanto, não”. Mas, quem sabe.

Na cozinha da mãe

De uma família de judeus safaradim que precisaram sair do Egito depois da criação do Estado de Israel, Isaac começou sua vida profissional vendendo carro importado na Avenida Europa – mas já fissurado em cozinha. Sua iniciação na gastronomia foi similar à de muitos chefs: na cozinha de casa, comandada pela mãe exímia. Sua primeira atividade profissional no ramo foi a importação de azeites. Aprofundando-se no tema, ele se tomaria o primeiro brasileiro a receber o título de assaggiatiore, ou degustador oficial de azeites, concedido a super experts pela Organizzazione Nazionale Assaggiatori Olio di Oliva, associação italiana que confere a certificação.


Cinco mesas sugeridas por Isaac em Miami (depois do Paris 6)

  • Cipriani downtown
  • Zuma
  • Milos Greek Restaurant
  • Mandolin Aegean Bistro
  • Casa Tua

10 programas obrigatórios na Miami de Isaac Azar

  1. Caminhada pela Ocean Drive
  2. Caminhada ao cair da tarde pela Lincoln Road
  3. Visita à nova galeria de obras originais de Romero Britto, em frente à loja da Apple em Lincoln Road
  4. Passeio a pé pelo Bayside, em downtown
  5. Visita ao Perez Art Museum
  6. Visita ao Vizcaya Museum & Gardens
  7. Assistir a um jogo do Miami Heat no American Airlines Arena
  8. Noite na boate LIV
  9. Assistir ao show burlesque “Cést Rouge”, no Faena Theatre
  10. Passeio a pé pelo Design District, parando para tomar café no Panther Coffee