Refugiados na gastronomia

Eles deixaram seus países de origem para fugir dos horrores da guerra e encontraram no Brasil a paz e o incentivo que precisavam para recomeçar. Produzindo delícias de seus países para seus novos conterrâneos.

Por: Fernanda Dragone

Após anos sofrendo com as consequências trazidas por guerras intermináveis, principalmente no Oriente Médio, deixar esse cenário terrível foi a escolha de muitos que tiveram seus lares destruídos, seus negócios arruinados ou serem presos sem a menor justificativa – como aconteceu com um de nossos personagens. Depois de procurarem asilo em diferentes lugares da Europa, descobriram que o recomeço estava bem longe de casa, no Brasil. E na gastronomia.

Segundo os últimos levantamentos realizados pelo Conselho Nacional de Refugiados, em 2015, foram 28.670 pedidos de refúgio em território brasileiro, em meio à crise que culminou na explosão do número de imigrantes, especialmente sírios, em todo o mundo. Até 2016, nosso País já tinha acolhido quase nove mil refugiados, de 79 nacionalidades diferentes. A gastronomia foi a atividade escolhida por muitos para sustentar sua família. Através de temperos e especiarias, médicos, engenheiros e outros profissionais encontraram nas receitas de família uma nova forma de recomeçar com dignidade. E estão fazendo sucesso em diversos endereços de São Paulo.

Damascus

O estabelecimento começou vendendo doces sírios, mas, com a grande procura por parte de clientes apaixonados pela culinária árabe, há cinco meses também oferece almoço. O preparo dessas delícias não estava nos planos de Said Mourad. Na Síria, Said era ortopedista e levava uma vida tranquila até a guerra começar. Junto com seu filho Khaldoun Mourad e o genro TarikBalbke, que já era padeiro, abriram um pequeno espaço em Pinheiros. Mesmo sem falar bem o português, conquistaram o público pela simpatia e, claro, com os quitutes à base de pistache, damasco, nozes e tâmaras. Para preparar esfihas, charutos de folha de uva, kibe cru, entre outras especialidades da cozinha árabe, alguns temperos são importados da Síria. “Encontramos muita coisa aqui no Brasil, mas uma vez por mês trazemos algumas ervas e especiarias”, diz Khaldoun. Quanto a voltar para seu país de origem, a família afirma que dificilmente isso acontecerá. “Fomos muito bem recebidos aqui. O Brasil é um dos poucos lugares que realmente abrem as portas para os refugiados. Agora queremos que toda a família venha também, pois ainda tenho dois irmãos na Síria.”

Rua Conego Eugenio Leite 764 – Tel: (11) 4883-0429


Congolinária

Depois desse festival árabe de refugiados, uma novidade: um restaurante congolês. E para veganos que querem conhecer novas opções de pratos e quitutes preparados por Luambo Pitchou, como o Sambusa – salgado recheado com berinjela, cogumelos, abobrinha, tomate e tofu. Refugiado da República do Congo, Luambo quer que as pessoas conheçam sua história através de suas receitas. “Muita gente não sabe a situação difícil em que meu povo vive, e isso provoca muita descriminação. Quero que todos saibam o quanto nossa comida é gostosa.”
O food-truck da casa, localizado no FoodPark Quintal, no Itaim, oferece pratos 100% veganos, ou seja, sem nenhum derivado de carne, harmonizados com a bebida típica do Congo, o afrodisíaco Tangawisi, feito à base de gengibre e abacaxi. De sobremesa, aposte no Omomba – um doce de biomassa de banana da terra e pasta de amendoim

Rua Marinho Falcão, 55 – Tel: (11) 94376-2912


Al Janiah

O local que leva o nome de uma pequena vila da Cisjordânia conta com uma equipe de 19 palestinos e apenas três brasileiros – e virou referência entre os refugiados de diferentes partes do mundo. Nascido no Brasil, mas filho de palestinos refugiados, Hasan Zarif encontrou no Al Janiah uma maneira de ajudar a todos que chegam no Brasil em busca de uma oportunidade. “Quem chega aqui para recomeçar precisa de ajuda, por isso nossas portas estão sempre abertas para quem precisar. Acolhemos gente da Síria, do Iraque e de outras partes do Oriente que não querem mais viver em meio à guerra”, explica Hasan. Localizado na região central de São Paulo, o espaço é um mix de restaurante, bar e balada, aos fins de semana. Na carta de drinks, o sucesso da casa é o Palestina Libre, feito à base de arak, tradicional bebida árabe, com o toque brasileiro de cachaça, limão, pimenta biquinho e com o toque final do zaatar verde (tempero palestino). Entre os pratos, um dos mais pedidos é o Fatha, preparado com pão sírio picado, tahine, manteiga derretida, castanha de caju e uva passa, com o recheio escolhido pelo cliente. O local também recebe atividades culturais, como palestras – uma forma de não deixar a cultura árabe morrer.

Rua Rui Barbosa, 269 – Tel: (11) 98392-9246


TalalAl-tinawi

Após ser preso na Síria, o engenheiro TalalAl-tinawi não pensou duas vezes antes de arrumar as malas e deixar para trás todos os negócios que tinha. Encontrou no Brasil a oportunidade de recomeçar: através de um financiamento coletivo, conseguiu arrecadar o suficiente para abrir o espaço que leva seu nome, no bairro do Brooklin. Há um ano, a família abriu as portas do restaurante, que funciona em esquema de self-service. “Dizem que o brasileiro não gosta de ajudar, mas não foi o que vivi. Mais de 800 pessoas contribuíram, a maioria desconhecida”, diz Talal. Em um ambiente pequeno, mas muito aconchegante, decorado com peças árabes, os clientes encontram, entre as delicias servidas, os clássicos tabule, pasta de homus, alcachofra com ervilhas, espinafre com nozes e carne assada. Tudo preparado com receitas de família “Nós até colocamos arroz e feijão entre as opções, mas todos que vêm aqui preferem as comidas árabes”, afirma Talal, que agora só volta para seu país de origem se for para visitar.

R. das Margaridas, 59 – Tel:(11) 3360-2595


New Shawarma

Especializado no lanche feito de fatias finas de frango ou carne, assadas num espeto vertical e servidas no pão sírio com legumes, o New Shawarma, no Brás, é comandado há oito meses pelo jovem sírio Eyad Abuharb. Entre as várias lojas da região, os espetos e a música síria chamam a atenção de quem passa pelo bairro. Dono de um sorriso largo, nem parece que o chef de cozinha deixou toda sua família para trás. “Deixei pai, mãe e três irmãos na Síria. Adoraria que eles estivessem aqui”, conta. Há três anos no Brasil, Eyad já fala bem português – aliás, aprender a língua foi a primeira preocupação quando chegou aqui. “O fato de já trabalhar como cozinheiro na Síria ajudou bastante quando cheguei, mas eu sabia que precisava falar português para ganhar ainda mais espaço.” Após desentendimentos com um sócio, o chef de cozinha viu seu primeiro restaurante fechar, mas não desistiu da ideia e agora comemora o sucesso do novo estabelecimento. Para quem não conhece, vale a pena experimentar esse tipo de sanduiche enroladinho com temperos árabes, como pasta de gergelim passada no pão.

R. Barão de Ladário, 897