Renata e Silvia Vanzetto: a poderosa dupla do Marakuthai

Desde os 18 anos de idade, é Renata quem cozinha para a mãe, a decoradora Silvia Camargo – que sabe como poucas decorar um restaurante, mas não domina as panelas. Juntas, e com ajuda de outros familiares, elas montaram um império gastronômico.

Por: Celso Arnaldo Araujo

Ela tem 28 anos – e cara de menina. Mas acaba de se tornar a Sra. Renata Vanzett o Bonjardim. Casou-se simbolicamente em março último, num retiro espiritual na cidade de Santa Cruz, na Califórnia, onde mora a família do noivo, o arquiteto Cassiano Bonjardim. Casados lá, ainda noivos no Brasil. A união será oficializada em dezembro, em Ilhabela, numa festa tropical pé na areia – como tem sido a vida e a carreira dessa que é uma das mais bem-sucedidas chefs de cozinha do país. Aos 18 anos, ela e a mãe abriram o Marakuthai da ilha. A cozinha que faria para amigos, de inspiração caiçara-asiática, bombou. E se tornaria o embrião de um império gastronômco familiar que hoje inclui nove empreendimentos – que ela comanda com a mãe, a ti a, a prima e outros parentes. A mãe, Silvia, é sua parceira de todas as horas e todas as áreas – menos na cozinha… Saiba por quê, neste bate-papo com as duas.

GW: Tão jovem e já tão bem-sucedida e com esse ímpeto gestor, empreendedor. Você faz o estilo João Doria?
RV: (Risos). Não. Acho que meu caso é um conjunto de fatores. O principal é uma família muito grande e junto comigo. Se eu trabalhasse sozinha, tenho certeza de que eu iria dar meus pulos e teria um restaurante. Conseguiria crescer, porque isso faz parte de mim. Mas jamais teria tudo isso. Parte de meu sucesso é da família que tenho. O outro fator, óbvio, é eu ser assim meio louca. Eu me comparo com minhas amigas e, querendo ou não, tenho algumas que ainda não sabem o que vão fazer da vida. Ou que moram em Ilhabela e são mães de quatro filhos. Sei que tenho um perfil diferenciado.

GW: Quais são suas melhores qualidades como gestora?
RV: Sou hiperativa – defeito na vida, mas qualidade nos negócios. Se eu fosse trabalhar numa empresa, meu chefe iria me amar. Sou do tipo que trabalha o dia inteiro. Tenho uma noia: tudo o que me pedem eu quero resolver na hora. Sou imediatista. Eu e minha mãe somos iguais no quesito impaciência, porque queremos criar para todas áreas. Minha mãe é igual, passa a noite em claro obcecada em resolver problemas dos outros. Somos xerox uma da outra. No campo profissional, isso é muito bom, porque produzo muito. Mas é um defeito para a minha vida pessoal.

GW: Namorar você é difícil?
RV: Sim, sou super hiperativa, não paro quieta. Essa história de ser imediatista e ansiosa atrapalha em mil coisas. Tenho insônia…

GW: Você não é do tipo carrasca com seus subordinados, é?
RV: Zero menos zero. Ao contrário, acho ridículo esse estereótipo do chef raivoso. Minha cozinha não funciona assim. Sou amiga de meus cozinheiros e do tipo que, quando termina o serviço, vai com eles no bar da esquina beber uma cerveja.

GW: E, no fim do mês, analisa o movimento do mês?
RV: Não sou um desastre com números, né, mãe? (Silvia Camargo: “Tudo o que ela fizer, ela faz bem. Ela tem muitos dons!”). Sabe o que é, mãe? Eu quero resolver tanto as coisas que acabo me envolvendo em tudo. Tenho esse lado empreendedor muito forte, além do lado cozinheira. Todo fim do mês eu sento com meus sócios e vejo folha de pagamento, etc.

GW: Algum empreendimento seu que não deu certo?
RV: O que não dá certo a gente faz dar certo. Falando sério: no começo escorregamos muito. A gente não tinha um real, montamos tudo com empréstimo de banco. O primeiro restaurante que montamos sem recorrer ao banco foi o Me Gusta. Tudo nessa vida foi a gente pegando empréstimo. Camelamos muito, né mãe? Quando viemos para São Paulo, percebi que foi muito rápido, ousado, sem preparo. Eu caí no meio de São Paulo, larguei uma vida caiçara de 20 anos, sem conhecer ninguém aqui, trabalhando de segunda a segunda, almoço e jantar. Eu me perguntava: por que fiz isso? Foi muito complicado: 500 mil reais de empréstimo no banco, sem nenhuma experiência na área financeira. Fomos roubados pelo contador e até pela melhor amiga. Eu fico chateada quando conto isso e os jornalistas não publicam – porque meu sucesso de hoje cria uma expectativa errada até entre estudantes de gastronomia. Muitos me seguem, talvez por eu ser jovem. E acham que meus pais endinheirados me financiaram para abrir um restaurante, bombamos e hoje temos nove negócios…O que a gente já chorou nesta vida por tantos problemas. Aconteceu de tudo. Sendo bem sincera, 90% das pessoas desistiriam.

GW: Mãe e filha foram em frente…
RV: Na verdade, as quatro que hoje têm participação em todos os ne-gócios: eu, minha mãe, Rejane (tia) e Aline (prima).

GW: Mas é difícil uma chef com menos de 30 anos ter esse pequeno império. Até onde você quer ir?
RV: Acho que cheguei a meu limite. Pelo menos por enquanto. Meu plano é chegar até 31 de dezembro de 2017 sem abrir absolutamente mais nada. Fiz uma promessa a mim mesma e a Deus. Agora, em 2018, eu sei que alguém vai me convencer a começar outra coisa.

GW: Há dias em que você se envolve nos nove empreendimentos?
RV: Eu brinco que trabalho pelo Whatsapp. Tenho um grupo de todas as casas, um grupo dos gerentes de Ilhabela, um grupo das sócias dos Marakuthais, dos maîtres dos restaurantes de São Paulo, dos cozinheiros, etc. Outro dia contei: são 24 grupos no Whatsapp. Falo com todos os grupos, todos os dias. Acordo, vou para o computador, entro no App e já respondo um milhão de coisas.

GW: Mas, fisicamente, qual é o tamanho de sua presença?
RV: Hoje, por exemplo, eu estava no Marakuthai Kumbukha, vim para cá (Casa Marakuthai), vou depois para o Me Gusta e para o Ema. No Me Gusta há uma reunião com todos os cozinheiros, porque temos um evento e preciso provar tudo. E à noite vou trabalhar na cozinha do Ema.

GW: O Ema é o quê? Como você o define?
RV: O Ema é o restaurante que me dá mais liberdade de criação, mudo o cardápio toda semana, crio menu-degustação com 10 etapas – é a minha identidade como chef. Já o Marakuthai é a consequência de nossa vida caiçara, em Ilhabela. É o que fez a gente, uniu ainda mais a família. Cozinha de inspiração asiática, mais acessível, maior, de segunda a segunda, almoço e jantar. O Kumbukha é uma nova linha do Marakuthai – ao completarmos 10 anos, pegamos nossos carros-chefe, os pratos mais vendidos nesse período, que são os de maior influência asiática. E fizemos um cardápio com esses pratos, em cumbuca, um jeito mais informal de servir e comer. O Me Gusta é um bar, o mais despretensioso de nossos empreendimentos, mega doidão, ambiente inacabado, música alta – e uma pegada muito forte na gastronomia. É o cardápio que mais gosto de comer. O carro-chefe é o Bun-Bah, sanduíche de frango no panko frito, avocado, muito coentro e maionese caseira picante. Um lugar muito divertido, para compartilhar.

GW: Você ainda tem necessidade de estar na cozinha?
RV: Houve uma época em que minha vida era fazer algumas matérias, reuniões diversas – e cadê a cozinha? Comecei a ficar triste. Eu tinha me transformado numa chef executiva, e não é o que eu quero. Eu hoje me obrigo a estar na cozinha do Ema. As demais cozinhas eu vivencio – conferindo ingredientes, por exemplo. Mas não estou lá de avental soltando os pratos.

GW: Você certamente acompanha essa onda gastronômica, com dezenas de programas de TV. Alguma coisa te incomoda nisso?
RV: A gastronomia molecular. Só vejo nego querendo fazer espuma. Gosto muito de comer. Amo. Gosto de restaurantes modernos, curto experiências – mas também curto comida boa. Quando o menu “viaja muito”, não gosto. E não volto.

GW: Sua única experiência na TV, o Cozinheiros em Ação, foi legal?
RV: Foi legal, mas estressante. Em dia de gravação, acordava às 5 da manhã para começar a gravar às 7. E ia até a noite. Quase pirei.

GW: Para mudar o menu de alguma casa, onde você vai buscar?
RV: Influência de tudo. Agora, na California, o Cassiano me levou a um restaurante de cozinha burma – que ele ama. Comi uma das melhores saladas de minha vida – e vou pôr no cardápio do Marakuthai. Ela mistura três tipos de noodle.

GW: Você se casa em dezembro. Pode-se imaginar dona de casa?
RV: Nem eu nem ele…Talvez os papéis se invertam. O Cassiano é a pessoa mais dona de casa que já conheci. Ele lava roupa, arruma a cama. Eu nunca apertei um botão de máquina de lavar, nunca segurei uma vassoura. Ele faz tudo isso. Vai ter que me ensinar a trocar fraldas.

GW: Planos para filhos?
RV: Sim, a gente quer. Mas não serei dona de casa e ele sabe disso. Saio de casa de manhã e volto de madrugada, todos os dias de minha vida. Quando eu casar e engravidar, tudo pode mudar.

GW: Qual é o prato seu que sua mãe mais gosta?
RV: Minha mãe não gosta do que eu faço. Não come curry, pimenta.
Silvia – Eu amo a comida dela. Mas sem pimenta. Quando digo prato que eu mais gosto, ela fica com raiva: abóbora. Amo um prato na abóbora que tem na Ilhabela. Divino! E ela não põe aqui em São Paulo…
RV: Eu não ponho só de raiva…É um camarão com catupiry servido na abóbora, não tem nada de Marakuthai.
Silvia – E tem o Fondue Thai, um prato lindíssimo – é um molho curry com camarões, bananas passadas no coco e cebola caramelizada. Dá para três pessoas. Aqui em São Paulo tem. A hora que o prato atravessa o salão, todo mundo pede.

GW: E o prato da sua mãe que você mais gosta, Renata…
RV: Nunca comi um prato dela, né mãe?

GW: Influência mesmo foi de sua vó Cida, não?
RV: Com ela aprendi o básico: o melhor feijão do mundo, arroz, bife, bolo, brigadeiro.

GW: A Renata já tinha uma quedinha pela cozinha ainda menina?
RV: Aos nove anos, a Renata chegou da escola contando que havia aprendido a fazer massa de macarrão na aula de culinária. Desse dia em diante, nunca mais saiu da cozinha.

GW: Lembra do primeiro prato que ela preparou?
RV: O primeiro prato foi massa feita em casa com um molho vermelho. Você participou ativamente da estreia dela numa cozinha profissional, no Marakuthai Ilhabela. Lembra desse dia?Abrimos o Marakuthai Ilhabela, eu e minha irmã, quando a Rê tinha 18 anos. Ela não queria estudar em São Paulo e achei que seria uma solução para o dom dela. Ela só pensava em cozinhar. Nos primeiros dias, ainda levávamos meio na brincadeira, não tínhamos ideia de que daria tão certo. Logo, tínhamos fila na porta!

GW: Você, reconhecidamente, não gosta e não sabe cozinhar. De onde vem essa paixão da Renata pela cozinha? Da avó?
RV: A paixão pela cozinha creio que ela herdou dos meus pais. Minha mãe ensinou muitas coisas para ela e meu pai era um cozinheiro de mão cheia. Minha sobrinha Aline, que é mais velha, também influenciou muito a Renata.

GW: Algum Dia das Mães que ficou marcado para você?
RV: No Dia das Mães ela sempre cozinha para mim e isso é uma maravilha!

GW: Como vocês se relacionam? Como define essa dupla? Os prós e os contras de cada uma…
RV: Nossa dupla se completa. Minha decoração é toda misturada. Misturo estilos e épocas. E tudo acaba se harmonizando. A culinária dela é igual. Ela garimpa ingredientes, é uma mistura de comida caiçara contemporânea e asiática. No fim, tudo se harmoniza. Minha decoração é descolada, informal, sem ostentação. Os pratos da Renata também. Fora a decoração, trabalho com a parte financeira dos restaurantes. É chato, mas necessário. No começo queria sair correndo, voltar para Ilhabela. Hoje, criei casca grossa. Se bobear, o bicho pega! Trabalhar em família é bom, mas tem momentos difíceis. Nós duas somos mulheres muito ativas, com muita opinião, por isso dividimos bem. Quase não entro na cozinha e ela também não dá muito palpite no escritório. Cada uma na sua área.

GW: Pelo que você conhece dela: até onde Renata pode chegar?
RV: Acho que o céu é o limite para ela. Renata é muito trabalhadora e tem um dom nato. Arregaça as mangas, trabalha doente, cansada. Nada a derruba! É uma guerreira apaixonada pelo o que faz. Eu a vejo um dia com um programa de TV, fazendo muito sucesso.

GW: E a Renata mãe? E você avó? Como será?
RV: A Renata adora criança. Desde menina é louca para ser mãe. Creio que será uma mãe e avó que vai fazer as crianças comerem tudo! (risos)