Tempero franco-brasileiro

Depois de 15 anos regendo as panelas do Skye, na cobertura do luxuoso Hotel Unique, o francês Emmanuel Bassoleil se lança a um novo desafio: o de temperar as noites de quarta-feira com o programa Um Dia de Chef, no Canal Food Network.

Por: Mariana Santos

Há 30 anos o francês Emmanuel Bassoleil escolheu o Brasil como residência e, desde então, espalha por aqui os sabores de uma cozinha criativa e refinada. Depois de ter seu próprio restaurante – o Roanne – por 15 anos, lançar três livros e tornar-se sócio-proprietário do bar Azucar e do Restaurante Azur (de 2000 a 2006), o chef decidiu dedicar-se apenas ao Hotel Unique – de cuja construção participou e onde permanece até hoje. “Sou responsável por todas as operações de gastronomia do Unique, que somam mais de 50 mil refeições por mês”, orgulha-se Emmanuel. Em novembro último, ele provou mais uma vez que é um especialista em fazer diferente – e levou sua autenticidade para a TV: o programa Um Dia de Chef, feito sob medida para Bassoleil, ensinará pessoas sem nenhuma familiaridade com a cozinha a preparar pratos dignos de chefs. A cada episódio, Emmanuel convida um profissional renomado para propor uma receita e mostra o passo a passo para o iniciante, que se desdobra para realizar o desafio. O programa é exibido às quartas-feiras pelo canal de TV por assinatura Food Network, especializado em gastronomia e lifestyle.

GW: Como você explica esse interesse do brasileiro pela gastronomia como entretenimento e, consequentemente, o fenômeno dos chefs que comandam programas de TV? Aliás, da geração de franceses que vieram para o Brasil no final dos anos 70 e 80, você foi um dos últimos a ganhar um programa. Por que demorou tanto?
EB: Hoje cada vez mais as pessoas se preocupam com a alimentação. Começam a cozinhar para fazer as coisas que gostam de comer e para receber os amigos em casa, que é uma nova forma de terapia, além de chique e legal. Têm apartamentos com cozinhas americanas ou com espaços gourmet para poderem receber e preparar pratos em casa. Essas são as consequências de um novo modo de vida, não só do brasileiro, mas internacionalmente também. E isso reflete no interesse das pessoas pela gastronomia como entretenimento. Para mim, não demorou: escolhi fazer no momento em que me senti prepara-do. As minhas prioridades eram outras. E a TV para mim vai ser um divertimento, além de um novo desafio, que vou encarar e apareceu no momento certo.

GW: Essa nova onda de chefs estrelas de TV traz algum problema para o exercício da profissão? A cobrança do cliente aumenta?
EB: O fenômeno dos chefs estrelas de TV traz mudanças para a profissão. Antes, um chef era famoso por ter seu próprio restaurante, conquistar estrelas no Guia Michelin e cotações nas classificações internacionais. Hoje o mais famoso é aquele que, além disso, possui mais ibope na TV e mais seguidores nas redes sociais. Essa nova versão de chefs é que mudou um pouco o cenário da gastronomia. A cobrança do cliente não aumenta, o que aumenta é a quantidade de clientes. As pessoas assistem ao chef na TV, e a imagem dele fica muito associada à de uma celebridade. Todos querem tirar fotos, frequentar o restaurante, comer a receita que você ensinou na televisão, e não vejo problema algum nisso.

GW: Com tantos programas sobre gastronomia nos últimos anos, ainda é possível manter a espontaneidade na alta cozinha?
EB: Temos duas coisas distintas: programas de gastronomia que mostram uma culinária simples e caseira e os que ensinam alta gastronomia. Uma pessoa que assiste televisão não quer ver um programa com preparações complicadas ou receitas impossíveis de reproduzir, ela quer se divertir e aprender algo para fazer em casa. Por isso, os programas de televisão ajudam a aproximar a alta gastronomia das pessoas que não necessariamente possuem acesso a ela. Meu programa ensina receitas de restaurantes consagrados que podem ser reproduzidas por pessoas que nunca cozinharam.

GW: Você faz parte de uma leva de chefs franceses pioneiros no Brasil, que chegaram aqui há mais de 20 anos, como Érick Jacquin, Claude Troisgros e Laurent Suaudeau, fazem sucesso e adotaram o país como sua pátria. Isso jamais se repetiu. O que aconteceu para que vocês conseguissem se estabelecer aqui, ao contrário dos chefs da nova geração, que vêm, fazem um trabalho e retornam à França?
EB: Cada um de nós veio para o Brasil em um momento diferente, mas nossos nomes ficaram gravados como chefs franceses que escolheram o Brasil como nacionalidade. Somos de outra geração, por isso mais conservadores, privilegiamos 0 acerto, não estamos acostumados a mudanças e gostamos de decisões seguras. A nova geração pensa em mudar sempre. Para os millennials, dois anos em um lugar já é muito tempo. Eu queria conhecer o Brasil intensamente, falar a língua, aprender a cultura, conhecer as pessoas e tudo isso leva tempo. Acho que isso é uma questão de idade, de geração, por isso outros chefs estrangeiros que passaram por aqui, sejam espanhóis, italianos ou franceses, não ficaram tanto tempo. Além disso, nós quatro [Erick, Claude, Laurent e Emmanuel] somos amigos, temos mais ou menos o mesmo perfil, uma mesma essência, com a mesma raiz. E essa raiz é que fez a gente vir, ficar e amar o Brasil como a gente ama.

GW: A nova rotina de gravações do Um Dia de Chef vai impactar seu trabalho no Skye?
EB: Não impactou. Já gravei todos os episódios e o Food Network adaptou os horários de gravação e a rotina em função da minha disponibilidade, justamente para não prejudicar meu trabalho. Eles sabem da importância do meu trabalho no Hotel Unique, e esse grande namoro que eu tenho com o programa é por causa disso, por essa liberdade de conseguir abraçar esse projeto e manter minha rotina com outros trabalhos.

GW: Você está há 15 anos no comando da cozinha do Skye. É preciso dominar um menu diferenciado para trabalhar na cozinha de um hotel cinco estrelas que recebe turistas de alto nível de exigência?
EB: São 15 anos no comando da cozinha do Skye, mas representa apenas 30% do meu trabalho no hotel. Sou responsável por todas as operações de gastronomia do Unique, que somam mais de 50 mil refeições por mês. O Skye é um produto do meu trabalho e ele possui já há 15 anos um cardápio sempre diferenciado, justamente para ser diferente dos outros hotéis e dos outros restaurantes. Eu não teria assumido a função de chef executivo do hotel se não fosse assim. Como também não teria aceitado apresentar o Um Dia de Chef se não tivesse a liberdade de formatar um programa de TV totalmente novo. Quando assumi o cargo no hotel, falei que não queria fazer as mesmas coisas que os outros chefs, restaurantes e hotéis estavam fazendo. O Skye não é um restaurante francês ou espanhol, é um restaurante onde tudo acontece. Você pode comer uma pizza e tomar um chope, como também pode comer um caviar e tomar o melhor vinho ou champanhe francês. Tem de comida brasileira a japonesa, DJ tocando, etc. Nós implantamos esse tipo de restaurante diferenciado há 15 anos, e hoje existem muitos outros, mas nenhum com uma vista maravilhosa e o nível do Skye.

GW: Como o Um Dia de Chef pretende se diferenciar dos reality shows que apostam na competição entre cozinheiros?
EB: O Um Dia de Chef é único, não é algo que já existe. Foi produzido especialmente para mim, adaptado para o público brasileiro. Não existirá uma comparação entre um programa e outro, porque ele é um programa personalizado e totalmente diferenciado. Além disso, a diferença de um reality show se faz pelos personagens, cada chef tem o seu personagem. O Claude, o Jacquin, o Fogaça, a Paola… cada um deles tem a sua personalidade. E eu tenho a minha. A forma que eu analisarei os pratos, conduzirei o programa, será minha. Dentro do programa, nós teremos formação, informação, pressão e diversão. Mas, antes de tudo, as pessoas irão aprender e se divertir ao mesmo tempo.

Um Dia de Chef
Canal Food Network Quartas-feiras, às 22h30