Teste da cachaça

Avaliamos rótulos artesanais de várias regiões e estados brasileiros.

Por: Carlos Eduardo Oliveira

Trate-a como quiser: branquinha, malvada, caninha, cangibrina, pinga… afinal, são infinitos seus epítetos. Em comum, uma verdade: poucos produtos são mais “a cara” do Brasil que a tradicional cachaça, bebida verde-amarela por excelência, não por coincidência, base da internacionalíssima Caipirinha. A boa notícia é que, em anos recentes, sua valorização surfa uma espiral ascendente.

Mais produtores, mais rótulos de ótima qualidade, presença crescente em bares voltados à coquetelaria. O momento, de fato, é especial. Em meio ao atual “frenesi” em torno da coquetelaria (com o gim na dianteira), e do boom irreversível das cervejas especiais, só para citar dois recentes efeitos da, vá lá, “moda da gastronomia” no país, a cachaça está na ordem do dia. E ocupa seu merecido espaço.

“Nos últimos, 5, 10 anos, demos um salto enorme na qualidade da cachaça, e isso está se refletindo no mercado”, analisa o especialista Zeca Meirelles, diretor-proprietário da ProDrinks, de São Paulo, uma das mais importantes escolas de coquetelaria do país. “Estamos falando de produtores já estabelecidos e novos produtores fazendo cachaça cada vez com mais uso de tecnologia de ponta nos alambiques, utilizando laboratórios de análises químicas para aumentar a qualidade do produto, tomando cuidados especiais na fermentação, tendo acesso à importação de barris novos para envelhecimento. Tudo isso está movimentando o setor, que vê aumentado o público consumidor da cachaça”, diz. Na outra ponta do processo, Meirelles concorda, estão os balcões dos bares. “O emprego da cachaça por uma nova geração de bartenders tem relação direta com esse sucesso, principalmente por desmitificar a bebida e, assim, atingir também o público feminino.”

Go’Where Gastronomia reuniu em São Paulo um time de experts para uma degustação às cegas de caninhas premium das mais diferentes latitudes e procedências – literalmente, do Rio Grande do Sul ao Pará (incluindo São Paulo, Rio, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco…), fato que por si só exemplifica a robustez do mercado da bebida atualmente. Alguns destes rótulos, premiados nacional e internacional-mente. Foram degustados trinta rótulos, 25 deles com passagem pelas mais diferentes madeiras, e mais cinco cachaças “brancas”, ou prata.

Entre lançamentos, novidades e clássicos já estabelecidos, o critério, a “nota de corte”, era uma só: serem boas cachaças. Em nenhum momento a intenção foi apontar uma Nova Ordem no segmento, ou estabelecer um novo ranking nacional. Apenas diagnosticar que a nossa “branquinha” vai bem, obrigado. De norte a sul.

O palco do encontro foi o restaurante Casa DiPaolo (ver box), que incorporou à cidade o conceito da ótima comida da Serra Gaúcha. Entre os jurados, o já citado especialista Zeca Meirelles; o jornalista J. A. Dias Lopes, decano do jornalismo de gastronomia, publisher da revista “Gosto” e colunista do site da revista “Veja”; Derivan de Souza, o conceituado “Mestre Derivan”, nacionalmente reconhecido como o pioneiro da coquetelaria no país, com vários livros publicados; Luisa Saliba, proprietária do Rota do Acarajé, ultracharmoso bar em Santa Cecília, apontado como o atual detentor da melhor carta de cachaças da Paulicéia; a sommelier carioca Carla Vidal Fernandes, igualmente connaisseur de boas caninhas – ambas, Luiza e Carla, espelham o atual empoderamento feminino na cachaça, com mais e mais experts, blogs e confrarias surgindo a todo instante. Completando o escrete de bambas, Rafael Welbert, titular das coqueteleiras do aclamado bar Balaio, grande vencedor (em 2017) da primeira edição do Concurso Nacional do Rabo de Galo (evento pioneiro idealizado, cite-se, por Mestre Derivan) – Welbert encampa perfeitamente a nova geração de bartenders interessados e comprometidos na promoção e divulgação da cachaça, incorporando-a em suas cartas de drinques autorais.

Ranking Go’Where Gastronomia de Cachaças 2018

Os resultados seguem abaixo – quanto aos rótulos que passaram por madeiras, a opção foi o foco nos top ten, os dez melhores colocados na prova, ressaltando que todos os produtores participantes produzem cachaças de alta qualidade.

Cachaças envelhecidas

  1. Wiba! Blend de Carvalho 3 Anos Premium (SP) – 93 pontos
  2. Sebastiana Carvalho 3 Anos, Porto 1 Ano (SP) – 91 pontos
  3. Pardin Ouro 3 Madeiras (MG) – 89 pontos
  4. Weber Haus Premium 7 Madeiras (RS) – 85 pontos
  5. Wiba! Senses Premium (SP) – 85 pontos
  6. Soul Sugar Cane Blend 4 Madeiras (Bar Cateto, SP) – 85 pontos
  7. Engenho São Luiz Premium Carvalho 3 Anos (SP) – 83 pontos
  8. Weber Haus Bálsamo Orgânica (RS) – 82 pontos
  9. Indiazinha Flecha Rubi (PA) – 82 pontos
  10. Sapucaia Real Extra Old (SP) – 81 pontos

Cachaças prata

  1. Quinta das Castanheiras Prata Clássica (MG) – 77 pontos
  2. Tiê Prata (SP) e Colombina Cristal (MG) – 74 pontos
  3. Indiazinha Flecha Branca (PA) – 71 pontos
  4. Bonito Prata (MG) – 46 pontos

NO CASA DIPAOLO, CLÁSSICOS ÍTALO-GAÚCHOS

Com raízes na gastronomia típica da serra do Rio Grande do Sul, de forte inspiração na imigração “oriundi”, o restaurante Casa DiPaolo trouxe à sua unidade paulistana (a 12ª segunda do tradicional grupo surgido nos anos 90 em Garibaldi/RS) não apenas as receitas de sucesso típicas da região, mas um conceito enogastronômico até então inédito na cidade: a galeteria. Inaugurada em 2017, sob o comando do restaurateur Jandir Dalberto (executivo de longa liderança emprestada ao sucesso do grupo Fogo de Chão), a casa tem como ases o famoso galeto al primo canto, a polenta frita (no ponto exímio), capeletti in brodo e massas diversas. Tudo simples e delicioso. O sistema é de preço fixo, no qual pode-se repetir à vontade.

Av. dos Bandeirantes, 1663 – Vila Olímpia – São Paulo – SP / Tel.: (11) 2478 0990
www.casadipaolo.com.br