Mr. Mayor

João Doria

Um dos mais bem-sucedidos empresários da comunicação e do marketing de São Paulo e do Brasil, e comandante de um grupo – o Lide – que faz interface direta com 80% do PIB nacional, ele agora quer emprestar aos paulistanos sua vitoriosa expertise de gestão. Vai disputar a prefeitura de São Paulo – primeiro dentro de seu partido, o PSDB; depois, se for vitorioso nessas primárias, nas urnas, em 2016. Não se incomoda quando é chamado de coxinha. “Coxinha é uma delícia”. O que se pode esperar de “Mr. Mayor” João Doria? Bem, perto dele um workaholic é um folgado. Promete fazer por São Paulo o que faz hoje por suas empresas, todos os dias: trabalhar 18 horas por dia.

Por: Celso Arnaldo Araujo
Foto: Wellington Nemeth

Estamos conversando às 10 horas da noite. E, depois que encerrarmos esta conversa, você ainda tem trabalho pela frente. Quantas horas de expediente por dia? Dezoito. Não é recomendável, mas eu gosto. São18 horas por dia, todo dia. No fim de semana, geralmente descanso um dia, normalmente no domingo. No sábado, ainda trabalho umas 12 horas. Se bem que agora, em campanha pela cidade, nem domingo descanso mais.

GW: Como é um dia típico seu?

JD: Acordo seis e meia. Uma ou duas vezes por semana – segundas-feiras, sempre – levo meus filhos Felipe e Carolina à escola, religiosamente. Nos outros dias, faço fisioterapia. E em outro dia tenho de chegar muito cedo à Band para gravar o Show Business. Um detalhe: sempre que levo meus filhos, endereço a eles uma pequena história e uma lição de vida. Chamo de lição do dia. São histórias que envolvem honestidade, companheirismo, ética, respeito aos mais velhos e às mulheres. E repito a mesma história, meses depois, para reforçar. Às 15 para oito já estou aqui no escritório. E aí vou direto até umas duas e meia da manhã seguinte, às vezes três horas. Na manhã de segunda-feira, tem reunião de diretoria que vai até uma e meia da tarde. Um rápido almoço aqui mes-mo, depois audiências, encontros, reuniões. E vou começar a responder e-mails depois de 10 da noite. Respondo todos os que recebi, até de quem não conheço. São mais de 200 por dia. Vou até meia e noite e meia nisso. Em seguida, janto uma saladinha, um beirute frugal, um suco de laranja, e vou fazer a leitura de coisas que preciso ler com um pouco mais de calma, temas mais demorados. Aí gravo respostas, mensagens, conteúdos. Felizmente moro perto. Chego em casa por volta das três da manhã. Faço 10 minutos de exercício, tomo banho, faço minha oração, meditação e durmo.

GW: A Bia não reclama?

JD: Claro, apesar de ser muito compreensiva.

GW: E os assessores que te acompanham nesse ritmo louco?

JD: Tenho uma equipe leal, predominantemente de mulheres – que não deixam nada sem acabar. Do começo ao fim. Mulheres não largam a coisa no meio – embora às vezes reclamem, com toda justiça.

GW: Descanso nunca?

JD: Só em dois períodos do ano. Entre Natal e Ano Novo e na semana de Carnaval, com a família. São mais ou menos nove dias de cada vez. Faço isso há mais de 20 anos. A última vez que eu tirei férias de verdade faz 22 anos, quando casei com a Bia. Íamos fazer um cruzeiro Vip de 22 dias. No décimo quinto dia, estávamos em Singapura e anunciamos à tripulação nosso desejo de interromper ali a viagem. O capitão recebeu a informação e veio falar comigo, preocupado. Perguntou se eu estava infeliz, se tinha sido mal tratado. Ele estranhou ver um passageiro abandonando viagem tão espetacular no meio do caminho. Eu disse ele que fomos muito bem tratados. Eu apenas não estava acostumado a descansar tanto e sentia falta do trabalho. Acho que ele não entendeu nada.

GW: Quantos eventos a Lide faz por ano?

JD: Chegamos a fazer 182 eventos em 2014. Este ano um pouco menos.

GW: Você cuida de todos, pessoalmente?

JD: Agora não mais. Só no Brasil temos 23 unidades e 27 fora do Brasil.

GW: Tem uma meta de tirar um período sabático quando chegar a uma certa idade – ou mesmo parar?

JD: Quero viver até 100 anos e trabalhando. Período sabático não está na minha alma. Quem sabe daqui a 30 anos. Um ano sem fazer nada? Nem em hipótese.

GW: Como se sente um empresário como você, consagrado pela extrema eficiência e correção, trabalhando num país governado com tanta ineficiência e corrupção?

JD: É difícil e triste. Uma economia errática, que não gera emprego nem credibilidade, mesmo num período de crescimento artificial. Hoje está mais difícil ainda, por estarmos vivendo uma economia recessiva. Um governo que hostiliza o capital e machuca o trabalhador. Inibe o empreendedorismo, pune o empresariado e não respeita os princípios de honestidade e decência, macula a imagem de um país e fere os princípios da gestão pública. Nesse patamar de vergonha, muitos desistiram do Brasil.Temos uma geração de jovens não incentivada, que não encontra prazer em construir e defender o Brasil. Esse projeto político do PT colocou o Brasil numa linha errada – e o País vai sofrer as consequências desse governo por muitos anos.

GW: Sua entrada na política é para tentar melhorar esse pano-rama?

JD: Sim. Nunca omiti minhas posições. Sou filiado ao PSDB desde o ano 2000. Minha posição é clara e republicana. Respeito as pessoas de bem – e há pessoas de bem no PT. Vale o registro. Gosto de gestão pública, fui secretário do prefeito Mario Covas, aprendi muito com ele, um homem comprometido com as causas populares de forma verdadeira. Ele faz parte de meu quarteto de modelos políticos, junto com Franco Montoro, Fernando Henrique e Geraldo Alckmin. São quatro nomes do PSDB que influenciaram minhas convicções, inclusive democráticas. Sou filho de um deputado federal cassado. E exilado pelo golpe de 64. Tenho um DNA que procuro honrar.

GW: E qual será a São Paulo do prefeito João Doria?

JD: Uma São Paulo digital, acelerando – não devagar, quase parando, como hoje. Uma São Paulo banda larga. Não a banda curta do Haddad. A cidade precisa de alguém que a modernize, que olhe São Paulo com uma dimensão cosmopolita.

João Doria

O Meeting Internacional foi um dos primeiros eventos do Grupo Lide: já na 20a edição, este ano foi em Montevidéu. Aqui, Doria entre o senador Aloysio Nunes e o deputado Fernando Capez.

GW: Ser chamado de coxinha não incomoda?

JD: Claro que não. Coxinha é uma delícia, é o aperitivo nacional, não me ofende, não.

GW: E dizer que você é uma pessoa da elite, insensível à periferia?

JD: Isso não aceito. Não posso imaginar que alguém que venha de uma área menos favorecida não seja capaz de ter uma visão da cidade como um todo. Imaginar, por exemplo, que um sindicalista não tenha essa visão ampla. Uma pessoa não pode ser desmerecida e nem desqualificada por sua origem, nem na pobreza, nem na riqueza. O que tenho feito nessas semanas em que disputo os votos dos 26 mil filiados do PSDB é tomar um banho de povo, vou à periferia toda semana. Oito, nove, 10 horas por dia debatendo com as comunidades. Num fim de semana, com trânsito bom, dá uma hora e meia de carro do centro, mas ali se aprende muito. Muitas vezes, eles têm o sofrimento e também as soluções.

GW: As pessoas sabem quem é você?

JD: Como faço TV há 25 anos, embora não na faixa popular, boa parte das pessoas já me viu, mesmo que de passagem.  A TV identifica e marca. Mas o que faz a diferença mesmo é o contato direto.

GW: As ciclovias do Haddad são a primeira coisa em que você vai mexer?

JD: Não sou contra o projeto em si – apenas defendo disciplina, planejamento e organização. A forma como elas têm sido feitas provocou uma série de erros e custos desnecessários – criando–se ciclovias onde não haverá ciclistas. Mas é um programa sustentável, que traz um código interessante para quem quer se locomover de bicicleta. Onde vamos agir muito rápido é na velocidade da cidade. São Paulo virou a cidade devagar, quase parando. Essa generalização da redução da velocidade não me convence por sua anunciada intenção da prevenção de acidentes. O ponto essencial parece ser a volúpia na arrecadação de multas. Um imposto disfarçado. Vamos reestudar isso, devolvendo a velocidade às vias expressas e fazendo campanhas de educação no trânsito pelo rádio e internet. Vamos usar sinalização inteligente. Na hora de pico, uma velocidade de 50 quilômetros por hora faz sentido. De madrugada, não faz, a não ser para multar.

GW: Há 20 anos, o Antônio Ermírio de Moraes tentou entrar na política e ficou enojado, prometendo nunca mais tentar. Você tem medo de passar pela mesma sensação?

JD: O Antônio Ermírio foi uma das pessoas que marcou minha vida, por sua dignidade e seriedade. Um homem admirável. Quando candidato ao governo do estado, sofreu muito. Foi hostilizado e ameaçado, o grupo Votorantim foi perseguido. Espero não viver essa experiência. Mas meu pavio não é curto. A ioga me ajuda muito e meu pai me ensinou a ser uma pessoa tolerante, capaz de entender a diversidade e até as posições injustas e extremadas, sem reações na mesma medida.

GW: Você não é o chefe do tipo gritão, é?

JD: Não grito. E nunca falei palavrão, nem em estádio de futebol. Sou firme e lidero, mas pelo exemplo, não pela força ou ofensa. Não fumo, não bebo. Sempre fui uma pessoa muito educada, é uma marca de meu pai.

GW: Incorpora itens de luxo em seu vestuário?

JD: Tenho a responsabilidade de estar bem apresentado. Na TV, sobretudo, as pessoas observam os menores detalhes estéticos. Mas sem obsessão. Eu me visto com Ricardo Almeida –  Armani brasileiro com preços em real.

GW: O Carlos Wizard, que ficou bilionário vendendo sua escola, disse a GoWhere que só tem três luxos: só viaja de Pri-meira Classe, se hospeda no melhor hotel da cidade e não confere nota em restaurante. Quais são seus luxos?

JD: Eu confiro conta (risos). Se você não tiver um tostão, não vai fazer um milhão.

GW: Já se sente chamado de “prefeito João Doria”?

JD: Jamais antecipo as coisas. É preciso ter humildade. E trabalhar, trabalhar, trabalhar.

GW: E se perder?

JD: Faz parte. Eleição é como um jogo de futebol – aliás, meu único hobby é jogar e assistir futebol. Ganhar e perder sempre faz parte do jogo.