O âncora que lava a jato

Às vésperas dos 65 anos, depois de 35 anos publicando furos em suas colunas de jornal, Ricardo Eugênio Boechat está no auge de sua premiada carreira – agora como âncora da Band, em dois turnos. Seu comentário de 10 minutos na Band News FM às 7 e meia da manhã tornou-se um must em todo o Brasil – por sua língua afiada, articuladíssima e impiedosa contra políticos rasteiros. À noite, como âncora do Jornal da Band, ele é necessariamente mais contido – mas às vezes não resiste e solta a voz de improviso. Como aqui, nesta entrevista exclusiva do mais famoso âncora do País.

Por: Celso Arnaldo Araujo

GW: Por 35 anos, você foi jornalista de bastidor. Hoje, poucos âncoras no Brasil têm sua visibilidade e seu prestígio. Como se sente com essa fama?
RB: Talvez por fruto do envelhecimento e de minha vivência, não necessariamente de sabedoria ou de conhecimento, eu tenho muito menos dificuldade hoje de entender os fatos do dia a dia, e comentá-los, do que tinha para garimpar 20 notas exclusivas de bastidor. O efeito público é o reconhecimento na rua – as pessoas querem falar contigo.

GW: Como lida com os chatos, os petistas mortadela, etc?
RB: Sem problemas. Todos querem conversar – alguns com questionamentos mais veementes, mas numa boa. O chato é parte de um universo que me sustenta. Para me achar um idiota, ele tem que me ouvir. Não o trato como um inimigo.

GW: Descreva um dia típico na vida de Ricardo Boechat.
RB: Acordo às 6 horas, com a ajuda do relógio biológico do tempo da Globo, onde eu fazia o Bom dia Brasil, ainda mais cedo. Saio de casa meia hora depois, passo na banca e pego quatro jornais: Folha, Estado, O Globo e o Extra, do Rio. Chego na Band por volta das 6 e meia e vou me sentar nos jardins do pátio para dar aquela diagonal nos jornais que a gente aprende a fazer depois de 50 anos – e me fixo naquilo que vai me ocupar na rádio.

GW: Quer dizer que, ao chegar à Band, você ainda não tem seu comentário na cabeça?
RB: Não só não tenho quando chego como muitas vezes ainda não tenho quando toca a vinheta de minha entrada no ar. Procuro me fixar no panorama dessa leitura dinâmica dos jornais, ao qual somo o noticiário da véspera. Nessa planície descortinada à minha frente, procuro destacar o ângulo que ainda não foi abordado – através de perguntas, mais do que uma explicação. Não me coloco com a preocupação de ser analista de conclusões. Me motiva mais colocar perguntas para as quais não tenho respostas.

GW: Esses 10 minutos de Ricardo Boechat, às 7 e meia da manhã, são o pico de seu dia?
RB: Considerando o veículo, é o pico da emissora – e, portanto, meu. E em termos de “discurso”, também: é uma divagação de 10 a 12 minutos que vai brotando ao longo de minha conversa com o ouvinte/espectador.

GW: Com exceção de Dilma, que não tem a menor noção do que vai falar ou acabou de falar, todos temos um mecanismo que nos permite perceber uma gafe ou uma impropriedade no que acabamos de falar em público. Você também tem esses momentos?
RB: Claro. E quando é explícito, eu me retrato. Costumo dizer que não conheço outra língua que se coloque na guilhotina com tanta frequência quanto a minha… Prefiro deixar perguntas no ar do que oferecer respostas que serão necessariamente as minhas.

GW: Mas uma palavra mais forte, um “vagabundo”, um “ladrão”, não lhe traz problemas com a direção?
RB: Como toda redação, este também é um ambiente dialético em que tudo é discutido. É da natureza do que fazemos.

GW: Voltando à sua agenda. Sai da Band que horas no turno da manhã?
RB: Saio da rádio por volta de 11 horas e passo em casa para pegar o almoço que levarei para minha filha na escola. Volto para casa, almoço com minha mulher e fico lá até as 15 horas, quando minha mulher vai pegar as meninas na escola. Volto então para a Band para fechar o jornal da noite. Quando acaba o jornal, fazemos um bate-papo de avaliação na sala do (Fernando) Mitre, depois uma conversa que o editor executivo conduz com a equipe de editores, para uma avaliação pontual das matérias. Vou para casa e ainda pego as meninas se preparando para dormir. Durmo invariavelmente depois da meia noite. Para às 6 da manhã começar tudo de novo.

GW: Tem feito palestras?
RB: Palestras propriamente, não, pelo entendimento de que não domino a área academicamente, didaticamente. Não é meu perfil. Mas faço muito evento – debates, mesas-redondas, talk shows, no período entre 11 horas e 4 da tarde.

GW: Às vésperas dos 65 anos, você se considera no auge de sua carreira?
RB: Considero, a despeito de ter tido a sorte de conquistar muitos prêmios na mídia impressa, com uma famosa coluna em O Globo, e muito sucesso no Bom dia Brasil, acho que estou vivendo, neste ocaso na carreira, o momento de melhor gratificação pessoal – inclusive do ponto de vista salarial.

GW: Pensa em se aposentar?
RB: Penso em “desinserirme” um pouco. Minha geração passou boa parte da vida com a utopia do “quero uma casa no campo”. E, com o passar do tempo, percebemos que o campo acabou e nosso saco para casa no campo também. Comprei um sítio nessa ilusão há 30 e tantos anos. Não para realizar essa utopia, mas porque gostaria de desplugar e ficar um pouco à toa.

GW: Embora o Jornal da Band seja estritamente noticioso, seus comentários ácidos a uma notícia mais polêmica sempre causam impacto. É você que decide quando interromper o noticiário para opinar?
RB: Eu não me envolvo na produção do jornal – apenas no fechamento. Participo da confecção e do tom das manchetes das principais matérias da edição. Em determinada notícia, na hora me dá o estalo, me coloco no papel de quem está assistindo em casa. E reajo com meus neurônios e meus sensores. Acham que eu sou mais cerceado na TV do que no rádio. Ora, seria caricato que a mesma empresa, o mesmo patrão, exigisse ver-melho de manhã e azul à noite. Não há interferência. O maior problema é o tempo: em TV, um estouro de 10 segundos é um desastre. O jornal hoje é paginado em função de meus eventuais improvisos – de forma a ter opções de descarte.

GW: Vivemos um momento excepcional com a Operação Lava-Jato – em que um juiz interroga um ex-presidente da República na TV sobre um imóvel que ele diz que nunca teve. Onde vai parar isso?
RB: Nessa denúncia, há duas coisas – e aliás brinco que consigo irritar os dois lados da divisão histérica em que o país se en-contra. Irrito os petistas ou assemelhados quando digo que, na minha percepção pessoal, o Lula é o comandante de um grande esquema de corrupção que prevaleceu em seu período no poder. É impossível que tanto tenha sido feito sem que ele soubesse, permitisse, tolerasse e se envolvesse. Não tenho dúvida sobre quem é o Lula do ponto de vista ético e moral. Esses políticos desqualificam a política. Por outro lado, a despeito dessa con-vicção, a impressão que tenho até agora é que não há elementos probatórios, batom na cueca, flagrantes, que peguem o Lula. Na minha intuição, ele até agora só poderá ser condenado por um entendimento subjetivo do juiz baseado num conjunto de coisas. É diferente do que há contra Eduardo Cunha, Sergio Cabral e os diretores da Petrobras. Quando faço essa ponderação, o pau come também. Mas devoto tanto apoio pessoal à Lava–Jato, como cidadão, que digo que ela é o maior patrimônio da sociedade brasileira contemporânea. Nada no Brasil teve tanto potencial de mudar a cara do país, a forma de se fazer política e de governar. Por isso, ela não tem margem de erro – como a condução coercitiva do Lula e o Power Point do Dallagnol.

GW: Que manchete você gostaria de dar no Jornal da Band para se sentir mais feliz?
RB: Sinto uma angústia de ver meu Rio do jeito que está. E é um sentimento que eu projeto um pouco para o Brasil – a contradição entre o potencial e a realidade. Meu pai faleceu em 1979 sem ver fim da ditadura que ele combateu tanto. Acho que será meu caso. Eu queria ver o país serenado, tendo resolvido coisas básicas e essenciais – como nosso gigantesco fosso social. E minha angústia aumenta porque qual-quer pacto para a solução desses problemas básicos vai levar 20 anos. Por isso, minha manchete seria: “PQP, não vou ver”.

GW: Em 2014, você teve um surto depressivo quando ia começar o programa. Como foi o day after dessa crise?
RB: Aquilo veio não sei de onde e me nocauteou a poucos minutos de entrar no ar na rádio. Refugiei-me no camarim da Band, chorando convulsivamente e sem noção do que es-tava acontecendo. Se inferno existe, fiquei lá por 15 dias. E descobri que a depressão, fenômeno que muitos, inclusive eu até então, encaram como questão menor, quase como frescura, é um mal terrível. É a morte em vida. Dei sorte, porque meu caso, embora agudo, não foi dos mais graves. A crise foi cedendo aos remédios – e tomei aquelas bombas por um ano – à terapia psiquiátrica e ao apoio de minha doce Veruska. Foi f… A depressão é a doença que mais cresce no mundo – e muitas de suas vítimas pioram em silêncio, temendo o estigma. O sol ajuda muito na cura –e essa não é apenas uma figura poética.

GW: Essa delação da JBS, que faz a Odebrecht parecer um conto da carochinha, quer dizer o quê?
RB: Dizem que números não mentem. Onde se abriga a escória da sociedade brasileira? A comunidade considerada mais violenta do Rio de Janeiro é o Morro do Chapadão, na Zona Norte carioca. Ali, os traficantes exercem domínio territorial absoluto, impondo regras ao comércio, cobrando taxas, determinando toques de recolher e controlando com mão de ferro o ir e vir na área – mesmo o da PM. Ainda assim, esse poder absoluto é exercido, segundo a polícia, por um contingente com não mais de 100 criminosos – ou “apenas” 0.33% da população de 30 mil almas com endereço no local. Uma ninharia, diante das escalas vistas no Congresso, nos ministérios, no Planalto de hoje e de outrora e nos palácios estaduais. Enfim, responda aí: “Onde se abriga a escória da sociedade brasileira?”.