O grande salto de Thiago Soares

Primeiro-bailarino do Royal Ballet de Londres, o brasileiro Thiago Soares, que já passou pelas principais companhias de dança do mundo, é sucesso absoluto nos palcos. Com uma trajetória de vida espetacular, permeada por muita superação, o próximo passo do bailarino serão próximo passo do bailarino serão de retratar sua história num documentário e num longa.

Por: Malu Bonetto

Ainda muito jovem, Thiago Soares, incentivado pela família, encontrou no hip hop e, posteriormente, no balé, uma maneira de ocupar o tempo livre entre as aulas da escola que frequentava, no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Naquela época, jamais imaginaria que iria superar diversos obstáculos e se tornaria um dos principais bailarinos do mundo. Aos 21 anos, ele ingressou no corpo de dança do Balé Kirov e, já no ano seguinte, migrou para o Royal Ballet de Londres, onde se tornou – aos 23 anos – o primeiro-bailarino da companhia, posto que ocupa até hoje. Aos 36 anos, Thiago vai ser tema de um documentário, produzido por Alice Braga, para o canal HBO, sobre sua última passagem pelo Brasil, em janeiro, quando veio se apresentar nos espetáculos Roots e O Quebra–Nozes. E, no ano que vem, começam as filmagens do longa-metragem dirigido por Marcos Schechtman, que vai contar a história da vida do bailarino.

GW: Seu primeiro contato com a dança foi aos 12 anos, em um grupo de street dance. O que levou você até lá?
TS: Apesar de ter nascido em Niterói, estudava em um colégio em Vila Isabel, e minha mãe queria que eu tivesse uma atividade extra para não ficar vagando pelas ruas depois da aula. Meu irmão era amigo do Ugo Alexandre, coreógrafo do grupo Jazz de Rua, e resolvi conhecer o pessoal. Na época, eu era uma espécie de mascote, ficava assistindo aos ensaios. Com o passar dos dias, fui pedindo para treinar e logo integrei o grupo.

GW: E quando decidiu migrar para o balé?
TS: Quando eu tinha 14 anos, o Hugo me sugeriu aprimorar meus passos de street dance nas aulas de balé. Não sabia direito o que era o balé, mas resolvi seguir seu conselho. Comecei e me apaixonei. Mas só adotei a dança como profissão quando comecei a ganhar dinheiro, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aos 18 anos.

GW: Teve de enfrentar preconceito por causa da sua escolha? Aliás, ainda existe preconceito hoje em dia?
TS: Não sofri preconceito e, sinceramente, se sofri, nem senti isso. Sabemos que hoje existe preconceito com tudo e que isso aumentou muito. Mas venho de uma geração que zoação era zoação e não bullying… Quando comecei a estudar balé, meus amigos do colégio tiravam sarro, mas não vi como bullying, mesmo porque, em uma turma de 60 alunos, apenas um fazia balé, então era normal os outros acharem diferente. Claro que tinha momentos de vergonha, mas nunca me afetaram.

GW: Em pouco tempo, você foi convidado para fazer parte do elenco de espetáculos incríveis, como O Quebra-Nozes e O Lago dos Cisnes. A que atribui a rápida velocidade com que tudo aconteceu?
TS: Aos 17 anos, conquistei medalha de prata no Concurso Internacional de Ballet de Paris, ingressei no corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e logo surgiu o convite para ser protagonista de alguns espetáculos. Minha trajetória foi meio relâmpago. Entrei na dança num momento em que já tinha minhas opiniões e minha personalidade formada, então só precisava me dedicar à dança… Acho que, para mim, isso foi essencial para tudo fluir naturalmente.

GW: Aos 21 anos, você conquistou uma vaga de estágio no Balé Kirov, tornando-se o segundo estrangeiro a integrar a companhia em 100 anos de história. Qual a responsabilidade desse convite?
TS: Na época, eu era uma esponja, aceitava e assimilava tudo. Quando recebi o convite de estágio no Balé Kirov, que sempre foi referência no balé, não tinha opção de não ir! Isso era tão incrível que nem pensava na responsabilidade, focava no que queria aprender.

GW: E como foi parar no Royal Ballet de Londres?
TS: Depois do estágio no Kirov, queria uma companhia que pudesse me expressar como “Thiago” e não ser cópia de um bailarino russo. Queria ser eu mesmo, ter uma casa, me desenvolver… Fiz o pedido da audição e passei.

GW: Verdade que sugeriram que operasse o nariz para ficar com traços mais europeus?
TS: Uma pessoa querida, que sempre desejou o melhor para mim, achava que eu ia ter dificuldade em papéis aristocráticos por causa dos traços latinos. Até pensei na sugestão, mas, no fundo, uma voz me disse que, se eu tivesse que conquistar esses trabalhos, iria fazer independentemente da minha cor, meu tamanho e meu nariz largo. E consegui fazer todos os papéis sem mudar minha identidade. Eu me tornei um artista internacional em um mundo que está mudando para melhor, espero, e que tem mais aceitação.

GW: Imaginava que seria o brasileiro mais importante no mundo da dança?
TS: Confesso que nem sei se sou o mais importante… Eu me considero um artista vítima da minha arte, e se minha história é relevante para os outros, se tem importância, fico feliz, porque é para isso que trabalho. Gosto de ser elogiado, receber aplausos, lógico, mas não me vicio nisso porque estou sempre pensando no próximo trabalho.

GW: Os brasileiros estão se interessando mais pela dança?
TS: Sem dúvida. No Brasil, a dança evoluiu muito, mas ainda falta organizar os muitos talentos que temos. As escolas de dança e patrocinadores precisam se tornar o trampolim para esses artistas e coreógrafos se tornarem estrelas. Tive muita sorte em encontrar pessoas que me apoiaram e acreditaram em mim, também tive professores que falaram as coisas certas nos momentos certos.

GW: Você completou 17 anos de carreira internacional. O que viu mudar no cenário do balé nesse período?
TS: A dança evoluiu muito, o balé se inspirou na competição típica do esporte, os bailarinos estão sempre em busca de melhores giros, se aperfeiçoando e, pela evolução física, isso é muito importante.

GW: Quando jovem, em quem você se inspirava?
TS: Tive vários bailarinos de que fui e sou fã no Brasil, como o Alan Farinelli e o Rodrigo Necas. Pelo mundo, sem dúvida, Carlos Costa, com quem já dancei, Manuel Carrenho, Mikhail Baryshnikov.

GW: O que você faz nas horas vagas?
TS: No domingo, que é meu único dia de folga, fico vendo televisão com pé para cima. Preciso exercer meu lado real, meu lado Thiago, mesmo porque meu trabalho me leva para papéis de príncipe, e sinto a necessidade de me colocar no meu lugar comum.

GW: Sua história é tão inspiradora que vai virar filme. Como está a produção?
TS: O convite do diretor Marcos Schechtman surgiu depois de uma entrevista que dei ao Roberto d´Ávila. Precisei amadurecer a ideia, já que minha trajetória é muito delicada e específica, porque relata o mundo e o universo da dança, que é pouco conhecido. Estou na fase de conversar sobre o filme com o Schechtman, ainda nem sei quem vai me interpretar, mas posso adiantar que estamos conversando com um ator que conheço pessoalmente, é relativamente jovem e bem famoso no Brasil. Estamos buscando alguém que aceite o processo de aprender a dançar.

GW: Este ano você vai estrelar o documentário que mostra seu dia a dia e preparação antes do Roots e do Quebra-Nozes, que apresentou aqui no Brasil. Como surgiu a ideia?
TS: O roteirista e diretor Felipe Braga e a atriz Alice Braga queriam retratar esses bastidores. Quando somos artistas, queremos ser lembrados, no meu caso, por um passo, um movimento, e me sinto feliz e honrado de saber que, além da arte, minha vida também inspira as pessoas.

GW: A gente ainda vai te ver dançando no Brasil este ano?
TS: Farei duas apresentações no Brasil: uma em São Paulo e outra, pela primeira vez, no Paraná, com Roots, que tem um valor sentimental muito grande porque danço balé e hip hop. Mas ainda não tenho as datas fechadas.