Os 90 anos do arquiteto ícone Hugo di Pace

Ele chegou ao Brasil em 1948. E em mais de 60 anos de arquitetura foi fiel a um estilo: o estilo Ugo di Pace – único e inconfundível. Colunas etruscas podem se fundir a móveis barrocos para comporo estilo Ugo di Pace – único e inconfundível. Colunas etruscas podem se fundir a móveis barrocos para comporo ambiente das mansões que projeta e desenha nos mínimos detalhes. O resultado, invariável, é luxo e bom gosto – evidentemente, para poucos. Aos 90 anos, di Pace continua mantendo, em pessoa, o estilo de suas obras: elegante, chique, sofisticado. E ainda criando e redesenhando a vida: ao retomar um enorme imóvel na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, no qual fora um dos pioneiros da fase “rua do design”, transformou-o em nova supergaleria, que abrigará sua própria coleção, riquíssima, e mostras temporárias de outros artistas.
Ali, falou a Go Where.

Por: Celso Arnaldo Araujo

GW: 90 anos em primeiro de junho, hein?
UP: Sou de gêmeos. O que você é? Touro. Mas não sou ligado em signo. Vou dizer uma coisa pra você. O maior gênio da humanidade, que foi Leonardo, entre outras coisas foi astrólogo também. Ele achava que os astros têm influência sobre os humanos. Se você compra uma revistinha com o horóscopo dos meses, em linhas gerais você se reconhece. Dia sim, dia não, eu tinha, sentado na minha frente, um cliente que eu nunca tinha visto na vida, e a primeira coisa que eu perguntava era: que signo você é? Isso para eu regular o que eu deveria falar com o cliente.

GW: Seu andar firme, sua cabeça a mil… Você se sente um jovem de 90 anos?
UP: Realmente não tenho do que me queixar. A genética é importante. Meu irmão Vitorio, que morava em Nápoles, faleceu com 106 anos. Arquiteto, ainda trabalhava em pé. Sabe por que morreu? Pegamos um projeto em Dubai e ele contraiu uma pneumonia no avião.

GW: Alguns dizem que o fim ideal é ser morto por um marido ciumento aos 106 anos… (gargalhadas). Falando sério, a chegada dos 90 não traz um pensamento mais sombrio sobre a possibilidade de um fim?
UP: Sim, mas no melhor sentido. Feitos 90 anos, eu me perguntei: quanto tempo eu ainda tenho? Um ano, três, cinco? Seja quanto for, decidi que agora em diante vou me divertir. Por isso, para começar, peguei de volta este estúdio, para onde trouxe itens de minha importantíssima coleção pessoal – que tem coisas de Roma até arte contemporânea.

GW: Quanto valeria sua coleção a preços de mercado hoje?
UP: Não vale nada (risos). Mas a peça mais importante, na minha opinião e na do curador da coleção, Luiz Marques, que foi curador-chefe do Masp, é esta escultura pequena (mostra num livro sobre a coleção Pace), de 40 centímetros, que pode vir a ser do Bernini (Gian Lorenzo, escultor italiano do século 17). Se for, e estou em negociação há mais de 10 anos com o Museu do Vaticano, valeria uns três milhões de dólares, desde que documentada toda a trajetória da obra desde sua criação. Comprei-a há 30 anos. O trunfo do colecionador está na compra – e sobretudo na informação. Existe “um” Portinari e “o” Portinari. Eu sempre procurei “o”.

GW: Continua a fazer projetos?
UP: Estou parando. Terminando dois ou três. E pronto.

GW: Só nos Jardins há quantas mansões com a assinatura de Ugo di Pace?
UP: Quase toda rua da região tem uma casa minha. Tenho mais de 1200 obras feitas, aqui e fora. E escritórios em São Pau-lo, Miami, Nova York e Nápoles.

GW: Como era sua relação com Pietro Maria Bardi, o lendário fundador e diretor do Masp?
UP: A gente se conheceu em 1946, em Roma. Em 1947, Bardi veio para o Brasil com Lina e eu cheguei em 1948.

GW: É verdade que você veio primeiro para o Rio porque disseram que lá tinha muita mulher bonita?
UP: (Risos). Eu era muito amigo de um famoso playboy pau-lista, Rudy Crespi, que frequentava Nápoles e Capri, onde minha família tinha casas. Falava muito do Rio e ali me apresentou a uma pessoa extraordinária – a cantora lírica Gabriela Besanzone, que fora casada com o industrial Henrique Lage e morava na casa mais bonita do Brasil, no Parque Lage, onde eram dadas as maiores festas do país. Passei uns meses maravilhosos no Rio. Meu pai tinha me dado dinheiro para ficar alguns meses, mas em um mês e meio já tinha gastado tudo. Comprei um Studbacker e ia ao Copacabana Palace. Com um Studbaker e 20 anos, você não sabe a mulherada…

GW: Voltando ao Pietro Maria Bardi, como foi a relação com ele?
UP: O período mais importante de minha vida no Brasil passei com Pietro, meu irmão. Ele morreu com 100 anos. Amigos até o fim. Primeiro fomos sócios na Arte Hispânica, uma loja na Avenida Ipiranga – que foi o antiquário mais im-portante do Brasil. Depois, fizemos o Studio A, em Roma. Naquela época, o grupo Simonsen era o império brasileiro – mais rico que os Matarazzo. E o Wallinho Simonsen, dono da Panair, foi nosso sócio – além de eu projetar todas as suas casas. Para se ter uma ideia, inauguramos o Studio com uma retrospectiva de Renoir, cedida pelo Wildenstein, maior marchand do mundo. Fizemos depois Modigliani e Picasso. Durante três anos, toda a mídia italiana falava desses “brasileiros” loucos. O Wallinho era um playboy e tinha um castelo maravilhoso, a 20 quilômetros de Londres. No hotel Dorchester, então o mais luxuoso da Inglaterra, tinha um andar inteiro. Em Paris, um andar inteiro no Plaza Athenée. Em Roma, um andar no Excelsior. Na porta, uma frota de Rolls-Royces e Bentleys para atender os amigos.

GW: Uma época de sua vida – São Paulo, anos 80 – foi de muito embalo de sábados e sextas à noite…
UP: Sim, a era Gallery. Foi o mais incrível período da história de São Pau-lo. Dez anos inacreditáveis. Um dia, meu filho Luis Carlos, o Gugu, o Giancarlo Bolla, o José Victor Oliva e o José Pascovich vieram falar comigo. Queriam montar uma boate. O Gugu me pediu um empréstimo. O pai do José Victor também deu. Projetei e nasceu o Gallery, um mito. Para se ter uma ideia, Io-landa, a mulher do ex-presidente Costa e Silva, ligava de Brasília para reservar mesa.

GW: No tempo da Manchete, levamos o Lula para jantar lá e o título da matéria foi “A classe operária vai ao paraíso”…
UP: Isso mesmo (risos). Barbudão…Por conta dos empréstimos não pagos, acabei entrando como sócio na casa. Foi uma época única na noite paulistana.

GW: Você ainda se dá com a turma do Gallery?
UP: Maravilhosamente bem. O Victor é muito reconhecido a mim porque o levei várias vezes à Itália, sobretudo para fazer roupas com meu alfaiate em Nápoles – cidade com uma tradição única no mundo: quase todos os grandes alfaiates vieram de Nápoles. Um dos maiores era Mariano Rubinacci, que fazia roupas, por exemplo, para o presidente da Fiat, Gianni Agnelli, que vinha especialmente de Turim. Eu sempre fiz roupas com ele. E levei comigo o Victor Oliva, que tem um grande reconhecimento por mim.

GW: Quais foram as maiores festas do Gallery em sua avaliação?
UP: Uma delas não foi no Gallery… Aliás foi antes da inauguração oficial do Gallery, que ainda tinha muitas coisas por fazer. Eu explico. Na minha casa com a Vera dei uma festa para toda a sociedade de São Paulo, recebemos em jantar 400 pessoas, com a presença da Jazz Band, que iria se apre-sentar no Gallery, mas não estava nem pronta. À meia-noite em ponto, da nossa casa saiu uma procissão de centenas de carros. Chegamos ao Gallery e foi uma apoteose. Mas a maior noite do Gallery foi uma festa organizada por Eliana Selmi Dei, filha de Roberto, o rei do trigo, o magnata da farinha. Na época, Eliana era o carro-chefe da sociedade paulistana. Ela e todas as demais senhoras da alta sociedade se uniram para organizar uma festa que parou São Paulo. O Gallery explodiu. No clube-privê só se entrava de carteirinha. Foram uns 10 anos inacreditáveis. Duas festas por ano – uma, em dezembro, do Gugu e do Giancarlo, que faziam aniversário naquele mês. Outra, do Victor Oliva e do Pascowich, não me lembro o mês. E eu inventei a vitrine do Gallery. O Bardi emprestava coisas do Masp. Imagine que tivemos até As Duas Meninas do Renoir, do Masp. Na inauguração do Gallery tinha costumes do século 15 até hoje, incluindo o famoso manequim de Salvador Dali de dois metros de altura.

GW: Como você planeja seu dia a dia hoje?
UP: Não tenho programação nenhuma. Dirijo meu carro como um rapaz de 30 anos. Por sorte, minha cabeça está perfeita, em termos de raciocínio e reflexos. Ligo para meus amigos, e vamos almoçar e jantar. Muitas vezes, com minha ex-Vera. Temos um elo, a filha Maria, designer de interiores, que é um gênio em tudo o que faz e é uma das mulheres mais elegantes
que conheci. Fica chique com qualquer roupa.

GW: Você chegou aos 90 em plena forma, mas chegar aos 90 tem pelo menos um problema: a falta de contemporâneos… Como é isso pra você?
UP: De fato, isso me deixa meio deprimido… Vou pelo menos três vezes por ano para a minha terra. Fulano? Morreu. E beltrano? Morreu também. Ou “está nas últimas”…

GW: Para terminar, Ugo: você veio para o Brasil há quase 70 anos, saindo de uma Itália pós-guerra e chegando a uma São Paulo em vias de se transformar em metrópole…
UP: Uma época maravilhosa. A vida chique de São Paulo se concentrava na Rua Barão de Itapetininga, onde havia cafés onde a sociedade paulistana ia tomar chá de tarde. O Fasano ficava lá. Galerias de arte. Na Sete de Abril, sede do Diário, começou o Masp. Eu andava de ônibus maravilhosamente bem. Às vezes o único passageiro era eu. E o bonde!!

GW: Eu ia dizendo: você chegou em 1948. E já é brasileiro. Como o arquiteto Ugo vê esse novo Brasil em construção?
UP: Toda revolução tem uma consequência. Espero que esta de agora seja resolutiva. Dizem que aqui todo mundo é ladrão. Mas o modus vivendi no mundo inteiro sempre foi igual. Nunca uma grande empresa de construção, na Itália, na França, conseguiu fazer uma obra sem molhar a mão de políticos. Depois da Operação Mani Pulite, a roubalheira continuou na Itália. Aqui, abusaram. Eu nunca tinha ouvi-do falar em “bilhão”. Agora se ouve.