Stefan Behar

Com chocolate, paixão e um olhar sofisticado, Stefan Behar construiu um delicioso universo, que leva multidões ao Shopping Iguatemi, onde sua Stefan Behar Sucré encanta com verdadeiras joias de graciosidade.

Por: Mariana Santos

O universo do luxo nunca foi um mistério para Stefan Behar, que cresceu rodeado pelo bom gosto e sofisticação da mãe, Marcia Behar, uma primorosa anfitriã. Em 2011, aos 26 anos, Stefan trabalhava no marketing da Louis Vuitton, mas uma paixão da infância tomaria proporções que ele não poderia prever: os brigadeiros que fazia apenas para si extrapolaram a cozinha de sua casa, conquistaram os amigos e não demorariam para marcar presença em eventos de marcas como Dior e Armani. “Eu ainda trabalhava na Louis Vuitton e, às vezes, atendia ao telefone escondido para receber encomendas”, diz o chocolatier.

Os sonhos do jovem eram enormes, já não cabiam entre as quatro paredes do escritório em que trabalhava. Stefan, então, mergulhou de cabeça no mundo da confeitaria.

Esse é apenas o início da história da Stefan Behar Sucré, que oferece incontáveis produtos, como os chocolates pintados à mão e as compoteiras em cerâmica, recheadas com as saborosas criações de Stefan. Hoje, tudo o que é vendido na loja vem de sua fábrica (um galpão de 1500 m2 na Barra Funda), onde passa a maior parte de seu tempo.

GW: Você sempre trabalhou com o mercado de luxo?
Sou formado em Propaganda e Marketing pela ESPM e trabalhei quase uma década na Louis Vuitton, cuidando de marketing, mídia e eventos em onze países. Era muito feliz, mas já estava cansado dessa rotina de avião e hotel. Mas não pensava em fazer nada diferente disso.

GW: E quando o brigadeiro entrou na sua vida?
Quando era mais novo, toda sexta-feira tinha brigadeiro em casa e comia um prato inteiro. Acabei aprendendo a fazer esse doce com uma das cozinheiras de casa. Nas viagens que fazia, enquanto todo mundo queria comprar roupa, eu comprava chocolates para fazer brigadeiro. Quando a Maria Brigadeiro abriu uma loja ao lado do escritório da Louis Vuitton, disse para o pessoal do trabalho que eles deveriam provar o meu brigadeiro. Eu levava o doce em caixinhas simples para o escritório. Como criava sabores diferentes, as pessoas começaram a encomendar. No início, eram 300, depois 500, 1000 e foi aumentando… Eu pensava que talvez, um dia, isso pudesse virar negócio, mas tinha receio, afinal, a Maria Brigadeiro já existia. Por que iam comprar de outra pessoa? E tinha medo de largar tudo, empreender é difícil.

GW: Deve ser ainda mais difícil arriscar, quando se está bem no trabalho.
Sim. Já tinha sido promovido algumas vezes, ia pegar um projeto enorme para cuidar, a Louis Vuitton não parava de crescer, ia expandir novos mercados… Mas eu tinha esse sonho, só não sabia se era algo concreto ou loucura minha. As pessoas me incentivavam, diziam que eu poderia ser o “Zezinho Brigadeiro” (risos). Demorou um ano até decidir sair do emprego. Até que, um dia, pensei: “onde vou estar em cinco ou dez anos?”. Talvez estivesse no mesmo lugar, em um cargo mais alto. E o que tinha dentro de mim? Precisava por para fora, mostrar para o mundo.

GW: Morava com seus pais nessa época?
Sim. E já tinha avisado que ia pedir demissão. Mas não conseguia, o pessoal da Louis Vuitton insistia para eu ficar, aumentava meu salário. Mas acredito muito em Deus. Em uma semana de muita chuva, no inverno, pedi para Ele: “No dia em que o Senhor quiser que eu vá embora daqui, me abra um sol”. Na sexta-feira abriu um sol maravilhoso e pensei: “é hoje que vou embora.” Cheguei no trabalho e fiz a carta de demissão. Fiquei calmo porque sabia que tudo ia dar certo. E, de certo modo, tinha a segurança dos meus pais. Eles podiam não concordar com minha decisão, mas sabia que a ajuda deles viria.

GW: Você vem de uma família rica?
Minha mãe vem. Meu bisavô, Raduan Dabus, era um fazendeiro de café e um visionário. Antes da crise, vendeu todas as fazendas e construiu o bairro de Pinheiros, de ponta a ponta, e dividiu para os filhos. Todos aqueles prédios baixinhos foram construídos por ele. Foi um homem muito importante. Minha primeira cozinha foi em um desses prédios, que eram da minha mãe.

GW: Quando pediu demissão, já tinha na cabeça como começaria sua jornada no mundo dos doces?
Antes de pedir demissão, convenci minha mãe a me dar um espaço para montar uma cozinha. Quando finalmente saí da Louis Vuitton, ela me deu o espaço, a reforma e os utensílios. Meu pai ajudou. Era uma cozinha linda, charmosa, toda branca e preta, as torneiras foram trazidas de fora. E eu passei um ano viajando sozinho, mergulhei no mundo da confeitaria e da gastronomia. Fui para os Estados Unidos e para a Europa. Ia e vinha, porque ainda estava montando a cozinha. Experimentei o sorvete da Itália, o pão de Paris. Sabia que não queria fazer só brigadeiro, que ele podia ser o começo, mas não queria que representasse o todo. Também visitei o Museu de Toile de Jouy na França e trouxe um pedacinho de tecido. Decidi que ia estampar minhas caixas com algo assim. Conversei com uma designer que fazia coisas para a Louis Vuitton e passamos meses redesenhando a toile de jouy. Pedi ajuda da minha mãe para viabilizar a primeira leva de caixas.

GW: E quando teve a certeza de que tinha feito a troca certa?
Em 2013, fiz uma linha pequena de Natal. Prometi que se aquele Natal fosse muito bom, compraria sozinho uma máquina de chocolate italiana, que custava R$ 30 mil. Não ia pedir novamente para a minha mãe, queria mostrar que estava dando certo. Eu não tinha vida social, passava o tempo todo na cozinha, desenvolvendo produtos, desenhando. E consegui comprar a máquina! 2014 foi o ano que me organizei para aparecer mais para o mundo.

GW: Quando foi o boom da sua marca?
Um dia, minha mãe me pediu para preparar 100 caixas de brigadeiro. Ela levou para o pessoal da ginástica, do grupo de orações da Nossa Senhora do Brasil, do Club Athletico Paulistano… Meu telefone nunca mais parou de tocar.

GW: Você nunca tinha trabalhado com confeitaria. Como sabia quais ingredientes eram os melhores?
Sou muito curioso. Quando comecei a fazer as embalagens foi assim também. Pedia para as pessoas fazerem algo e, quando diziam que não conseguiam, eu insistia. E dava certo. Não aceito que me digam não. Com ingrediente é a mesma coisa. É só perguntar e, em algum momento, alguém diz onde estão as coisas. Para montar um bolo, por exemplo, eu queria o trigo vermelho de inverno, porque a farinha fica em suspensão na massa e o bolo cresce mais. Depois de muita pesquisa, descobri que temos uma farinha muito boa no Brasil, inclusive, uma parte do trigo utilizado nela é o vermelho, que vem da América do Norte. É a farinha Renata. Prometi nunca abrir mão da qualidade. Só uso ovo orgânico, o melhor leite, farinha de boa qualidade.

GW: Já começou certo de que o luxo estaria presente na sua linha de produtos?
Nunca tive dúvida disso. Eu me visto de forma supersimples, mas gosto de coisas que têm história, que são elaboradas, e sei que o que é elaborado não é barato. Minha mãe, avó e bisavó sempre serviram mel, geleia e compotas em compoteiras antigas. Elas valorizavam a história que havia ali. E eu queria algo handmade, exclusivo, não produção em escala. Eu desenhei uma linha de compoteiras de louça em formato de maçã. Hoje temos a compoteira em formato de ovo com flores, a colmeia e tantas outras.

GW: Quando surgiu a ideia de, finalmente, abrir uma loja?
O Iguatemi queria ter uma loja de chocolate há muitos anos. O Shopping me fez vários convites, mas eu respondia que não estava reparado para ter uma loja. Em novembro de 2016, fui chamado para ir até o Shopping porque queriam fazer uma proposta. Fui com o pensamento de recusar. Eles propuseram uma loja temporária de 20 ou 30 dias, em um espaço de trinta e poucos metros quadrados. E eu teria que montar tudo em 10 dias! Pensei e, no mesmo dia, liguei dizendo que aceitava. Eu e o Bruno, meu assistente, montamos a loja, com produtos para durar 30 dias e, em um dia, acabou tudo. A loja foi ficando um mês, dois meses e, quando passaram dez meses, disse que queria comprar o ponto, mas ele já estava prometido para outra loja. Em outubro de 2017, surgiu um novo espaço e comprei o ponto onde estou hoje.

GW: Como surgiu a ideia da barra de ouro gigante de Nutella, marca-registrada da sua loja?
Sou alucinado por Nutella. Um dia, comentei com uma amiga o quanto seria legal se existisse uma coisa muito grande com Nutella. Ela é diabética e disse: “Imagina, Stefan. Acorda. Quem vai comer isso? Se eu comer um quilo de Nutella, eu morro”. Mas eu comeria… E eu tinha acabado de voltar de uma viagem para Miami e ido a um restaurante em que tudo era over, enorme. Pensei: vou fazer e pronto. A barra surgiu em agosto de 2016 e não fez sucesso. Acho que porque ainda não acreditava nela. Mas decidi que ela seria um escândalo, então comecei a quebrar a barra para as pessoas entenderem o que era aquilo. Até que ela virou um sucesso. [Em julho de 2018, Stefan disponibilizou 1000 barras de 1 kg, com “Certificado de Autenticidade” numerado, em comemoração aos dois anos de sua criação. A ação duraria um dia com 50% de desconto, mas em apenas três horas, as barras esgotaram].