Gastronomia no presídio

Alta gastronomia num presídio de alta segurança

Um almoço inusitado no restaurante In Galera (na cadeia, na gíria italiana) – instalado no presídio Bollate, que abriga 1.100 presos, a 12 quilômetros do centro de Milão, onde cozinheiros e garçons são detentos, mas estão livres para servir delícias aos turistas em seu processo de recuperação. Nosso publisher almoçou lá – com toda liberdade.

Por: Norberto Busto

presidio6Era um sábado de outono, uma manhã chuvosa em Milão, quando fomos em busca de uma experiência única na gastronomia mundial: almoçar no restaurante In Galera, dentro do presídio Bollate, nos arredores da cidade. Agendamos a nossa visita – que é obrigatório – e chegamos pontualmente às 13h. Fomos recebidos por uma simpática host na portaria do presídio, que tem 1.800 detentos de várias partes do mundo cumprindo pena por delitos diversos.

No restaurante, que fica ao lado do portão principal, fomos recepcionados pelo maître Massimo, muito cortês, que nos conduziu até a nossa mesa.

De cara, me impressionou o bom gosto na decoração, a adega recheada de grandes rótulos e os garçons impecavelmente bem vestidos – todos cumprindo pena. São cinco garçons detentos no salão e dois na cozinha.

presidio2Um simpático garçom equatoriano, de nome Carlos, apaixonado pelo futebol brasileiro, já cumpriu três anos de sua pena e ainda tem mais seis anos para alcançar sua tão almejada liberdade.

Há vários grupos de pessoas almoçando e o maître Massimo – que é um homem livre – observa que as pessoas vêm ao In Galera primeiro pela curiosidade. E retornam pela excelência da sua cozinha e os preços convidativos. O In Gallera conquistou 4,5 estrelas das cinco possíveis do site TripAdvisor. Dificilmente estará um dia no Michelin, mas é um bom começo.

Numa das mesas, conversamos com a noiva Francesca Berttolini, que estava fazendo sua despedida de solteira com seis amigas, em clima de alto astral. Estaria fazendo sua despedida da liberdade de solteira? Na cadeia?

Degustamos dois Carrés Di Agnello, uma Terrina Di Storione, regado a um vinho tinto de muito boa qualidade, e a conta foi de 85 euros, cerca de 300 reais, menos que na maioria dos bons restaurantes de Milão. “Para pagar um preço honesto, você tem que vir para a cadeia”, escreveu, bem humorado, o crítico do jornal Corriere de la Serra, que adorou o jantar. Chamam a atenção também os pôsteres nas paredes – todos de filmes de presídios, como Fuga de Alcatraz, Um sonho de liberdade, etc.

presidio1No almoço, um cardápio a preço fixo – módicos 12 euros. O jantar sai a 40 euros. O melhor de tudo é que se trata de um projeto gastronômico que visa a uma reabilitação inovadora para a integração de ex-detentos na sociedade. O restaurante foi instalado numa sala da penitenciária e tem capacidade para 52 pessoas. Das janelas – com grades, é claro – é possível ver o pátio do presídio. Na cozinha, o chef profissional Ivan Mazzo comanda a equipe de cinco presos – livres para cozinhar.

Para entrar, nem é preciso dizer, os clientes devem passar por uma guarita de controle.  O restaurante é administrado por uma cooperativa – a Abc, em colaboração com a Price waterhouseCoopers, a Fundação Cariplo e a Fundação Peppino Vismara, todas envolvidas no saudável processo de recuperação de presos. Talvez não haja no mundo um experimento de reabilitação mais peculiar que a da penitenciária Bollate – que enfrentou muitas resistências públicas, mas hoje é um sucesso e talvez o embrião de outros projetos do gênero. A curiosidade em relação a um universo temido e proibido, como é o das penitenciárias, faz de uma refeição no InGalera, sobretudo à noite, uma aventura ousada que, de quebra, inclui uma refeição excelente. E, bom ressaltar, num clima de absoluta segurança. Tudo é muito bem policiado.

Pena que uma experiência como essa seja completamente inviável no Brasil – cujo sistema prisional está entre os piores e mais indigestos do mundo.