Joias do Marrocos

Este país está no imaginário de muita gente como um lugar mágico, em que se mesclam as areias escaldantes do Saara, oásis maravilhosos, mesquitas chamando para as preces, palácios de arquitetura deslumbrante rodeados por jardins, palmeiras e laranjeiras, culinária com temperos e especiarias incríveis, souks e encantadores de serpentes. O Marrocos é tudo isso e muito mais.

Por: Luciano Garcia

Chegar em Marrakesh, cidade do centro-sudoeste de Marrocos, é como descer em outro planeta. Tudo é diferente. A cidade divide-se em duas: a antiga, murada, chamada medina, e a cidade moderna, fora das muralhas. Na moderna, principalmente em Guéliz, há shoppings, lojas de grife, lanchonetes, modernas avenidas e edifícios de apartamentos. Mas é na cidade murada que vibra o coração de Marrakesh, em suas ruelas estreitas, trânsito caótico e exotismo de um lugar que acolheu muitos povos.

A cidade, que era a porta de entrada das caravanas de mercadores que vinham do Saara, traz na cor ocre dos muros e fachadas a cor da terra da região, muito árida e pedregosa, mas de paisagens cinematográficas. Não é por acaso que muitos dos grandes épicos de Hollywood – desde Lawrence da Arábia até Games of Thrones, passando por Indiana Jones, a Jóia do Nilo e Gladiador – tenham sido rodados na região. Em contraste com a cor ocre, estão os tecidos e a tapeçaria em cores intensas e vibrantes. Os cheiros também são outro traço inconfundível de Marrakesh. As especiarias multicoloridas são um deslumbre para os olhos e para o olfato.

Um detalhe arquitetônico, típico da cultura árabe dessa região, são as casas sem janelas para fora. Da rua, o que se vê são grandes fachadas cegas, cujo destaque é a porta, algumas delas verdadeiras obras de arte. As casas voltam-se para dentro e, ultrapassada a porta, entra-se em um pátio com jardins e palmeiras, cercado por janelas e sacadas floridas, que sobem ao redor por dois ou três andares, culminando nos terraços do teto para os banhos de sol. Essas casas, algumas muito modestas e outras verdadeiros palácios, são conhecidas como riad. É onde a família vive e recebe os amigos. Muitos hotéis da cidade murada estão instalados em riads, ou seja, nessas antigas casas de família. Com um trânsito infernal, o melhor é sair caminhando pelas vielas, praças e jardins tranquilos de Marrakesh, ou pelo agitado labirinto dos souks, como são conhecidos os mercados de rua. Apesar das desigualdades sociais, a violência urbana é baixíssima. O povo é muito hospitaleiro e as mulheres se vestem sem o rigor do fundamentalismo de outros países, com véus ou burca escondendo o rosto. Algumas até usam, e isso não as impedem de dirigir automóveis e pequenas motos que inundam as ruas. Na verdade, a maioria da população não é árabe, é berbere, povo que se estabeleceu por lá antes deles.

Da Praça Jemaa el-Fna ao Jardim de Majorelle

A praça Jemaa el-Fna é o ponto de encontro de Marrakesh. Um local que ganha nova vida à noite, quando lota de populares para assistir a performances de mágicos, músicos, dançarinos, grupos de teatro, berberes em trajes tradicionais e encantadores de ser-pentes. É uma visita obrigatória, embora a demanda turística venha tirando um pouco sua originalidade.

Outra atração são os labirínticos souks, que começam na praça e se espalham em várias direções. É onde se pode encontrar o melhor em artesanato, tecidos e tapetes, vestimentas, luminárias, bolsas, sapatos e casacos de couro, doces e especiarias, e o precioso óleo de argan. O segredo para sobreviver nos souks é saber negociar. O edifício mais reconhecível de Marrakesh é o minarete da mesquita La Koutoubia. Apesar de os não muçulmanos estarem proibidos de entrar, vale a pena um passeio até lá para contemplar a construção e percorrer os jardins. É um bom local para ouvir de perto um dos chamamentos para a oração, feitos pelo almuadem, ou muezin, pelos alto-falantes da mesquita. Outro ponto importante para visitar é a Madraça Ben Youssef. Dá-se o nome de madraça a uma espécie de seminário muçulmano, e esta escola corânica, fundada no século XIV, chegou a receber até 900 alunos, e cada um só poderia ingressar quando tivesse memorizado os 6.600 versículos do Alcorão. Hoje é um monumento histórico, representando uma das mais belas obras de arquitetura do Marrocos. Do lado de fora das muralhas de Marrakesh, a grande atração é o Jardim Majorelle. Projetado pelo pintor francês Jacques Majorelle e construído entre 1920 e 1930, ele tem plantas e aves de diferentes partes do mundo, mas se destacou, principalmente, pelo tom de azul do edifício principal. Os jardins foram posteriormente adquiridos por Yves Saint-Laurent, cujas cinzas descansam ali.

Hotel La Mamounia

Poucos lugares no mundo possuem um hotel que é uma atração turística. Esse é o caso do La Mamounia, onde Winston Churchil tinha seu escritório. Foi no Mamounia, nos anos 1950, que Hitchcok se hospedou e trouxe para jantar James Stewart e Doris Day, do filme O Homem que Sabia Demais. A lista de celebridades que passou pelo hotel é impressionante: Charles Chaplin, De Gaulle, Edith Piaf, Marlene Dietrich, Paul McCartney, Elton John, Ray Charles, Maurice Ravel. Todos pertencem um pouco ao La Mamounia e fizeram desse hotel de luxo um mito. Desde sua abertura, em 1929, o La Mamounia encarna o refinamento marroquino. Uma atmosfera oriental feita de materiais nobres trabalhados com maestria, jogos de perspectivas e de luzes, de harmonia entre o vegetal e o mineral, tudo buscando a plenitude dos sentidos.

FEZ: a cidade das muralhas

Fez, ou Fès, em francês, é uma das três cidades imperiais do Marrocos. As outras são Marrakesh e Rabat. Depois de 6 horas de viagem de trem, em uma cabine de primeira classe, chegamos à cidade que tem a maior medina do mundo árabe. As cores em Fez são claras, puxando para diferentes tonalidades do bege. Tudo em Fez é mais tranquilo, apesar de a medina ser bem maior. É como se a cidade vives-se apenas para si mesma, sem querer se exibir para os visitantes.

Ela é conhecida por seus curtumes a céu aberto, as Tanneries de Chaouwara, com seus enormes tanques de tintas para tingir o couro cru. Vistos do alto, eles se assemelham à paleta de uma gigantesca aquarela, com tintas naturais, de origem mineral, vegetal – como o açafrão – ou orgânicas. A tinta branca, por exemplo, é cocô de pombos. O odor é terrível, razão pela qual os visitantes recebem um ramo de hortelã para ter junto ao nariz.

A cidade continua sendo o maior centro de cerâmica e mosaicos marroquinos. De origem antiga, a cerâmica de Fez é reconhecida pelo seu colorido azul cobalto, cor símbolo da ci-dade, junto com o verde e o amarelo-ouro. A cerâmica esmaltada nasceu em Fez, há muitos séculos. Os mosaicos são incríveis. Por isso, uma visita a Hotfs Fès é imperdível. É um centro de formação de ceramistas, orientados por grandes mestres, onde se pode observar todo o processo de fabricação das peças, desde a massa bruta, o desenho, a composição, a pintura, o esmalte e a queima.

Além dos curtumes e da cerâmica, há muito o que ver em Fez. Explorar a medina é um passeio inesquecível. Os souks de Fez não vendem apenas para turistas, mas principalmente para os habitantes locais. É onde eles fazem suas compras do dia a dia. Panelas, tecidos, linhas de costura, botões, roupas, sapatos, frutas, legumes, pão, doces. Um dos pontos interessantes, que se pode “sentir” ao caminhar, é o da confecção de utilidades de bronze, como tachos e bacias, que os artesãos vão martelando até chegarem ao seu estado final. É como uma orquestra desafinada que se escuta ao longe. Um panelaço, para ser mais preciso.

Hotel Riad Fès

Um dos destaques da hotelaria da cidade é o Riad Fès. Restaurado em todo o seu esplendor de origem, o hotel está situado no coração da cidade antiga, oferecendo uma vista espetacular para a medina e para a Cordilheira do Atlas. Os estilos diferentes dos quatro pátios internos proporcionam experiências distintas, com suas esculturas islâmicas, portas antigas, miríade de mosaicos e piano de cauda sob um lustre Fassi, criando uma atmosfera deslumbrante. Os pátios se assemelham aos de Alhambra, com seus delicados arcos rendilhados e espelho d’água de um verde-esmeralda incrível.

Fora da medina, encontra-se o Hotel Sahrai, do mesmo grupo. Guardando ainda traços da cultura marroquina nos detalhes, é um projeto de arquitetura moderna, clean e de linhas retas, sofisticado e funcional. Oferece excelentes vistas para toda a parte antiga e murada da cidade.

EL JADIDA: herança portuguesa

Nossa última etapa da viagem é El Jadida, ou Mazagan, como a cidade é mais conhecida. Também fizemos de trem o trajeto desde Fez. Localizada a 100 km de Casablanca, foi construída pelos portugueses no século XV, na costa do Atlântico, dentro de uma fortaleza com um sistema próprio de captação de água. No século XVIII, o marquês de Pombal resolveu abandonar Mazagan, entregá-la aos marroquinos, e criar uma nova Mazagan no Brasil, para onde foram levados os moradores. É a Mazagão que hoje existe no Amapá. Apesar das cisternas e da cidade portuguesa original, a grande atração da região é o Mazagan Beach & Golf Resort. Esse resort é imenso, com 500 quartos e suítes, e muito procurado pela nobreza de outros países árabes e celebridades internacionais. Todos os quartos são espaçosos e têm decoração contemporânea, mas bem marroquinas, com opções de vista para diferentes locais: para as piscinas, para o campo de golfe e áreas verdes, para a praia e para o alto-mar. Os oito restaurantes e bares desse resort oferecem várias opções gastronômicas, desde pratos tradicionais marroquinos aos hits da culinária internacional. Você pode fazer suas refeições também no terraço do jardim do hotel. Seu grande diferencial é o campo de golfe, projetado por Gary Player, um dos melhores jogadores do mundo, com 6.885 m2 e 18 buracos PAR 72, às margens da praia, seguindo os contornos das dunas e as características naturais do terreno.

SERVIÇO
Luciano Garcia viajou a convite da Mandala Tours, operadora especialista em destinos exóticos e roteiros personalizados. Tel.: (11) 3259 6110 / www.mandatours.com.br