Ora, Pois, Pois!

Uma visita calorosa e deliciosa aos vinhedos portugueses, com seus vinhos que fogem das mesmices das castas internacionais.

Por: Walter Tommasi*

Vinhos desgustação no Balácio de Bussaco

Vinhos desgustação no Balácio de Bussaco

Portugal, nossa terra-mãe, é hoje um dos destinos mais procurados pelos turistas, por sua beleza, singeleza e uma excelente relação de custo-benefício para quem a visita. Sua generosa e marcante gastronomia é sempre acompanhada por grandes vinhos, dos redondos Alentejanos aos potentes Douro, passando pelos gastronômicos Dão, os longevos Bairrada e os frescos Vinhos Verdes – só para citar algumas regiões. Lá os brasileiros são sempre recebidos com muito calor humano – e muita gente atribui isso ao fato de falarmos a mesma língua, mas, honestamente, acho que essa receptividade nobre faz parte do espírito português, que carinhosamente chamo de genética da hospitalidade. Quanto à lingua ser a mesma, será que isso é verdade? Toda vez que viajo a Portugal, acabo tendo motivos para grandes risadas, especialmente por ter dificuldade em acompanhar a rapidez da fala dos locais. Lembro que, na viagem passada, eu não conseguia entender a garçonete que me oferecia “blodichclat”. Depois de duas tentativas, e de pedir para ela falar mais pausadamente, finalmente consegui entender que ela queria dizer ”bolo de chocolate”. Mas prometo que um dia chego lá… Bem, vamos à nossa deliciosa aventura, organizada pela Vini Portugal, que nos permitiu ter uma visão ampla das mais importantes áreas de produção de vinhos de Portugal e de conhecer, em detalhes, suas varietais autóctones que a todos encantam por gerar vinhos que fogem das mesmices das ditas castas internacionais.

Palácio Nacional de Queluz

Palácio Nacional de Queluz

Regiões visitadas

Lisboa
Anteriormente conhecida como Estremadura, que congre-ga diversas DOCs (Alenquer, Arruda, Bucelas, Carcavelos, Colares, Encosta D’Aire, Lourinha, Óbidos e Torres Vedras). Suas principais castas brancas são Arinto e Fernão Pires, e, entre as tintas, Aragonez e Ramisco. Durante nossa visita, participamos do “Encontro com o Vinho e Sabores”, realizado no Centro de Congressos de Lisboa, contando com a participação de todas as regiões produtoras de Portugal. Destaco o Morgado Santa Catarina e o Bucelas Paulo Laureano. Momentos muito agradáveis também tivemos no passeio organizado pela área de Turismo de Portugal, composto de um almoço no restaurante By the Way, além de visitas ao Palácio Nacional de Queluz e ao descolado centro comercial LX Factory, com direito a delicioso chocolate quente no Landeau e compras nas lojas locais, finalizando o dia com um jantar no badalado restaurante Tágide, que tem uma das mais lindas vistas noturnas de Lisboa. Todos os pontos visitados recomendadíssimos para aqueles que forem para Lisboa.

Alentejo
Uma das regiões mais conhecidas no Brasil pela maciez de seus vinhos. Suas principais castas brancas são a Arinto e Antão Vaz; entre as tintas, Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouchet. Lá tivemos dois jantares: com José Portugal Ramos e com a Enofofum/Carmim, maior vinícola do Alentejo. Destaques para o Marquês de Borba Reserva e para o Reguengos Garrafeira dos Sócios.

Ora poisBairrada
DOC cultuada pelos apreciadores de vinho longevos, e por ser a primeira região de Portugal a elaborar vinhos espumantes de alta qualidade. Suas principais castas brancas são Arinto e Bical, enquanto, entre as tintas, destacam-se Baga, Touriga Nacional e Syrah. Lá visitamos o rei da Baga, Luiz Pato, a gigante Caves Aliança e o mítico Hotel Bussaco. Infelizmente, o revolucionário da Bairrada  estava viajando, mas sua astuta filha Maria João nos acolheu de forma muito amável, com sensacional almoço no Rei dos Leitões. Difícil foi escolher meus favoritos entre os vinhos servidos, mas vou me arriscar indicando o gastronômico espumante Informal, o elegante Luis Pato Vinha Barrosa Vinhas Velhas e para o Luiz Pato Vinhas Velhas 1995, aberto especialmente para nós, declarados apreciadores de exemplares mais maduros. Próxima parada, Cave Aliança: recebidos pelo “pilhado” Mário Neves, uma das pessoas mais elétricas e comunicativas que já tive a oportunidade de conhecer, com direito a visita ao fenomenal Aliança Underground Museu, também propriedade de Joe Berardo, dono da Caves Alianza, é um dos maiores  colecionadores de arte da Europa. Em nossa prova de dez vinhos, destaco o Aliança Bairrada Baga Tinto 2009. Para fechar o dia, um jantar e pousada no mítico Palace Hotel do Bussaco, inaugurado em 1917, onde fomos recebidos por Antônio Rocha, responsável pela área de vinhos do grupo. As histórias são tantas que mereceriam uma matéria à parte, mas vou apenas citar os vinhos provados: Brancos (2001, 2003, 2013), tintos (2001, 2011), além de duas joias especialmente abertas para nossa visita, um Branco 1956 e um Tinto 1983. Incrível como esses vinhos melhoram com o tempo de garrafa. Passei pela lojinha e comprei três garrafas dessa preciosidade para minha adega. Dão – Tal como na Bairrada, as áreas são bem pequenas e, por muito tempo, os produtores se reuniram em cooperativas que vendiam para grandes empresas engarrafadoras – talvez por isso existam tão poucas marcas famosas na região. Nas castas brancas, destacam-se Encruzado e Bical; entre as tintas, a Touriga Nacional, originária dessa região, tem papel fundamental, sendo seguida por Afrocheiro, Jaen e Aragonez. Nossa programação aqui foi uma grande prova no Solar do Dão, com a presença de nove produtores, que nos apresentaram seus principais vinhos, seguidos de um almoço com deliciosas comidas típicas da região – que me fizeram dormir na van quando saímos para o Douro. Dentre os vinhos provados, destaco: Falorca Garrafeira 2009, Estrémuas Touriga Nacional 2008, Carvalhão Torto Encruzado 2014, e Perdigão Touriga Nacional 2009.

Primeira Garrafa da aguardente Adega Velha da Quinta da Aveleda

Primeira Garrafa da aguardente Adega Velha da Quinta da Aveleda

Douro
A estrela maior dos vinhos portugueses dos últimos anos, grande campeã internacional entre os lusos. Além dos vinhos, a região é reconhecida pelas mais belas paisagens vinícolas do mundo, especialmente as que margeiam o Rio Douro. E foi nessa pujante, mas ainda bucólica região, que completamos a quarta etapa de nossa viagem, com visita a quatro produtores. As principais variedades brancas são Malvasia Fina, Gouveio e Viosinho. Entre as tintas, Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz. Vamos às visitas: Quinta do Crasto, definitivamente a vista mais bonita entre os produtores do Douro. Lá fomos recebidos pelo enólogo Manuel Lobo Vasconcellos, que nos serviu sete de seus vinhos, e o maior destaque ficou para o Quinta do Crasto Tinta Roriz 2013. Próxima parada, Quinta dos Avidagos, de propriedade da família Nunes de Matos, onde pousa-mos. Por muitos anos, eles produziram apenas vinhos do Porto. Desde  2001 decidiram elaborar vinhos tranquilos, sob responsabilidade enológica do badalado Ruy Cunha. Meu favorito foi o Branco 2014, um corte de Malvasia fina, Gouveio, Arinto e Viozinho, que esbanjou mineralidade e frescor. A seguir, a esperada visita à Quinta da Gaivosa, um de meus produtores favoritos da região, onde  fomos  atendidos pelo dinâmico e generoso Domingos Alves de Souza, com direito a visita “com emoção” nas trilhas  do íngreme vinhedo que dá nome à vinícola, num dia chuvoso. A seguir, visita à nova adega,  com a prova de  sua inteira  linha de vinhos, na qual destaco o Personal Alves de Souza 2006, vinho marcado pelos aromas oxidativos de grande frescor e estrutura, o tradicional e elegante Quinta da Gaivosa 2009, e o Abandonado 2011, vinho aveludado, rico, com tremendo poten-cial de guarda. Para finalizar, um almoço em família comandado por dona Lucinda. Ines quecível. Finalizando nossa estada, conhecemos a Quinta Santa Eufêmia, vinícola  fundada em 1864, em local repleto de marcas da história – como o marco pombalino de número 27, de 1756, um dos muitos implantados pelo Marquês de Pombal para demarcar a região. E a capela-farol, que ajudava os navegantes do Douro da época. Destaque para os Portos, que me fizeram colocar a mão no bolso e comprar três deles para minha adega: um fresco Porto White 10 anos, por 12 Euros, um delicioso Tawny 20 anos, por 25 Euros, e um alucinante Tawny 30 anos, por 56 Euros. Após esse longo e delicioso dia, só mesmo um descansinho na van rumo à região dos vinhos verdes, nossa próxima parada.

A simpática Maria João Pato

A simpática Maria João Pato

Vinhos verdes
Foi por causa dessa região que muitos de nós passaram a conhecer os vinhos portugueses, ainda na época em que as importações de vinho eram difíceis. Quem não se lembra de Casal Garcia, Gatão, Casal Mendes, Calamares, Magriço, sempre celebrados nas mesas dos portugueses que aqui viviam e dos brasileiros que davam seus primeiros passos no mundo dos vinhos europeus – grupo este em que me incluo. As principais castas brancas da região: Alvarinho, Arinto e Loureiro. Entre as tintas, a maioria ainda pouco conhecidas: Alvarelhão, Vinhão e outras. Para aqueles que só tomaram os rótulos acima citados, sempre marcados pelos aromas perfumados, pela leveza, frescor e certa agulha, certamente se surpreenderão com a complexidade e a qualidade dos atuais Alvarinhos, Loureiros e Arintos. Isso foi comprovado em duas visitas: Quinta da Lixa, da famila Meireles, que nos recebeu no moderno Hotel Monverde, uma das propriedades da vinícola onde tivemos uma prova, muito bem conduzida pelo enólogo da casa, o competente e didático Carlos Teixeira. Meus favoritos: Quinta da Lixa Branco e Quinta da Lixa Loureiro 2015. Segunda visita à estupenda sede da Quinta da Aveleda,  da família Guedes desde 1870, e que mereceu atenta e minuciosa visita, guiada pelo gestor de clientes Francisco Guerreiro, que calmamente nos contou inúmeras histórias que o local carrega consigo. Uma foi a Janela Manuelina do século 16, na qual, segundo a história, D. João IV teria sido aclamado Rei de Portugal, mais tarde oferecida a Manuel Pedro Guedes da Silva da Fonseca, que a transportou para os jardins da Quinta da Aveleda. Outras construções visitadas foram as casinhas que apelidei de Casinhas do Hobbit, e uma torre marcada pelo simbolismo, a Torre das Cabras, com três andares para albergar cabras anãs. Destaque, entre seus vinhos, para o Aveleda Branco 2014 e para o Follies Touriga Nacional 2011. Um agradecimento especial à Vini Portugal por essa inesquecível oportunidade e um viva aos bons vinhos de Portugal. Ora, pois.

*Walter Tommasi – Consultor e Palestrante
walter_tommasi@yahoo.com.br
wtommasi.blogspot.com