Brasil no Mercado

A bem-vinda revitalização do Mercado de Pinheiros, alavancada por chefs de peso da nossa gastronomia – como Checho, Rodrigo, Atala e Marcos Livi – traz ao público lojas especializadas em produtos nacionais, temperos e ingredientes que representam pequenos produtores, dos pampas ao sertão.

Por: Shirley Legnani

Brasil-no-Mercado-1“O gol já foi feito, agora o mais difícil vem pela frente – manter o negócio”. Assim o chef Alex Atala define sua participação no projeto de revitalização do Mercado de Pinheiros, que envolveu o instituto ATÁ, organização gerida pelo mais famoso chef do País, e outros cozinheiros badalados, engajados na missão de valorizar os pequenos produtores e comerciantes, além de atrair público para o espaço.

Localizado próximo ao Largo da Batata, o Mercado de Pinheiros foi inaugurado em 1971. Local de compras de muitas famílias, principalmente da alta sociedade, foi perdendo clientela com a chegada dos grandes supermercados, no final dos anos 80. Sua infraestrutura também foi decaindo, com problemas de infiltração e depreciação do prédio de dois pavimentos, distribuídos em quase Brasil-no-Mercado-2cinco mil metros quadrados. Foi então que, em 2012, surgiu o primeiro impulso para a possível revitalização do mercado – Alex promoveu ali sua famosa “Galinhada”, evento que tornou seu Dalva e Dito um point obrigatório nos fins de semana e que hoje tem vida própria. Mas foi a desastrosa versão da Galinhada realizada numa das viradas culturais no Minhocão que acabou acendendo uma luz verde para o potencial da gastronomia tipicamente brasileira. Alex relembra o episódio: “O número de pessoas superou qualquer expectativa de público que poderíamos ter. Não tivemos condições de atender a todos e isso mostrou que havia, sim, uma demanda por espaços e eventos que trouxessem à tona a gastronomia brasileira, a gastronomia de rua”, diz o chef. Desde então, Alex se reuniu frequentemente com a Prefeitura para apresentar o conceito de um projeto de valorização do decadente espaço do Mercado de Pinheiros. Conseguiu: “A prefeitura investiu 1,6 milhões de reais na obra. Havia muitos problemas no prédio, inclusive elétricos. Foi um diálogo que levou anos, mas valeu a pena. Sempre tive um carinho especial por esse prédio e acho que precisamos de mais mercados assim em São Paulo. São pouco mais de dez em toda a cidade”, explica Atala.


Brasil-no-Mercado-3Diversidade brasileira

Ao lado do ATÁ, há outras instituições envolvidas no projeto, como a Central do Cerrado, o Instituto Sócio Ambiental (ISA), o grupo CGC, ao qual pertence o Quintana, do chef Marcos Livi, e o Instituto Auá, além de representantes de pequenos produtores e comunidades rurais e ribeirinhas de todo o país. Com isso, um punhado de produtos conhecidos localmente apenas nos Pampas, no Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica atravessaram fronteiras e chegaram à cidade. Caso da polpa de butiá (pequena fruta amarela típica do sul), do mel do Xingu, da pimenta baniwa e do queijo defumado na madeira de cambará.

A assinatura de Atala é mais que importante nessa ação. Mas o primeiro grande chef a desembarcar no mercado foi o boliviano Checho Gonzales, em 2014, com sua Comedoria Gonzales – grande sucesso com seus ceviches e outros pratos da culinária latina. Desde então, o mercado começou a atrair um público diferente e novos entusiastas da gastronomia. “Não quero que isso seja visto como uma tendência. Isso é algo real que veio para ficar. A gastronomia tem seu papel social, de engajamento. Espero que esse modelo não seja copiado por copiar, mas sim que seja entendido como algo transformador”, diz Checho.

Brasil-no-Mercado-5A chegada do Mocotó

Seguindo o chef boliviano, veio em seguida o também célebre Rodrigo Oliveira, que transformou o Mocotó na Meca nacional da comida nordestina – recebendo chefs e turistas de todo o mundo em sua casa na Vila Medeiros. Para o Mercado de Pinheiros, ele trouxe o Mocotó Café. “Isso aqui é muito empolgante, eu não poderia estar de fora. Agora é continuarmos o trabalho de atrair mais e mais pessoas”, diz Rodrigo, que recebe centenas de pessoas em seu movimentado box. Além de cafés, serve ali quitutes como baião de dois e tapiocas.

De senhorinhas com sacolas a jovens estudantes e famílias inteiras nos fins de semana, o Mercado de Pinheiros vem sendo uma atração para compras e um passeio seguido de almoço.

São quase mil pessoas por dia. O consumo nos boxes mais antigos também aumentou, superando o receio inicial pela chegada dos famosos chefs. A peixaria Nossa Senhora de Fátima, desde 1963 no local, quando este ainda se chamava Mercado dos Caipiras (o prédio original foi inaugurado em 1910) também sentiu esse reflexo crescente. “Conversamos muito com a associação do bairro e com nossos colegas comerciantes que estão aqui há anos e acredito que todos estão gostando”, diz Atala, responsável pelo box que comercializa produtos amazônicos pelo ATÁ. Para representar o sul do País, a empreitada cabe ao chef Marcos Livi, que, com uma van, percorre cidadezinhas do Paraná ao Rio Grande do Sul – passando pela bela Santa Catarina – para buscar temperos, mates, molhos, queijos serranos, nata e outras delÍcias para o box Quintana. “O mercado vai ferver, ganhar vida cada vez mais. Percebi uma aceitação incrível do cliente frequentador, tanto os antigos como do novo público. Já cresceu 50% e o trabalho não é só o de comercializar, mas sim o de ter uma função social. É uma venda de conceito e não de impulso. Uma venda qualitativa, como uma forma de fortalecer a cozinha do Brasil”, diz Livi. Sobre a proposta de ser um espaço transformador, há projetos de palestras e workshops no Mercado, muitos ministrados pelos próprios produtores e chefs. Um projeto cultural e gastronômico em torno da importância do uso dos ingredientes do Brasil.

Mercado de Pinheiros
Rua Pedro Cristi, 89 – Pinheiros.