O relógio de US$ 980 mil e outras estrelas da Alta Relojoaria

Alguns têm design extravagante e são cobertos de diamantes;  outros introduzem materiais hi-tech ou apostam em insanas  complicações mecânicas. Conheça as criações mais surpreendentes do Salão Internacional de Alta Relojoaria de Genebra.

Por: Tatiana Sasaki, de Genebra

Entre o escultural e o rebelde, os spikes de brilho hipnótico tornam o ato de ver as horas um mero detalhe. Goste ou não do design que atrai, e ao mesmo tempo, repele, é impossível ficar indiferente ao relógio-bracelete Diamond Outrage apresentado pela Audemars Piguet no Salão Internacional de Alta Relojoaria de Genebra. Depois do Diamond Punk e do Diamond Fury, essa nova extravagância completa a trilogia de peças one of a kind da tradicional casa suíça. Com 9.923 brilhantes e 354 diamantes de lapidação baguete, sua beleza cintilante resulta de uma técnica especial de engaste chamada snow-setting, capaz de posicionar as gemas tão próximas umas às outras a ponto de cobrir quase a totalidade da superfície de ouro branco. É, sem dúvida, daquelas peças de exceção, que fazem quem acredita já ter visto tudo em relógios repensar o significado de haute horlogerie.

Ainda que nos últimos anos a indústria, de modo geral, esteja mais conservadora em relação aos seus lançamentos, focando especialmente nos modelos de entrada, é fato que sempre há aquelas marcas que, como a Audemars Piguet, não se intimidam com a crise e trilham o caminho da exuberância, introduzindo pedras preciosas, soluções mecânicas e inovações tecnológicas em criações superexclusivas.

“Peças excepcionais demonstram o savoir-faire e a capacidade inventiva de uma maison, assim como criam desejo e inspiram os clientes”, explica Marcelo Buarque, country manager da Jaeger-LeCoultre. Segundo ele, os relógios hi-end complementam o ciclo estratégico de um nicho da indústria que, atenta às mudanças do consumo, busca paralelamente atrair um novo perfil para o mercado de luxo com referências mais acessíveis, frequentemente em aço. Criações como o Hybris Artistica Mystérieuse, por sua vez, têm como destinatários não o jovem comprador, mas colecionadores e conhecedores, isto é, um público que aprecia e valoriza a estética refinada e a mecânica complexa de um turbilhão voador que gira sobre si em 60 segundos e ao redor do mostrador em 12 horas.

Para encantar esse connoisseur, a Cartier retoma seus clássicos, investe em mecanismos complicados e reapresenta seu animal símbolo, a pantera, em modelos femininos repletos de brilhantes. Já a Piaget, que comemora os 60 anos do Altiplano, adorna o Feather Marquetry com uma combinação de penas de pato, pavão e galo. Assim como pintura em miniatura, esmalte e gravura, a arte plumária é dos ofícios artísticos raros do universo relojoeiro, um território de conhecimento e beleza no qual as mãos sábias dos artesãos dotam um objeto de alma e o transformam numa verdadeira obra de arte.

A joalheria francesa Van Cleef & Arpels leva a arte decorativa tão a sério a ponto de combinar distintas técnicas em seus relógios. Para embelezar o Lady Arpels Papillon Au-tomate, por exemplo, o minucioso trabalho manual envolve a aplicação de esmalte champlevé e o translúcido plique-à-jour, assim como escultura em madrepérola e engaste de safiras coloridas e diamantes. Tudo, claro, para realçar o efeito tridimensional da delicada borboleta, que bate as asas tanto ao toque do botão como aleatoriamente. Essa magia, cuja movimentação das asas varia segundo a reserva de marcha, acontece graças ao módulo de autômato mecânico que consumiu três anos de desenvolvimento e tem quatro patentes pendentes. Trata-se de uma autêntica “poetic complication”, nome que a Van Cleef dá aos mecanismos das joias que narram a passagem do tempo com graça e beleza.

Mas, afinal, quando e onde usar relógios desse porte, cujo valor pode alcançar centenas de milhares de dólares? “É como um vestido de alta-costura: você sentirá o maior prazer ao usá-lo numa ocasião especial”, comenta Buarque. “Mas nada impede que seja também adotado como parte de um estilo pessoal em um look hi-lo.”

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Diamond Outrage, relógio-bracelete da Audemars Piguet, na versão inteiramente cravejada de safiras azuis
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Luxo e inovação

Não são só os brilhantes e os metais preciosos os astros da festa. Quando o assunto é alta-relojoaria, a inovação caminha lado a lado com a tradição. Nesse sentido, a Richard Mille mais uma vez radicaliza a proposta com um relógio tão louco que, de imediato, virou sensação. O RM 50-03, fruto da parceria com a escuderia McLaren-Honda, pesa apenas 40 gramas, incluindo a pulseira elástica. É o cronógrafo split-seconds com turbilhão mais leve do mundo, porque seu calibre foi esqueletizado ao limite e porque sua caixa de carbono foi melhorada com a aplicação do Graph TPT, um nanomaterial pouco denso proveniente da Fórmula 1. Claro que a exclusividade e a tecnologia embarcada têm seu preço: cada peça da edição de 75 exemplares custa US$ 980 mil.

Para Yamit Linde, diretora de comunicação e marketing da Panerai, a introdução de novos materiais e novas tecnologias é também uma das atribuições da alta-relojoaria. “A proposta é buscar a inovação, constante-mente, e desenvolver soluções significativas, sem jamais abrir mão do DNA”, afirma. A Panerai mergulhou fundo nessa ideia e, mantendo seu caráter robusto e esportivo, explorou as propriedades do carbono e utilizou esse material, que é leve e altamente resistente, na caixa, no mostrador e também no mecanismo. Assim, o novo calibre de corda manual do Luminor 1950 Carbotech Lab-Id tem componentes revestidos de compostos de baixa fricção que dispensam qualquer tipo de lubrificação, o que permite à marca oferecer a garantia estendidíssima de nada menos que 50 anos. Editado em série de 50 exemplares, foi um dos pontos altos do Salão de Genebra.

A ideia de evolução também está presente nos lançamentos masculinos da IWC. Para a criação do Da Vinci Perpetual Calendar Chronograph, os engenheiros da casa de Schaffhausen relembram o legado de Kurt Klaus, 0 relojoeiro genial que se tornou uma lenda em meados da década de 1980 ao construir o histórico calendário perpétuo, cujas indicações se ajustavam unicamente pela coroa. Esse avanço, que posicionou a IWC entre as grandes e revolucionou a relojoaria como um todo, tem sido constantemente atualizado de modo que o calibre manufaturado do novo Da Vinci combine, no mesmo submostrador às 12, as fases da Lua e o contador duplo do cronógrafo. “É um relógio que mostra a capacidade de superar desafios técnicos sem perder o sentido de heritage”, comenta Isabella Ferreira, country manager da IWC Schaffhausen. Peças como essa e o novo turbilhão buscam suprir a demanda de clientes de alta complicação em mercados maduros.

Mais atrevidas e experimentais que as grandes maisons, as jovens marcas independentes têm aportado um certo frescor à relojoaria contemporânea e não decepcionaram no Carré des Horlogers, espaço dedicado a elas dentro do SIHH. Destaque para o design insano da Horological Machine n° 7 da MB&F e para o incrível pocket watch da HYT, que exibe as horas por meio de líquidos numa caveira.

Dentro da mais pura tradição, a Vacheron Constantin consegue ser implacável. Valendo-se dos seus mais de 180 anos de expertise, a mais antiga manufatura em atividade ininterrupta exibiu o Celestia Grand Complication, com nada menos que 23 complicações, a maioria delas voltadas à medição astronômica. Feito exclusivamente sob encomenda, ele usa dois mostra-dores – a frente e o verso – para indicar a hora civil, a solar e a sideral. Só mesmo os nerds geniais da manufatura poderiam incluir, entre outras funções, equação do tempo, zodíaco e solstício em uma única peça, que pode chegar a custar US$ 1 milhão. Ver essa e outras maravilhas relojoeiras ao vivo, tocá-las e apreciá-las em seus mínimos detalhes é a experiência mais marcante do evento que, ano a ano, aponta tendências e desafia modismos.

Geneva Watch Fair

Paralelamente ao SIHH, a Geneva Watch Fair apresentou novidades da TAG Heuer em uma embarcação exclusiva ancorada às margens do lago Léman, bem em frente ao Beau-Rivage Palace e outros hotéis de luxo de Genebra. Com a presença do CEO da marca, Jean-Claude Biver, a TAG mostrou em primeira mão a nova versão do Carrera Heuer-01, que agora surge com caixa e pulseira de cerâmica preta, além da atualização do Carrera Calibre 16, cronógrafo esportivo de look vintage que ganhou caixa de titânio e pulseira de couro envelhecida. Para as mulheres, a linha Aquaracer Lady tem uma seleção de possibilidades com direito à pulseira de cetim, diamantes sobre o mostrador azul e até madrepérola. Ao que tudo indica, foi só um “esquenta” para os grandes lançamentos que serão revelados na Baselworld, gigantesca feira de relógios que acontece em Basel, no fim de março.